rumos

quando não há verbetes para o porvir

Rudson Vieira

..rumos seguem, mesmo em silêncio. Dobrei o horizonte sob os joelhos e ponderei; rumos seguem, mesmo introspectivo.

Novo do mesmo

Se todas as possibilidades na ordem e relação das forças já não estivessem esgotadas, não teria passado ainda nenhuma infinidade. Justamente porque isto tem de ser, não há mais nenhuma possibilidade nova e é necessário que tudo já tenha estado aí, inúmeras vezes. (Friedrich Wilhelm Nietzsche).


IMG_6410.JPG

Se todas as possibilidades na ordem e relação das forças já não estivessem esgotadas, não teria passado ainda nenhuma infinidade. Justamente porque isto tem de ser, não há mais nenhuma possibilidade nova e é necessário que tudo já tenha estado aí, inúmeras vezes. (Friedrich Wilhelm Nietzsche).

Felicidade. Satisfação. O ser humano vive em busca disso. A sensação de estar satisfeito com a vida independentemente das circunstâncias, ser feliz. Para alcançar este estado, as pessoas definem os meios, muitos até o fim. O ser humano então pode ser compreendido como um animal que se move pelo interesse. Coloniza territórios e grupos socioculturais. Entretanto necessita de limites / fronteiras, físicas e psíquicas; do muro, portões, grades, paredes, até mesmo a roupa no corpo e uma ideia na cabeça.

A organização de um povo em sociedade busca viabilizar os fluxos entre demandas e anseios. Entretanto, a mão forte de um interesse muitas vezes sobrepõe os fluxos, desencadeando em conflito social. O Conflito social é o ponto de tensão para reorganização de uma sociedade e seus parâmetros de desenvolvimento e gestão. O pensamento político para ser eficiente deve conceber de forma madura o conceito de público, privado e compartilhado. Aplicando assim técnicas de gestão por resultados e equilíbrio orçamentário (como a iniciativa privada) tendo como beneficiário a opinião pública e o povo representado. Assim, a entropia gerada pelo conflito social viabiliza a ordem social. O sistema democrático é ineficaz em garantir satisfação do povo; ainda “amador” o sistema estaciona em uma entropia que mantém alguns fluxos definidos e conceitos e regras divergentes.

Neste cenário, instaura-se o populismo (em sua versão remodelada ou original) como mecanismo de gestão de uma massa que prefere o desenvolvimento estável e acesso a poder de consumo do que a democracia (fato recentemente constatado em pesquisa da Organização das Nações Unidas (ONU) e do Estudo eleitoral Brasileiro (ESEB), mostrando que 62% da população estão insatisfeitas com a democracia e abriria mão da mesma por estabilidade econômica e social.).

Percebe-se assim que a sociedade não sabe o que fazer com a liberdade e poder que o processo democrático concede ao sujeito. O sistema político gera insatisfação, todavia a burocracia para a participação popular faz com que as pessoas fiquem estagnadas no trono da reclamação sem agir por meio dos mecanismos democráticos de pressão à gestão pública. O governo populista (do Estado Novo ao Golpe Militar) é marcado por aspectos como o carisma, a demagogia, o assistencialismo, principalmente em relação aos trabalhadores. Revolvendo-se a memória popular constata-se: No Brasil, o líder populista de relevância foi Getúlio Vargas (1930 – 1945/ 1951 – 1954), tendo a Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT) como maior legado, que formaliza na mão do Estado os direitos do trabalhador. A execução da famigerada política do pão e circo representa bem essa estratégia de governo que busca dar à população a ideia de confiabilidade, proteção, direitos garantidos e atendimento dos anseios coletivos e individuais. As ações populistas independem dos governos de direita ou de esquerda (em lados opostos, épocas diferentes, mas populistas: Getúlio, João Goulart e Leonel Brizola, Jânio Quadros, Carlos Lacerda, Ademar de Barros, Juscelino Kubitschek), mas amparam-se em personagens políticos e desdobramentos do respectivo modelo de gestão. Entretanto, é possível perceber uma incoerência no que tange a algumas práticas arbitrárias, que demonstram um progresso pautado pelo autoritarismo e supressão de direitos civis (disfarçada de proteção da tradição popular). A aparente inclusão social populista de certa forma alimentava a demanda que se propunha atender, em um processo alienante de promessas de construção de uma nação promissora, e pequenas ações efetivas.

A população durante muito tempo não soube identificar que estava sendo imersa em um sistema de configuração política alienante. Eleito era quem se destacava em carisma, ações assistenciais, demagogia e não em histórico e experiência política. Partidos políticos e programa de governo não eram decisivos no processo eleitoral.

"Mesmo dando a ideia de que os líderes populistas fossem “irresistíveis” não podemos deixar de dizer que certos grupos políticos também fizeram forte oposição a esses líderes nacionais. O crescimento populacional brasileiro e a abertura dos novos desafios conviviam com a polarização da política internacional, que dividiu as nações do mundo entre o capitalismo e o comunismo. Desta forma, grupos ultra-conservadores e setores de esquerda encontravam-se em pontos longínquos do cenário conciliador do fenômeno populista brasileiro. Comunas” e “reaças” eram representantes de uma tensão política que colocou, nesse mesmo período, a democracia em xeque. A ascensão da Revolução Cubana, em 1959, trouxe medo e esperança a diferentes grupos da nossa sociedade. Ao mesmo tempo, grupos militares instituíram a urgência de uma intervenção política que impedisse a formação de um governo socialista no Brasil. Viveu-se em uma economia que sabia muito bem promover a prosperidade e aumentar a miséria. Foi nesse momento que, durante o Governo de João Goulart (1961 – 1964), os movimentos pró e anti-revolucionários eclodiram no país. A urgência de reformas sociais viveu em conflito com o interesse do capital internacional. Em um cenário tenso e cercado de contradições, os militares chegaram ao poder instaurando um governo ferrenhamente centralizador. Em 1964, o estado de direitos perdeu forças sem ao menos confirmar se vivemos, de fato, uma democracia "(Rainer SOUSA).

O sociólogo Francisco Weffort defende que o populismo atua de duas formas ambíguas: como estilo de governo com interesse em atender pressões (demandas) populares e como política de massa forjando a ideologia de governo de forma autoritária. Neste contexto, o Chefe de Estado se confunde com o próprio estado sob o qual a massa se submete sem poder de questionamento ou interferência. O líder se faz protetor e algoz do povo. Este sistema no Brasil pode ser verificado até o fim da década de 70, mas a variação desse sistema, o novo populismo desencadeado a partir de 1980 carrega a essência e apenas varia nas plataformas de execução e controle do populismo.

O neopopulismo (1980) veio com o limiar da Globalização e flexibilização das fronteiras. Neste período, a privatização tão criticada, que surgiu como estratégia para redução da dívida pública, aponta incoerência do comportamento social. Esse último acreditava que o desenvolvimento econômico sobrepõe opinião e direitos sociais. O Neopopulismo, aliado a um neoliberalismo, gerou polêmica a adesão gradativa no país, com pontos de absorção espontânea pelo mercado investidor. No entanto, os diversos casos de corrupção do alto escalão da Nova República, envolvendo diversos patamares do Governo, aliada à frustração social das promessas de governo do então Presidente Mauricinho (Collor), fez com que Collor fosse afastado em 1992. Um marco em 1994 (Plano Real de Fernando Henrique Cardoso) e derrocada em 1998 (Instabilidade econômica e social de FHC). Diante deste cenário, faz-se relevante considerar o pensamento de Durkheim a respeito da adaptação do indivíduo ao meio diante dos fatos sociais (e suas características concernentes a Generalidade (padrão comportamental e de pensamentos comuns), Exterioridade (Fato intrínseco no indivíduo) Coercitividade (obrigação, papel social do indivíduo). Em sociedade, o indivíduo enquanto sujeito se mobiliza por ideologia (imposta ou trabalhada via agenda setting*) e assim estabelece grupos sociais. As interferências desses grupos na organização social levaram o Estado a se reorganizar, saindo de uma posição ditatorial, para uma postura dita neoliberal, instituindo um neopopulismo.

Em sua obra, Durkheim aborda o Estado como órgão e o instrumento de uma nova sociabilidade, protegendo e regendo a sociedade rumo a um desenvolvimento. Considerando sua argumentação de que o indivíduo possui duas consciências (Individual e Coletiva) pode-se verificar pelo contexto social, que o populismo e neopopulismo atacam a consciência coletiva e a manipulam a partir de nuances percebidas de uma consciência individual adormecida.

Neste cenário, importante considerar as leituras de sociedade que fazia Zygmunt Bauman, com a sociedade da liquidez. O ser luta para ser humano em um cenário de valores e conceitos flutuantes, não perenes. A pressão por constantes mudanças favorece a cultura do esquecimento, onde tudo o que deveria permanecer e gerar marcos no desenvolvimento humano se liquefaz. A tecnologia neste contexto é um facilitador que superficializa a reflexão humana e seus padrões culturais. Paira no ar uma sensação de desconhecimento e fragilidade.

Contudo, o neopopulismo utiliza instrumentos que estabelecem na comunidade uma falsa sensação de liberdade e poder. O empoderamento e engajamento tão recorrente em discursos contemporâneos. No entanto, a consciência individual dos sujeitos parece chegar a um ponto de tensão, fato que evoca interferências na consciência coletiva e desdobra na divisão social do trabalho, com remodelamento dos papéis, mantendo a vanguarda em uma incógnita. O que farão os governos para conduzir a massa; quais as novas estratégias ou modelo? O que farão os sujeitos sociais enquanto indivíduos? Qual a configuração social do provir?

Referências: NIETZSCHE. Obras Incompletas – Coleção Os Pensadores: seleção de textos de Gérard Lebrun; tradução e notas de Rubens Rodrigues Torres Filho; posfácio de Antônio Cândido – 3ª edição. São Paulo: Abril Cultural, 1983. p: 387 a 397.

SOUSA, Rainer Gonçalves. "O regime liberal populista"; Brasil Escola. Disponível em brasilescola/uol/historiab/o-regime-liberal-populista/htm. Acesso em 19 de janeiro de 2017

DURKHEIM, Émile. Lições de Sociologia – a Moral, o Direito e o Estado, 1969 - Editora da Universidade de São Paulo, 2ª edição.

*Teoria formulada por Maxwell McCombs e Donald Shaw, o Agenda-setting consiste na hipótese de que a opinião pública considera mais importante em seus assuntos diários os temas que são veiculados com maior destaque na imprensa; sendo que as notícias veiculadas e o foco das narrativas são determinados conforme singularidades de quem detém o controle dos veículos de comunicação ou até mesmo a setores de uma sociedade.


Rudson Vieira

..rumos seguem, mesmo em silêncio. Dobrei o horizonte sob os joelhos e ponderei; rumos seguem, mesmo introspectivo..
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/sociedade// @obvious, @obvioushp //Rudson Vieira
Site Meter