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Pensador de tudo aquilo que se move no ponto cego do seu percurso.

A Cabana Existencial

De que se sustenta a Arquitetura? Será apenas uma combinação de materiais e técnicas que resultam numa construção para ser apreciada através dos nossos olhos cartesianos ou das nossas objetivas? Ou será algo mais complexo, que envolve o Ser Humano na equação e mistura todos os seus sentidos, toda a sua consciência física e psíquica?


Um Janela para o Imaginário.jpg Uma Janela para o Imaginário | © Paulo Monteiro

Antes de saciarmos o nosso desejo por nomes e imagens, é importante perceber o que é, de facto, a Arquitetura. Não passa, certamente, por memorizar todos os arquitetos, vivos ou mortos, com todas as suas obras, construídas ou planeadas. De nada servem se, ao olharmos para elas, não conseguirmos filtrar o certo do errado, o essencial do desnecessário, o sensitivo do artificial. Arquitetura é muito mais do que apenas Arquitetura e esta não se faz olhando apenas para si própria.

Este texto pretende refletir sobre o impacto que uma simples cabana, construída, através da técnica manual, para um filósofo sem quaisquer estudos em Arquitetura, teve no pensamento arquitetónico contemporâneo. Não é necessário descrever esta cabana, nem a dissecar de alto-a-baixo, até porque não é da técnica que se trata. Apenas é preciso imaginar uma janela que abre para um extenso vale rodeado por montanhas cobertas de prados e bosques sob um céu azul de verão.

Heidegger, desenraizado da cultura vigente, onde o pensamento tecnológico e positivista cego reprimia qualquer tipo de ligação com o passado, com as tradições e costumes, com a natureza e seus pertences, troca a sua cidade por uma pequena cabana, na Floresta Negra, na esperança de se reencontrar no mundo (Dasein – “ser-aí”).

Pormenor de Morning Sun de Edward Hoppe Pormenor de Morning Sun | Edward Hoppe

Esta pequena cabana, de seis por sete metros, contém apenas três divisões: a cozinha, um quarto e um estúdio. Toda construída em madeira, excetuando um muro em alvenaria de pedra, oriundos da zona, como que “obtidos na ação natural de abrir uma clareira no bosque para a sua construção”, com um telhado de quatro águas, típico da região, não contém decorações nem objetos tecnológicos. É, portanto, uma cabana de aspeto convencional, humilde e vazia, propícia à introspeção do Ser. Através dela, Heidegger reflete sobre a “Casa Existencial”.

A “Casa Existencial” é feita de materiais naturais, que assinalam a passagem do tempo e a ligação com o lugar, a autenticidade do habitar. É pequena e não contém qualquer espaço para o convívio público.

É, para o filósofo, “o lugar do autêntico, é o refúgio que protege do exterior, da inclemência do tempo e dos agentes naturais, mas também do mundano e do superficial”. Não contém qualquer vestígio tecnológico, que perturbe a conexão do Ser com a Terra.

É o reino do interior. Não do Espaço interior, mas do Homem interior. A ideia de espaço é substituída pela de tempo. É a manifestação dos conflitos existenciais com o tempo (nostalgia), o produto de uma idealização da densidade e da solidez do passado frente à banalidade do presente. E quem habita esta casa é aquele que constrói o seu pensamento através dela.

“A toda hora, em todos os dias, eles estão presos ao rádio e à televisão. Semana após semana, os filmes os transportam a insólitos, embora frequentemente vulgares, estados de imaginação e lhes dão a ilusão de um mundo que não é o mundo. As revistas ilustradas estão por toda a parte. Tudo o que as técnicas modernas de comunicação estimulam, isolam e conduzem, tudo isso está muito mais imediatamente próximo do homem de hoje do que os campos ao redor de sua granja, mais próximo do que o céu sobre a terra, mais próximo do que as nuanças do dia e da noite, mais próximo do que as convenções e os costumes de seu povo, do que a tradição do seu próprio mundo.” (Martin Heidegger)

Playtime - Jacques Tati Playtime | Jacques Tati

Na conferência “Construir-habitar-pensar”, proferida aos arquitetos que estavam destinados a reconstruir as cidades alemãs no pós-guerra, Heidegger recorre à sua ideia de “Casa Existencial” (a sua cabana) para desenvolver a sua argumentação crítica à ideia de conceção do mundo através da tecnologia e da matemática modernista: “Pensemos por um momento em uma casa de campo na Floresta Negra, que um habitar, embora rural, construiu há dois séculos. A casa foi erguida num esforço de instalar univocamente, nas coisas, terra e céu, divinos e mortais. E foi situada na vertente da montanha que está protegida do vento, entre as pradarias, próxima da fonte. Desejou-se para ela um telhado com um grande beiral, que, com sua adequada inclinação, sustém o peso da neve e, avançando até abaixo, protege a habitação contra as tormentas das longas noites de Inverno. Não se negligenciou o nicho para a imagem do nosso Senhor, detrás da mesa comunitária, arranjaram-se os lugares sagrados para os momentos do nascimento e da ‘árvore da morte’, que é como se chama ali o ataúde, e, assim, sob o telhado, às distintas idades da vida imprimiu-se, de antemão, o lacre da sua passagem pelo tempo. Um ofício, surgindo ele próprio do habitar, e que necessita, além disso, de seus instrumentos e andaimes enquanto coisas, construiu a casa de campo."

O habitar existencial surge como obstáculo à cidade moderna e seus implementos técnicos, contra aquilo que leva tanto ao aniquilamento da natureza, quanto ao esquecimento da tradição.

Vertical City - Hilberseimer Vertical City | Hilberseimer

Como estudante de arquitetura, sem qualquer ligação com a Filosofia ou Literatura, para além das suas leituras ocasionais, é-me difícil expressar sobre temas que ultrapassam aquilo que me é real. Porém, por vezes, dou por mim, fechado num quarto vazio, apenas com uma janela aberta para a paisagem, e penso.

Os receios e as angústias de Heidegger e outros pensadores na sua época, provavelmente, hoje seriam os mesmos, onde a consciência humana vive agarrada a memórias efémeras e a imagens vazias, num tempo descoordenado. Tudo é produzido com a finalidade de proporcionar um prazer visual instantâneo, afastando-nos cada vez mais da realidade temporal espacial. Cada vez mais, menos parte fazemos do nosso mundo. Não o presenciamos nem o apreciamos.

Olhos tecnológicos, sentimentos estandardizados, movimentos robóticos, pensamentos cartesianos.

Hoje, admiramos construções de grande técnica, de qualidade tecnológica, com “belas” fachadas, essenciais à boa fotografia (depopulada). Porém, são vazias de relações espaciais e temporais. Cada vez menos humanas.

“Em vez de uma experiência plástica e espacial embasada na existência humana, a arquitetura tem adotado a estratégia psicológica da publicidade e da persuasão instantânea; as edificações se tornaram produtos visuais desconectados da profundidade existencial e da sinceridade." (Juhani Pallasmaa)

The Mirror Suitcase Man - Rui Calçada Bastos.jpg The Mirror Suitcase Man | Rui Calçada Bastos

A Arquitetura é do Ser Humano, e, como tal, deve ser pensada para este. A veracidade na Arquitetura faz a sua beleza. O que ou quanto construir não é tão importante quanto a sua razão, o seu significado.

A reflexão de uma pequena cabana de seis por sete metros está na origem de um novo olhar sobre a casa, como expressão de uma subjetividade que se constrói a si mesma através da problematização do significado do construir (bauen), a partir do confronto dos fatos originais e fundamentais do habitar.

Esta cabana tornou possível a conservação de muitos centros históricos, assim como de tantas experiências de formas alternativas de ocupação nas periferias metropolitanas (entre o rural e o urbano). Devido a esta cabana, hoje são impensáveis políticas que se mostrem alheias ao discurso da sustentabilidade. Foi através dela que se iniciaram reflexões acerca do “Genius Loci”, ou que se criaram expressões como “Anchoring”.

Por isso, esta pequena cabana tem muito mais arquitetura do que muitas construções de que, hoje, arregalamos o olho. Esta pequena cabana é verdadeira e, portanto, é bela.


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