s o m e t h i n k

sometimes we do some thoughts about something

p a u l o m o n t e i r o

Pensador de tudo aquilo que se move no ponto cego do seu percurso.

Uma Possível História Do Mundo Prometido

O que estamos nós a fazer com nosso “Lar”? Quererá o Ser humano destruir a sua casa ou será, apenas, um animal irracional que, involuntariamente, tudo faz, para a dizimar? À medida que vamos poluindo o nosso mundo, eliminando espécies animais, aumentando o ódio entre nós próprios, entretemo-nos à procura de um novo mundo que nos acolha, esperando que, desta vez, seja um planeta mais inteligente.


sebastiaosalgado1 © Sebastião Salgado

Por vezes dou por mim a questionar-me se cá estarei para ver o fim da nossa “Animalidade”. Como arquiteto, depressa me ponho a imaginar como construiria o mundo Pós-Apocalíptico. Se me agarraria às raízes que nos trouxeram até este cataclismo, tendo em conta as diferenças culturais, os diferentes modos de viver; ou se apenas planearia algo novo, que nos unificasse podendo, dessa forma, o Ser “animal” viver em harmonia.

- No entanto, no início de formação do meu pensamento, surgem-me sempre os mesmos materiais de construção: pedra, ferro, madeira, etc., o que cria em mim uma enorme confusão. Depois de nos cansarmos de viver com tudo aquilo que necessitamos e recorrermos à tabula rasa, não restarão técnicas de domínio sobre os materiais naturais, supondo que eles ainda existam. Ora, teria, assim, que ser tudo novo, inclusive os materiais. –

Aprenderíamos a manejar lixo, portanto. Ao princípio, instalar-nos-íamos em valas ocultas sobre montanhas de lixeiras, de modo a proteger-nos dos clones mutantes que nós próprios criamos antes da Grande Catástrofe, com o propósito de manter vivo o nosso amor sobre os animais que havíamos extinguido. Com o passar do tempo, utilizaríamos pequenos aparelhos eletrónicos, agora obsoletos, como armas de arremesso de modo a impor respeito sobre os seres selvagens ou até sobre qualquer outra comunidade, algures escondida noutra lixeira. Alimentar-nos-íamos do que a Terra nos desse.

- Surge de novo um problema no meu raciocínio. A Terra já nos deu tudo, restando-nos por esta altura, apenas papel, a que chamávamos dinheiro, e petróleo, que se alastrou pela água. Pois bem, depressa habituar-nos-íamos a consumi-los, tal a nossa capacidade de adaptação, como diria Darwin, pasmado com tal visão. –

Sebastião-Salgado-6.jpg © Sebastião Salgado

Do perigo animal, do frio, da sede e da fome já não morreríamos. Chegava então a altura de nos superarmos e mostrarmos ao nosso planeta cinzento que almejaríamos ser algo mais.

Porém, por nós próprios não conseguiríamos. Teríamos, então, que escolher algo superior para nos guiar. Nasceria assim Deus, a quem obedeceríamos cegamente. No entanto, devido às desavenças já existentes entre as diversas comunidades, uma só religião não chegaria. Todas as comunidades criariam a sua, independentemente de todas terem o mesmo objetivo. Com o passar dos tempos, certos Deuses se tornariam mais poderosos e arrogantes que outros, querendo o mundo só para si. Com a religião cresceria, assim, a vontade de se ser superior entre a nossa espécie, criando maiores disputas de território.

- Neste momento paro os meus ensaios novamente e deparo-me com um outro dilema. O que poderia demonstrar a diferença de poder entre as comunidades? Através da riqueza? Seria necessário um elemento raro, que permitisse comprar bens essenciais à vida (lixo, dinheiro e petróleo). Existiriam, certamente, espalhadas pelo planeta, algumas (poucas) plantas que resistiriam à catástrofe e que, bem conservadas, voltariam a florescer. Seriam, então, essas plantas sobreviventes, a nova moeda de troca. –

Por esta altura, a nossa Técnica já seria bastante avançada. Teríamos a capacidade de construir grandes pontes de lixo sobre os rios de petróleo, de modo a alargar os nossos impérios e partir em busca da Lixeira Prometida. As cordilheiras de entulhos transformar-se-iam em grandes metrópoles, que adquiriam códigos civis e leis, pensadas estrategicamente de modo a proporcionar uma maior diferença entre os pobres e os ricos. Os grandes palácios, construídos com os resíduos de maior durabilidade dariam a cara à cidade, que esconderia nas suas costas, os bairros pobres de lixo mais degradável, onde o petróleo nem chegava. As diferenças acentuar-se-iam.

Thumbnail image for maxresdefault.jpg © Sebastião Salgado

Instrumentos de guerra também se desenvolveriam e, assim, se daria inicio aos primeiros genocídios, que eliminariam, pela segunda vez, diferentes comunidades com diferentes pensamentos e visões.

O mundo tornar-se-ia cada vez mais desigual, onde os grandes reinos controlavam e manipulavam os pequenos, para proveito próprio. Tudo isto sob a palavra de Deus, inteligente criação humana. A espécie humana viveria cada vez mais angustiada, já que uma porção de lixeira, um garrafão de petróleo ou uma nota de 10 ao jantar não chegariam para viver decentemente. Com isto, começariamos a duvidar do ser celestial e até da própria felicidade.

- Como poderemos mudar esta discrepância de riqueza já existente, tornando o ser humano menos infeliz? Penso eu. Depois de alguma reflexão chego a uma conclusão fácil. Com a quantidade ilimitada de recursos artificiais existentes, basta dar-lhes uso e criar capital que, igualmente distribuído, poderá comprar os bens, devolvendo o bem-estar ao Homem, podendo, dessa forma, desejar por mais e melhor e, com isso, atingir a felicidade. –

Chegaria a Revolução Natural, que possibilitaria uma sistematização da fabricação e um maior desenvolvimento na tecnologia. Através desta, seria possível criar um aparelho que reproduziria plantas. Assim, os bens vitais tornar-se-iam acessíveis a grande parte da população.

Esta mudança, criaria, no entanto, uma vontade, nas grandes potências, de capitalizar o seu poder. Com isto, os engenheiros da destruição encontrariam a nova formula de sucesso. Em vez de privarem os bens dos cidadãos, como haviam sempre feito, agora impingiriam tudo a todos, mais do que alguma vez um Ser poderia sonhar. Tudo se tornaria possível. A ideologia de Felicidade alterar-se-ia. Não seria já uma questão de saúde, bem-estar, mas sim de consumismo, de obtenção de bugigangas que de nada serviam a não ser para demonstrar riqueza.

0.jpg © Sebastião Salgado

A ganancia se desenvolveria na mentalidade humana. Para os grandes, pelo prazer de verem os seus contentores de plástico cobertos de plantas. Para os pequenos, o prazer de demonstrar que o seu lixo era melhor que o do vizinho. Os bancos “verdes” cresceriam, alimentando o sonho do Homem, que dava o que não tinha para poder ter o que não precisava. Seria assim criada a divida.

Aos poucos, estes graciosos bancos retirariam tudo o que era do Ser humano, novamente empedernido na sua pobreza, embora cheia de quinquilharias inúteis.

As diferenças regressariam com uma força avassaladora, criando o caos nas grandes metrópoles de lixo. Os ricos guardavam já enormes florestas dentro dos seus quintais de muros de plástico, que contemplavam nas horas em que não ambicionavam por mais. E os pobres com as suas cabanas de entulho penhoradas, endividar-se-iam mais, obcecados com prazeres momentâneos. Ninguém seria, nesta época, verdadeiramente feliz.

O mundo, uma enorme floresta, onde se avistaria, ao olharmos do céu (onde procuraríamos um planeta melhor) diversas clareiras onde se situariam as, cada vez mais pequenas, pobres metrópoles de lixo. Seria impossível viver neste mundo, completamente devastado pelo crescimento da natureza.

Chegariam, por fim, as grandes guerras que acabavam, de vez, com a raça humana.

Thumbnail image for sebastic3a3o-salgado-sebastiao-salgado-51.jpg © Sebastião Salgado

- A minha idealização sobre um mundo posterior acaba da mesma forma que a originou, um macaco que se pensou mais do que isso. –


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