sacudindo palavras

Sacudir esse mundo é algo que me atrai, me distrai e me impulsiona a querer sempre mais.

Erica Ferro

Escrever é essencial para mim. Sou amante das palavras sinceras, das frases contundentes e dos textos inquietantes. Sou escritora porque escrevo e amadora porque tenho uma relação intensa de amor com as letras. Sacudir esse mundo é algo que me atrai, me distrai e me impulsiona a querer sempre mais.

Memórias roubadas

"Para Sempre Alice" é um filme que nos encaminha a reflexões extremamente válidas sobre a existência. Ao vermos o drama de Alice nos chocamos e nos emocionamos porque a realidade em que ela vive, de um contínuo esquecimento de si e dos outros, é palpável. Poderia ser você ou eu na pele de Alice. Isso é assustador. A vida é um emaranhado mistério. O que temos é o agora. Aproveitemos o presente, pois o depois não pertence a nós.


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Para Sempre Alice há muito estava na minha lista mental de filmes sobre os quais preciso pesquisar e assistir. A temática me chamou a atenção. Quando finalmente o assisti no feriado do dia 7 de setembro, parei e refleti bastante, inclusive a respeito de medos. Não lembrava de ter muitos medos, não realmente grandes e desconcertantes. E não tenho, a não ser o medo de esquecer: de mim, dos outros, do mundo, da vida, de tudo. Nunca parei pra pensar sobre isso porque realmente não é algo doce e agradável de se ficar pensando. Sendo assim, deu pra imaginar, ao menos um pouquinho, o total desespero e desolação de Drª. Alice Howland (Julianne Moore), uma incrível professora de Linguística, escritora e palestrante premiada, extremamente reconhecida em sua área, ao descobrir o seu Alzheimer precoce.

Alice sempre priorizou o conhecimento em sua vida. Para ela, o estudo e o conhecimento são uma espécie de passaporte para o sucesso pessoal e profissional. Em sua visão, um dos meios de se alcançar uma vida digna e com chances de reconhecimento era entrar numa Universidade. Sempre estudou muito e se dedicou quase que integralmente a vida acadêmica. Muito bem articulada, Alice esbanjava inteligência e coerência. Por esse motivo, discutia sempre com a filha caçula Lydia (Kristen Stewart), a única que não havia ingressado no mundo universitário.

Eis, então, que um precoce Alzheimer resolveu cruzar o seu destino. Tudo começou quando, em uma palestra, ela esqueceu de um termo do campo linguístico: léxico. Daí, as coisas vão, aos poucos, se degringolando em sua vida acadêmica, bem como em sua vida pessoal. Ora bolas, Alice com Alzheimer? Mas ela só tem 50 anos!

Não faz sentido, e chega a ser cruel. Como uma mente tão inteligente, tão culta, vai se deteriorando de tão arrasadoramente rápida? É muito desesperador. Nesse ponto do filme, meu cérebro já funcionava a todo vapor. Será que tudo nessa vida é em vão? O que vale a pena? Com o que realmente se deve gastar o nosso tempo de vida? Essa e muitas outras perguntas giravam loucamente na minha cabeça.

Uma das cenas que me levou às lágrimas foi o discurso de Alice num encontro de pessoas com Alzheimer e seus cuidadores. Eu fiz questão de digitá-lo, pois quero compartilhá-lo com vocês. Faz-nos pensar bastante acerca de vários pontos cruciais da nossa vida. Ei-lo:

“Encontro-me aprendendo todos os dias a arte de perder. Perdendo minha compostura, perdendo objetos, perdendo sono, mas principalmente perdendo memórias. Durante a minha vida, acumulei muitas memórias. Elas se tornaram, de certa forma, meus bens mais preciosos: a noite em que conheci meu marido, a primeira vez que peguei meu livros nas mãos, ter filhos, fazer amigos, viajar o mundo. Tudo o que acumulei na vida, tudo pelo que trabalhei tanto, está tudo sendo arrancado de mim agora. Como podem imaginar, ou como sabem de fato, isso é um inferno. Mas fica pior. Quem nos levará a sério estando tão distantes do que éramos? Nosso comportamento estranho e frases atrapalhadas mudam a percepção que os outros têm de nós e também nossa autopercepção. Nós nos tornamos ridículos, incapazes, cômicos. Mas esses não somos nós. Essa é a nossa doença e, como qualquer doença, tem uma causa, tem uma progressão. E pode ter uma cura. Meu maior desejo é que meus filhos, nossos filhos, a próxima geração, não tenha que encarar o que estou encarando. Mas, por enquanto, continuo viva. Sei que estou viva. Tenho pessoas que amo demais. Há coisas que ainda quero fazer. Eu me condeno por não conseguir me lembrar das coisas, mas ainda tenho momentos de pura felicidade e alegria. E não pensem que estou sofrendo, por favor. Eu não estou sofrendo. Estou lutando. Lutando para ser parte das coisas. Para permanecer conectada à pessoa que eu era. Eu digo ‘Viva o momento’. É tudo o que eu posso fazer. Tento não me punir demais... E não me punir demais por dominar a arte de perder. Mas uma coisa que eu vou tentar reter é a memória deste discurso hoje. Ela irá embora, eu sei que irá. Talvez já tenha ido amanhã. Mas significa muito estar falando aqui hoje, como o meu antigo ‘eu’ ambicioso, tão fascinado por comunicação.”

A ideia de ver as minhas memórias escorrerem pelos meus dedos quase me causa uma crise de pânico. Mas é uma possibilidade, é algo real. O Alzheimer pode abater qualquer um. Ninguém está livre. Em seu discurso, Alice diz que fala a si mesma pra viver o momento. E, de verdade, é isso que importa. Porque esse momento, o agora, é tudo o que você e eu temos, caro(a) leitor(a). Alice tentou, de todas as formas, não deixar as lembranças escaparem: usava o celular pra deixar lembretes pra si mesma. Em um dado momento, quando ela esquece de onde deixou o celular, entra em pânico. Como é que vai se lembrar de seu nome, idade, nome dos filhos, onde mora etc?

A grande verdade é que não podemos controlar o inevitável. Alice tentou ao máximo que pôde recordar de si, dos outros e do mundo, mas o Alzheimer é escorregadio, não se pode domá-lo – ao menos por enquanto. Não sou crítica de cinema nem nada do gênero, mas, em minha leiga opinião, o roteiro e as atuações foram impecáveis. Julianne Moore dá um show na pele de Alice. Representou muito bem a fortaleza, doçura e, especialmente, a fragilidade de sua personagem em medidas exatas. Não foi sem razão que Para Sempre Alice lhe rendeu um Oscar de Melhor Atriz. Sobre a Kristen Stewart, já li umas opiniões bem fortes a respeito de sua atuação em outros filmes, a exemplo da tão famosa e badalada saga Crepúsculo (que eu nem vi nem pretendo, pois a temática não me instiga). E, honestamente, não achei Kristen tão mal como Lydia. Pelo contrário, dentre todos os personagens, Lydia foi quem se mostrou mais paciente e humana quando Alice mais precisou. Kristen não me decepcionou ao ser a filha que ficou ao lado da mãe até o fim. Alec Baldwin, como o marido John, me cativou de início, mas, embora haja explicações pra suas atitudes no desenrolar do filme, não há justificativas. É difícil vermos quem amamos se esquecendo de tudo, até mesmo de como se vestir? Deve ser, e muito. Porém, creio que não me perdoaria se abandonasse quem um dia amei e que também me amou, ainda que essa pessoa não soubesse mais que eu não estava mais ao seu lado, exatamente por não se lembrar mais de nada. Eu me lembraria, e isso me atormentaria até o fim da vida. Os outros personagens cumprem bem o seu papel. A fotografia do filme é belíssima e me deixou encantada. O tema é duro e isso não deixa de ser retratado no filme, mas é feito de uma forma dosada, que não se vê exageros ou apelações. Emocionou-me de uma forma ímpar e me lançou em vários caminhos reflexivos que me levaram a importantes conclusões acerca de vários aspectos da vida de uma forma geral e também da minha própria existência.

Para Sempre Alice joga na nossa cara algo que costumamos esquecer: não somos nada. Com isso, não quero dizer que não somos importantes ou que não temos valor. O que quero dizer é que de nada adiantar se vangloriar por ter um diploma de doutorado em alguma área. Não importa o quanto se é culto. Não importa o quanto se é rico. Não importa o quanto se é bonito. Simplesmente, não devemos ser vaidosos pelo que temos ou o que somos agora. Pois, no fim das contas, somos todos iguais. Somos poeira ao vento. Somos um sopro. Aqui e já, e depois não mais. Que possamos aproveitar o que de melhor existir nessa vida, com alegria, com coragem, com força e com a consciência de que, se pudermos escolher como viver, que decidamos por viver aquilo que nos dá prazer, que de fato nos faz bem. Que os céus nos livrem de dedicarmos nossas vidas aos outros, em função do que querem que façamos. Não negligenciemos os nossos desejos e os nossos sonhos. Só temos uma vida, e ela passa rápido feito fogo de palha. Cada minuto é precioso. Invistamos em felicidade pura e genuína. Amemos com toda a sinceridade que conseguirmos. Façamos o bem pelo prazer de ver o brilho no olhar do próximo. A vida é um mistério e estamos aqui talvez não pra desvendá-la, mas pra senti-la, tateá-la e absorver o que de mais sublime residir nela. Que a nossa vida valha a pena, mesmo que, ao fim, nem ao menos lembremos dela. Que a sensação de estarmos vivos, e principalmente vivendo, nunca nos deixe. Que o bombear do nosso coração sirva como lembrete de que não somos tão jovens e/ou não temos todo o tempo do mundo. Viver é raro. Viver é luxo. Luxemos, pois. Não fiquemos estáticos vendo os ponteiros dos relógios do mundo rondarem. Movimentemo-nos. A vida é já. E já foi.


Erica Ferro

Escrever é essencial para mim. Sou amante das palavras sinceras, das frases contundentes e dos textos inquietantes. Sou escritora porque escrevo e amadora porque tenho uma relação intensa de amor com as letras. Sacudir esse mundo é algo que me atrai, me distrai e me impulsiona a querer sempre mais..
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