sacudindo palavras

Sacudir esse mundo é algo que me atrai, me distrai e me impulsiona a querer sempre mais.

Erica Ferro

Escrever é essencial para mim. Sou amante das palavras sinceras, das frases contundentes e dos textos inquietantes. Sou escritora porque escrevo e amadora porque tenho uma relação intensa de amor com as letras. Sacudir esse mundo é algo que me atrai, me distrai e me impulsiona a querer sempre mais.

O fio e as missangas de Mia Couto

Nesse artigo, discorro sobre o meu primeiro contato com o escritor moçambicano Mia Couto através do livro O fio das missangas, uma coletânea de 29 contos. Seleciono alguns contos que mais me tocaram e, enlevada, falo da poesia e do lirismo contidos em cada palavra de Mia e o impacto que esses elementos causou em mim.


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Quão bom foi conhecer Mia Couto! Foi tão gostoso, tão maravilhoso, que me é difícil escrever as impressões acerca de O fio das missangas, um livro de poucas páginas, mas repleto de poesia e intenso em sentimentos vários. Esses 29 contos despertaram em mim emoções mistas: encanto, tristeza, dor, revolta, compaixão, nostalgia e amor. Por essa razão, é custoso ordenar as sensações e as ideias para compor esse texto. Ainda assim, tentarei.

Comentar sobre cada um dos 29 contos seria difícil, assim como deixaria esse texto imenso. Prefiro elencar aqui alguns contos que me arrebataram de uma forma singular e que as suas palavras me tocaram de um jeito que há muito não me sentia tocada. Os neologismos, o lirismo, a poesia e a intensidade dos sentimentos mais profundos estão presentes em cada palavra desses 29 contos.

Em Meia culpa, meia própria culpa, por exemplo, Maria Metade conta a sua história (ouso digitar até com 'h', porque é um relato tão palpável, que é facílimo de se encontrar uma Maria Metade bem próximo a nós), história de metades, de privações e de sonhos não realizados. Maria nunca se sentiu inteira, sempre ficou "entre o meio e a metade". Uma mulher de infância difícil, que ouvia frequentemente que deveria sonhar com cuidado, porque "pobre não sonha tudo, nem sonha depressa". Sem amor, sem filhos, sem plenitude, nem no seu mais ousado ato de coragem (ou outro adjetivo, depende do ponto de vista), conta com tristeza, melancolia e um ar de frustrada sonhadora sobre o seu passado, presente e os seus sonhos que foram condenados a existirem apenas no seu pensamento, visto que nunca tiveram a oportunidade de pular para realidade; revela também as alegrias que nunca teve, dos desgostos sempre presentes e deveras latentes. A história de Maria me doeu de uma forma tão grande. Conheci algumas Marias que eu diria serem semelhantes a Maria de Mia Couto. E, baixinho, me entristeci por elas. Ao mesmo tempo em que me entristeci, me revoltei. Por que algumas pessoas são privadas até mesmo de se sentirem vivas, de se sentirem plenas?! O sistema é cruel e esmagador, marginalizando cada vez mais quem já vive à margem da sociedade, sem dar oportunidade a quem, à princípio, só deseja um lugar mais calmo, florido e bonito para sentir o que é, de fato, viver.

Os olhos do morto foi outro conto que dialogou comigo: causou tristeza, pena e uma profunda revolta. Quis colocar a mulher, tão sofrida, nos braços, e chacoalhar o homem que nunca a amou, que só a ignorava e a oprimiu. Que destino cruel e horrível o de tantas mulheres, a de serem reprimidas todos os dias, de terem seus direitos e liberdades tolhidos! Revoltem-se, mulheres! Não se calem! Não deixem que silenciem as suas vozes, não permitam que lhe digam o que fazer ou como viver! Nenhum ser humano é superior a ninguém. Somos todos iguais em direitos e assim devemos ser tratados. Ninguém nasceu para ser objeto de outro alguém. Somos livres para ser quem somos. Somos livres para amar e sermos amados com ternura e respeito. Ou, ao menos, deveríamos ser. Lutemos por isso, pois.

Entrada no Céu... Ai que dó me dá de amores unilaterais! Não bastou não ser correspondido, o nosso personagem e narrador foi vítima de um amor que o fez sangrar e penar. Ah, Margarida! Um gesto teu, apenas um, teria evitado tanto sangue, tanta dor e desolação!

Os machos lacrimosos me chamou a atenção porque me lembrou do livro Clube da Luta, de Chuck Palahniuk. No conto de Mia, homens se encontravam no bar de Matakuane para conversar, fazer piada e rir um bocado, até o dia em que um deles, Luizinho Kapa-Kapa, se pôs a chorar ao contar um causo triste, tão triste que ele todo se transmutou em lágrimas tamanhas, que num dado momento não se ouvia mais as palavras proferidas da boca de Kapa-Kapa, apenas o choro descontrolado. Depois disso, se encontravam não mais para "fabricar risadas", mas sim para "partilhar lamentos, soluços e lágrimas". E descobriram o benefício do choro, deram a chance dos sentimentos emergirem e transbordarem pelos olhos, porque homem pode e deve chorar para externar suas dores e suas mazelas. Não é fraqueza nenhuma falar do que rasga a alma. Pelo contrário, é coragem e vontade de aliviar o nó na garganta e o aperto no peito. No Clube da Luta, o narrador-personagem, um ser singular, de mente transtornada e alma bagunçada, comparecia a vários grupos de apoio, destaco um que se chamava Homens Unidos, que me fez lembrar o conto de Mia. Nesse grupo, homens, repletos de tristezas, dores, dissabores e desolações se juntavam, aos pares, para chorar abraçados uns aos outros. Chorar tudo o que fosse pra chorar, tudo o que houvesse entalado no peito ou na garganta. E era um alívio para todos eles. Uma coisa essencial na vida é a seguinte: verdade. Verdade para sorrir quando for para sorrir, chorar quando for para chorar, sofrer quando for para sofrer. Porque o sofrer e chorar são elementos que, num primeiro momento, abala e enfraquece, mas depois estrutura e fortalece.

Uma questão de honra fala da solidão compartilhada por Siwale e Esmerado Fabião, cada qual com suas dores e a sua coleção de sonhos engavetada e felicidades não acontecidas. Com uma delicadeza e destreza, Mia Couto traça mais um conto que nos emociona, conto que retrata esses dois amigos, que eram o mundo um para o outro e nos mostra como os jogos de tabuleiro para esses dois eram a maneira que acharam de espantar a solidão em que viviam. A história desses dois velhinhos é capaz de arrancar suspiros lamentosos, de apertar o peito e de fazer a gente chorar um pouquinho num canto, em silêncio. A vida é rara, mas a "palavra, a honra e a amizade" fazem-na irresistível de ser vivida.

Mia Couto me ganhou, sem esforço, é bom frisar. Em O fio das missangas, Mia passeou pelos vales mais sombrios das almas e desenhou os sentimentos humanos mais conflitantes com uma verdade tão forte, que o leitor sente no arrepiar da pele e na batida ora fraca, ora forte do coração ao navegar por mares de sensações e ideias que raramente ousamos pensar, por serem mares caudalosos, tão cheios de amor quanto de dor, porém que sabemos, no íntimo, que por eles é preciso, é realmente preciso, navegar. Na outra margem, não seremos mais os mesmos que éramos no começo e durante a travessia.


Erica Ferro

Escrever é essencial para mim. Sou amante das palavras sinceras, das frases contundentes e dos textos inquietantes. Sou escritora porque escrevo e amadora porque tenho uma relação intensa de amor com as letras. Sacudir esse mundo é algo que me atrai, me distrai e me impulsiona a querer sempre mais..
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