sagrado humano

antes de chegar ao nada, o caminho é essencial

Priscila Fernandes

De todas as opções que busquei, hoje estou voltada para educação e terapia dentro do contexto da Filosofia Oriental. Escrever sobre o que me faz bem é retribuir aos que partilharam seus conhecimentos comigo

Da filosofia do Tao

Mergulhar na filosofia oriental é mergulhar em si mesmo, percorrer o Tao é encontrar o próprio caminho e, depois, desapegar-se dele.


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Despertei para a filosofia estudando textos orientais, em cursos livres que tinham como objetivo uma filosofia prática. Percebi uma sincera mudança, na percepção do mundo, na relação com as pessoas, no meu modo de agir e reagir. Depois disso, aceitei mais uma vez o cabresto da universidade para obter um título. Após os quatro anos de curso, nem uma palavra sobre o oriente. Que grande perda!

Das diversas opções de livros orientais, decidi iniciar por Tao Teh King (ou Tao Te Ching). Este é um livro curto, escrito por volta do século V a.C. e atribuído a Lao Tsé. Porém o autor deixa claro, ao longo das linhas de seus versos, uma influência de pensamento ainda anterior, de uma tradição que lhe foi passada. É dito que Lao Tsé foi bibliotecário na China, mas que em dado momento seguiu seu caminho para o ocidente, e não se teve registro preciso da viagem.

A primeira parte de sua obra trata do caminho (Tao) e corresponde a 37 versos de um total de 81. A segunda parte é um tratado sobre virtudes. De seus escritos, é possível obter informação sobre o universo, a vida, as atitudes e percepções coerentes a um sábio, e as formas de se governar. É como dizer que a proposta de mudança interior e cognitiva são tão fortes, que resultam em um verdadeiro manual para os seres humanos. Embora seus versos sejam aparentemente simples, o entendimento ocorre para além das palavras, com significados amplos e profundos. Talvez até infinitos, como o próprio Tao.

Percorrer, então, este vasto caminho do Tao é como realizar uma longa e solitária jornada. O ponto de partida é o que podemos perceber como manifesto e não manifesto, porém o Tao é antes disso, antes de qualquer nome possível. Da nossa percepção, nos resta a dualidade, do belo ao feio, do bom ao mau.

A tudo isso Lao Tsé descreve em apenas um verso e meio de seu texto. E no final do segundo verso, já apresenta a solução adotada pelo sábio: ajudar aos outros sem pedir nada em troca, não buscar por recompensas que poderá perder. Dessa forma, para viver essa jornada, é necessário observa-la, sem envolver-se nos extremos que hora dão tudo, hora tiram tudo. Ao afastar os desejos do coração e o corpo das coisas de valor, permanece a ordem.

Lao Tsé ensina uma vida simples e natural, com domínio sobre o egoísmo e os desejos. Só quem alcança estes princípios está livre em sua ação. Ao mesmo tempo, indica que não se execute qualquer ação quando esta for interferir entre as dualidades, em busca de um resultado. Neste caso, é melhor observar o fluxo do universo. Não intervir ou apenas dar apoio para que outras pessoas possam continuar em seu caminho, sem sequer terem notado a ajuda que receberam é também atitude de um sábio.

A visão oriental sobre o universo é encantadora. Numa simplicidade de que tudo se expressa de forma inesgotável, sem castigo, sem ofensas, sem pecados, apenas o pulsar dos acontecimentos, iniciando no vazio da plenitude, e se experimentando em toda multiplicidade possível da dualidade real. É possível ver o universo em tudo, mas como nossa visão não alcança algo tão imenso, melhor olhar para dentro e perceber toda essa expressão ocorrendo em nós.

Além da compreensão do universo e de um guia para a vida, há o momento propício para a morte: “Quando tiveres acabado o teu trabalho, retira-te!” Esta filosofia não recai sobre o erro mais comum entre os ocidentais, de buscar e agir como se fosse possível viver eternamente neste corpo. Ao homem que cumpre sua função, pode encerrar seu caminho e despedir-se. Para isso é necessário reconhecer e compreender sua função e, após cumpri-la, sentir-se pleno o suficiente para desapegar-se desta vida. O que não significa antecipar o abandono do corpo, apenas aceita-lo sem relutar ou temer, quando chegada a hora.

E àquele que já superou o próprio corpo, pode receber as desgraças da vida de forma tranquila. Pois não há o que perder, apenas observar. Este é o estado de paz, é conhecer a eternidade e ser pleno em si, ser o Tao.

Em seu texto, toda evolução social, tecnológica e financeira, compreendidas hoje como a evolução do próprio ser humano e sua diferenciação dos outros animais, cai por terra. Isso porque seu caminho está no simples, no natural. Se da inteligência pode surgir a hipocrisia e a sagacidade, melhor abandona-la. Se da humanidade surgir a justiça, deixar ambos permite um retorno ao natural.

Permanecendo na unidade, nada falta, tudo flui. Ainda que pareça não buscar nada, estará completo. Aquele que consegue manter-se uno, identificado com a plenitude, estará pleno. E neste estado natural não há espaço para questões menores, pois as próprias ações estarão naturalmente direcionadas de acordo com uma compreensão muito maior.

Este texto é apenas um exemplo do porquê a filosofia oriental teve uma influência tão grande na minha busca. Os textos revelam além de suas palavras e não colocam o homem na posição de um eterno buscador das verdades do mundo. Antes, revela os aspectos universais que, por continuidade, refletem também no ser humano.

Os valores, as realidades, as ações e todas as condições relativas estão sujeitos ao mesmo movimento. Este movimento é simples, claro e da mesma forma que manifesta o próprio mundo, pode ser encontrado plenamente dentro de nós. Para Lao Tsé, a sabedoria leva ao Tao, e o Tao é cada um e é também o infinito.


Priscila Fernandes

De todas as opções que busquei, hoje estou voltada para educação e terapia dentro do contexto da Filosofia Oriental. Escrever sobre o que me faz bem é retribuir aos que partilharam seus conhecimentos comigo.
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