sagrado humano

antes de chegar ao nada, o caminho é essencial

Priscila Fernandes

De todas as opções que busquei, hoje estou voltada para educação e terapia dentro do contexto da Filosofia Oriental. Escrever sobre o que me faz bem é retribuir aos que partilharam seus conhecimentos comigo

A liberdade sem testemunha

A ética acontece quando ninguém vê. O ápice da nossa liberdade ocorre quando não há observador, julgamento ou punição. Quando a decisão é pelo valor próprio e não pela coerção.


Chain_expressing_freedom.JPG

Sartre diferencia o ser humano como aquele que pode “ser para si” e nestas três palavras, toda a angústia sartriana se justifica. Isso porque o ser humano é o único com opção de escolha, com consciência de liberdade. E o peso dessa escolha pode ser esmagador, já que encerra toda a responsabilidade por cada ato, e deixa o homem desamparado, sem uma orientação a que deva seguir.

Imagine uma vaca. Um mamífero, herbívoro, com casco fendido, que passa a vida pastando e ruminando. A vaca passa por toda a vida sendo vaca, não por escolha, mas justamente porque não lhe foi permitida a opção de escolher. Os animais são, segundo Sartre, “em si”, pois nascem sendo aquilo que são, sem espaço para questionamentos, sem opção de “vir a ser” qualquer outra coisa.

cow-630873_960_720.jpg

Porém o ser humano tem a capacidade de raciocinar, de julgar, e o mais importante e muitas vezes negligenciado, tem a capacidade de escolher! E isso é “ser para si”, pois é aquilo que faz de si mesmo.

(E quando falamos isso dentro de uma sala de aula no Ensino Médio os alunos ficam indignados, pois julgam que acordaram cedo, foram à escola e estão ouvindo sobre filosofia porque os pais os obrigaram, o sistema impôs e os professores são autoritários. Eu também já pensei assim. Puro engano!)

Fernando Pessoa, através de seu pseudônimo Alvares de Campos escreveu “Fiz de mim o que não soube. E o que podia fazer de mim não o fiz”. Mesmo a falta de consciência ou a falta de ação não lhe tiraram a opção de escolha. E Álvares de Campos é a própria expressão da angústia das escolhas, do conflito de conviver consigo confrontando suas próprias decisões.

Aquele que é “para si” tem não apenas a opção, mas a liberdade, sempre. Ainda que aparentemente as opções sejam reduzidas, ainda que a liberdade plena seja utópica, dizer-se sem escolhas é uma forma superficial de tentar culpar o outro. Portanto ao ser humano cabe escolher, e neste processo construir-se, de acordo com as opções que faz.

Porém, na vida em sociedade, a coerção tem grande peso. Na estúpida maioria das vezes nossas escolhas tomam por base orientações externas. Tentamos negar nossa liberdade, escolhendo de acordo com as opiniões dos outros, ou de acordo com a lei, a justiça, ou qualquer outra opção que nos afaste da responsabilidade de pensar por conta própria. A busca por prazer e a tentativa de se afastar da dor é comum, e até óbvia, já que qualquer animal faz isso. Porém tentarmos resumir nossa existência a isso é negarmos nossa própria construção enquanto humanos.

As escolhas podem ser difíceis quando envolvem abertamente outras pessoas, e corremos o risco do julgamento e punição, porém é quando ninguém vê que nossos valores realmente se mostram. Platão exemplifica esta situação através do mito do Anel de Giges, no qual um pastor de ovelhas encontra um anel que lhe torna invisível. Estando invisível, está de posse de sua maior liberdade, pois não será percebido aos olhos de outros homens. O único julgamento, neste momento, é de si mesmo. tsw80018__tungsten_rings_02__20349_zoom_by_tungstenrepublic-d6jqmh2.jpg

E então o conceito de ética toma seu real valor. Quando há leis, regras, coerção, não há ética. A ação do indivíduo é ditada pelo medo de punição e dor. Porém, quando ninguém pode vê-lo ou alcança-lo, neste ponto o homem estará livre para agir de acordo com seus valores. No ápice da liberdade está o ápice da ética, e neste ponto cabe ao indivíduo a posse total de suas decisões.

É importante conceber que a ética só existe quando há escolha, portanto a vaca nunca poderá agir de forma ética nem, tampouco, antiética. Já o ser humano constrói a própria ética ao construir-se, ao desenvolver seus valores, ao fazer uso consciente de sua liberdade. E este é um processo inverso à justiça. E para uma sociedade em que tudo é regido pela lei, em que as relações com os outros ocorrem através de negócios e processos, em que o ativismo foi mascarado pela hipocrisia do politicamente correto, o caminho está errado. Tal como um filho que foi superprotegido pelos pais, a essa sociedade falta responsabilidade pela própria liberdade, a maturidade de escolher por seus valores e não por seus desejos.

Porém este é um longo caminho a ser construído, o desenvolvimento da consciência individual em prol da sociedade depende de educação, informação, elaboração de ideias e pensamentos. É preciso uma compreensão mais ampla e complexa, que geralmente é desestimulada em nosso contexto. O resultado visível em nosso país é de uma legislação extremamente desenvolvida, enquanto a educação continua precária. Não formamos pessoas conscientes, que conseguem lidar com suas emoções e agir eticamente. Criamos pessoas que sequer sabem que possuem opção e responsabilidade sobre suas escolhas, e que estão acostumadas a se afastar do pensamento moral e acatar (ou não) regras sociais.


Priscila Fernandes

De todas as opções que busquei, hoje estou voltada para educação e terapia dentro do contexto da Filosofia Oriental. Escrever sobre o que me faz bem é retribuir aos que partilharam seus conhecimentos comigo.
Saiba como escrever na obvious.
version 2/s/recortes// @obvious //Priscila Fernandes