sagrado humano

antes de chegar ao nada, o caminho é essencial

Priscila Fernandes

De todas as opções que busquei, hoje estou voltada para educação e terapia dentro do contexto da Filosofia Oriental. Escrever sobre o que me faz bem é retribuir aos que partilharam seus conhecimentos comigo

Comunidades do Rio Negro: um ponto de vista

Quando a mente me leva para a floresta, descubro que meus pés também podem me levar. Mas será que a mente realmente acompanharia? Reflexão pessoal às margens do Rio Negro.


Nasci e passei a maior parte da vida em cidades grandes. Mesmo quando morei no interior de MG, em uma cidade menor, o estereótipo da vida urbana era o mesmo. E justamente essa rotina perseverante das cidades que me gerava uma inquietação, sentindo-me desconectada daquele ser humano que precede a vida urbana, daquele ser humano natural.

Poucos dias visitando algumas comunidades no entorno do Rio Negro, no estado do Amazonas, vi a construção paradigmática que me separava da vida natural ruir. Pude ver pessoas vivendo de forma que, até então, só conseguia imaginar, mas não conseguia ver aplicação no meu mundinho de pedras.

Deixo meu relato, apenas como ponto de vista, e as reflexões que essas visitas me causaram, com aquela agitação no peito de quando a vida nos oferece muito material de reflexão de uma só vez.

Passei por pequenas vilas em terra com casas de palafitas, por comunidades indígenas, vilas flutuantes, bases do Parque Nacional e por moradores isolados. Em um primeiro momento tive que lidar com um grande incômodo, vendo aquelas pessoas com vidas tão pacatas. Passei por uma avalanche de julgamentos que sempre me foram impostos, refiz todas as perguntas que já me fizeram e nunca soube responder e que sequer cabiam àquelas pessoas: “vai passar o dia todo sem fazer nada?”, “você não quer ser alguém na vida?”, “até quando vai esperar para construir seu futuro?”, “como pretende ter sucesso se continuar perdendo tempo?”.

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Todos os meus egos surtaram quando vi aquelas pessoas descansando em suas redes por grande parte do dia, dormindo cedo com a noite, acordando cedo com o clarear do dia e os pássaros cantando. Pessoas que não precisam controlar compulsivamente datas e horários. Pessoas que não pensam duas vezes antes de se jogar no rio, seja para tomar banho ou para pegar o barco que se soltou da margem. Trabalho e comida apenas o suficiente para viver, em oposição à nossa euforia compensatória que muito se trabalha e muito se come para preencher nossos vazios. Mulheres vaidosas de forma muito sutil, com seus cabelos e suas roupas, mas longe da compulsão pela beleza perfeita e artificial.

Dos moradores isolados e mais distantes, a importância de se ter um barco a motor e ainda assim levar 12 horas para chegar até a cidade mais próxima. O conhecimento das plantas e dos caminhos no meio da floresta. De pescar e arrumar em poucos minutos uma fogueira para assar o peixe, que será servido com farinha. E os frutos de diversas palmeiras, também servidos com farinha e café.

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Das bases do Parque Nacional, os responsáveis pelo registro de entrada e saída dos visitantes em esquema de 15 dias de trabalho e 15 de descanso, alguns satisfeitos em um clima de confraternização entre os colegas de trabalho, outros contando os dias para terminar os 15 dias “de reclusão no mato”. E ainda aqueles que continuam vendo uma beleza nova a cada dia, fotografando a natureza em constante mutação, os caminhos nas matas e os animais.

Das comunidades indígenas me envolvi numa complexidade de percepções. Muitos turistas pensam em visitar “os índios”, como se estivessem indo ao zoológico, como se todo indígena devesse viver com tanga de folhas, cocar na cabeça e pele pintada. Isto me gerou um profundo mal-estar, pois esquecem-se de que são humanos, de que são os verdadeiros donos da terra, e que temos que respeitar sua cultura, assim como possibilitar acesso a toda estrutura social, educacional e tecnológica que desejarem. Tive, sim, a oportunidade de assistir suas danças e ouvir suas músicas, uma forma de nos mostrar um pouco do que são suas artes, apenas um vislumbre de toda complexidade de seus ritos e de uma trama ainda maior que depende de sua representatividade em nosso país.

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Das vilas em terra, a receptividade para mostrar o que fazem, a farinha, o artesanato, suas casas, os frutos das árvores e os animais. E das vilas flutuantes, poucas pessoas, pois a maioria estava trabalhando na cidade. Suas plantas cultivadas em cima dos troncos flutuantes, a necessidade de um barquinho para chegar até o vizinho em grande parte do ano, e o tempo em terra firme no período de seca. Soube de um senhor que rejeitou a energia elétrica quando fizeram as instalações, pois havia vivido assim por toda a vida e assim queria continuar. Para entrar um novo morador na vila, é necessária aprovação de todos os antigos moradores e os jovens que vão se casar começam a comprar troncos de árvores para formar seu “terreno flutuante” e construir moradia.

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Voltei para casa sabendo que é possível viver a vida que sempre imaginei, sem stress, sem cobranças, sem fixação com o tempo. Na qual as mulheres cultivam sua beleza natural e a mídia não lhes impõe nada. Onde o dinheiro supre necessidades, mas não banca ostentações. Percebi que esta vida de conexão com o natural pode manter o contentamento de muitas pessoas, mas também gerar inquietação de outros.

Acima de tudo, confirmei que a mente gera esse contentamento ou descontentamento. Que morando na cidade e tendo que trabalhar muito para ter o básico, pagando impostos, gastando muito com moradia e comida, a mente pode querer mudar para o meio da floresta. Aos que permanecem na cidade, a mente pode querer mais, sempre mais, e começa a criar ilusões como a beleza, o sucesso, a posição social. Aos que visitei ao longo do Rio Negro, há aqueles que unem suas mentes e vidas ao ciclo natural. E aqueles que contam os dias para voltar para a cidade.

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A vida que sonhei é possível, viável e linda, mas talvez não seja para mim. Talvez não consiga deixar este mundo artificial no qual me criei, e que cobra seu alto preço de manutenção. De qualquer forma, ficou um conforto, uma possibilidade de escolha: caso um dia consiga me desapegar desta vida artificialmente planejada para nos tornar escravos, é possível resgatar o ser humano natural que sou. Mas a liberdade, seja aqui ou lá, depende apenas de conseguir libertar minha mente.


Priscila Fernandes

De todas as opções que busquei, hoje estou voltada para educação e terapia dentro do contexto da Filosofia Oriental. Escrever sobre o que me faz bem é retribuir aos que partilharam seus conhecimentos comigo.
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