sagrado humano

antes de chegar ao nada, o caminho é essencial

Priscila Fernandes

De todas as opções que busquei, hoje estou voltada para educação e terapia dentro do contexto da Filosofia Oriental. Escrever sobre o que me faz bem é retribuir aos que partilharam seus conhecimentos comigo

O medo é o contrário do amor

Não é o ódio o contrário do amor, mas o medo. O medo é fonte de tudo que aprisiona e impede-nos de viver a maior manifestação do ser humano – o amor.


Os humanos vivem no medo. Desde criança aprendemos a buscar por aprovações e aprendemos que não somos bons o suficiente. O medo de ser rejeitado se instala muito cedo e vivemos o resto de nossas vidas sob a sombra deste temor. Criamos uma máscara, a única parte de nós que temos coragem de mostrar ao outro.

Não conseguimos nos posicionar inteiramente, nos sentir íntegros e fortes. Ficamos a mercê do outro, da família, da sociedade, dos julgamentos e opiniões. Aprendemos limites, calamos nossos instintos e sentimentos, trancamos as emoções no fundo de nosso ser, simplesmente por achar que são um sinal de fraqueza.

Como se tivéssemos nascido com defeito de fabricação, escondemos nossa raiva, nossos sonhos, nossos monstros. Ninguém nos ensinou a amar, ninguém nos avisou que este monstro interior é apenas uma criança, livre de tal forma, que fere todos os que seguem padrões.

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Não nos foi ensinado o relacionar, estar com o outro, compreender que o outro possui um abismo tão profundo quanto o nosso. Nascemos em uma sociedade com metas, hora marcada e direção a seguir. Não nos deixaram tentar outros caminhos que, talvez mais longos, são também mais belos e ricos de vida. Usando nossas máscaras, tentamos interagir com as máscaras de outras pessoas, cada um projetando a imagem que acredita ser a melhor de si, sem, entretanto, mostrar-se de verdade. Neste momento, perdemos qualquer possibilidade de identidade, pois a imagem que temos de nós é diferente da que projetamos para os outros. E ficamos cada vez mais sozinhos e desconectados de nosso próprio ser, deixando apenas um fantoche de nós mesmos ao alcance do mundo.

Depois de um tempo, estamos cansados e confusos, o relacionamento torna-se um fardo na tentativa de manter uma imagem com a qual já não nos conectamos mais. E o outro provavelmente estará colapsando de igual forma, porque não consegue se sentir íntegro e, além disso, não consegue se sentir pertencente e acolhido. Cada qual projeta de si o que consegue, mas se resguarda de qualquer envolvimento que toque seu ser.

Neste jogo, muitas expectativas acabam sendo criadas, impondo ao outro a responsabilidade da nossa felicidade. Trata-se de uma tentativa desesperada de encontrar segurança e acolhimento, mas nos esquecemos de que essas bases só podem existir dentro de nós. E então ocorrem cobranças e decepções, alimentando ainda mais nossos medos. Cada um só é responsável por sua metade do relacionamento, faça o melhor que conseguir, e deixe que o outro cuide da outra metade.

O medo é fruto de um estado de esquecimento, que nos afasta de nossa essência, que nos ilude como sendo diferentes e isolados uns dos outros. E tudo o que há, a essência de todas as coisas, é o amor. Quando temos coragem de olhar para os nossos medos, de abrir feridas emocionais antigas, de nos expor sem a máscara, o que nos sobra, é o amor.

Quando deixarmos de esperar que haja uma cura emocional coletiva, na qual todos possam viver sem os véus de ilusão, e tomarmos por nossa responsabilidade apenas a nossa cura, apenas relembrar quem realmente somos, apenas acolher nossas características mais variadas, estaremos prontos para acolher ao outro, porque já não será diferente de mim e não será necessário julgar. Se pudermos deixar as defesas de lado, poderemos ver o próprio reflexo em tudo a volta. Toda e cada manifestação da natureza será uma extensão de nós.

Quando estivermos abertos ao amor, poderemos assumir a metade que nos cabe do relacionamento sem medo, sabendo que estamos na relação de forma íntegra. Reconheceremos a importância de estar ao lado de alguém que também quer estar conosco.

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Em textos simples, que já li e reli e indico para várias pessoas, dois autores tratam dessa superação do medo pelo resgate do amor que somos:

- Don Miguel Ruiz é um nagual, mestre da filosofia Tolteca, dos antigos povos do sul do México que se ocupavam de aprofundar e preservar os conhecimentos ancestrais. Escreveu “Os quatro compromissos” e “O domínio do amor”.

- Neale Donald Walsch, escritor norte-americano que chegou a viver nas ruas, quando começou a reconstruir sua vida escrevendo o livro “Conversando com Deus”.


Priscila Fernandes

De todas as opções que busquei, hoje estou voltada para educação e terapia dentro do contexto da Filosofia Oriental. Escrever sobre o que me faz bem é retribuir aos que partilharam seus conhecimentos comigo.
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