sagrado humano

antes de chegar ao nada, o caminho é essencial

Priscila Fernandes

De todas as opções que busquei, hoje estou voltada para educação e terapia dentro do contexto da Filosofia Oriental. Escrever sobre o que me faz bem é retribuir aos que partilharam seus conhecimentos comigo

Viagem ao Sul da Índia

Atravessar o planeta e, de alguma forma, continuar se sentindo em casa. Isso é viajar para o Sul da Índia.


Ter a oportunidade de estudar uma pequena parte dos Vedas já é um enorme presente. Poder conhecer a Índia, berço desta tradição, o povo, os costumes, os cheiros e as cores que nos inundam a cada instante, é uma expressão da absoluta generosidade de Ishvara.

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Alcançar o destino ao qual Cabral não chegou, tendo sido desviado ao Brasil, soa como uma pequena ironia. Terras tão distantes, tão imensamente separadas geográfica e historicamente têm tanto em comum, talvez não no primeiro olhar, mas certamente quando nos permitimos um olhar mais demorado.

Estávamos em um grupo de pessoas interessadas em estudar e aprofundar os conhecimentos em Ayurveda. O destino: Coimbatore, no estado de Tamil Nadu, sul da Índia. A última etapa da nossa viagem de ida, depois de aviões, escalas e quase dois dias de viagem, foi em um micro ônibus que nos levou do aeroporto ao local em que ficamos hospedados, com as malas acomodadas no teto, do lado de fora e sem serem amarradas. Já no ônibus, recebemos um lanchinho, água e suco. O local onde ficamos hospedados era também o local do curso, já na recepção, colares de flores, um pequeno ritual e mais um lanchinho (um doce típico envolto em folha de bananeira). Flores e alimentos são uma constante, a cada ritual, festival ou comemoração, sempre estão presentes.

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Nas ruas, o grande movimento de carros, motos e o famoso tuk tuk, em meio às constantes buzinas. Muitas ruas não têm calçadas e as vias não têm acostamentos, sequer faixa pintada no chão. Porém, o aparente caos tem uma ordem e funciona perfeitamente. As buzinas não são agressivas como as nossas, são quase uma conversa, constante e com diferentes entonações em cada caso. No caminho, esse movimento se mistura com cabras, pessoas, vacas, crianças dormindo agarradas aos pais em uma moto, ou pessoas saltando do ônibus.

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No período em que estivemos lá, entre agosto e setembro, é celebrado o Ganesha Chaturthi e vimos a cidade se encher de estátuas de Ganesha em todos os tamanhos, inclusive alguns bem grandes, em altares montados nas ruas. Neste festival, um primeiro ritual convida a deidade, e as celebrações continuam ao longo de dez dias. Cada festival tem suas comidas típicas e, no caso, são oferecidos doces, modak (bolinho de arroz recheado com coco e açúcar mascavo), uma espécie de arroz doce e frutas. Ao final dos dez dias, as estátuas de barro são imersos na água.

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No mesmo período é comemorado no Kerala o festival de colheita, Onam, que celebra a visita anual do Asura Rei Mahabali. Tradicionalmente são confeccionados tapetes de flores e os alimentos são servidos em folhas de bananeira, que incluem banana chips e banana frita com jaggery (o equivalente a nossa rapadura). Apesar de não ser celebrado em todos os estados, por respeito aos membros da equipe que são do Kerala, tivemos um almoço com base nesta tradição.

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Dos encantamentos que tive ao longo da viagem, e devo dizer que não foram poucos, um deles foi com a segurança. Sentia-me mais segura caminhando pelas ruas de Coimbatore do que jamais me senti nas grandes cidades do Brasil. No comércio, a maioria das lojas possui guarda-volumes, alguns sem numeração, cadeado ou alguém que cuide; é simplesmente chegar, deixar as sacolas em uma das divisões e retirar ao sair, sabendo que estará lá. Da mesma forma os calçados nas entradas dos templos, não importa o quão grande seja o templo, os sapatos estarão aguardando na saída.

Outro encantamento ocorreu com uma senhora que me deu flores. E esta é uma das histórias que não vou cansar de contar, pois representa a prática dos ensinamentos que ouvi. Estava em um mercado de flores e uma senhora colocou jasmim no meu cabelo. Tentei pagar, mas ela não aceitou, acenou que não queria e sorriu. Eu agradeci e continuei andando pelo mercado. Mais tarde voltei com uma amiga ao mesmo local, e a senhora novamente colocou flores no nosso cabelo. Tentamos pagar, mas ela não aceitou. Como insistimos e ela não falava inglês, fez sinal para que esperássemos e pegou o celular. Ela ligou para a filha e pediu que nos explicasse em inglês que ela não queria pagamento, que estava nos dando as flores. E apenas continuou sorrindo. Saí de lá com um contentamento estranho, por experienciar um ato de doação que não esperava nada em troca.

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Conhecemos alguns templos, repletos de famílias que passam o dia no local, pessoas celebrando o casamento ou nascimento de um filho e distribuindo algum doce como forma de agradecimento, crianças de cabeça raspada e coberta por uma pasta de sândalo. Cada templo com sua particularidade, com construções altas e coloridas, ou aos pés de uma montanha que é, em si, o templo, ou ao final de uma longa escadaria, ou tão extenso que parece um parque, com flores de lótus e templo de meditação.

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Dos pontos em comum, a receptividade e a abundância de alimento. Fomos quase mimadas na Índia, todos preocupados com nosso bem-estar, sempre bem atendidas no comércio, e recebidas com grande fartura de alimentos. As pessoas gostam de sorrir, de dançar e de brincar. Ficaram felizes porque nosso grupo aceitou dançar em volta da fogueira e, ao final, brasileiros e indianos estavam dançando uma quadrilha de festa junina.

Voltei ao Brasil revendo a imagem que tinha do meu próprio país: o momento em que estamos, nossa história, nossa política, nossa vida cotidiana e a forma com que lidamos com tudo isso. Os indianos sabem lutar por suas causas, se preservar, sabem manter sua devoção e a beleza de seus ritos. Sabem nos receber da melhor forma, e fazem o seu máximo. A Índia me inundou de novas percepções, de quebra de paradigmas e me fez mudar a forma de ver o mundo.


Priscila Fernandes

De todas as opções que busquei, hoje estou voltada para educação e terapia dentro do contexto da Filosofia Oriental. Escrever sobre o que me faz bem é retribuir aos que partilharam seus conhecimentos comigo.
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