saindo da caixa

Uma odisséia fora da caverna

João Rachid

Um cara confuso, talvez também perdido, que tenta se encontrar através da escrita. Apesar de ficar cada vez mais perdido, não desisti de achar um sentido para tudo isso

Identidade "A La Carte"

Nossas identidades são exibidas em menus durantes toda nossa vida. Olhamos, desejamos e consumimos aquilo que está na moda, que é mais “saboroso” e mata a fome que temos por fazermos parte de um grupo social. Comer sozinho não tem graça... Precisamos comer em uma mesa grande, repleta de pessoas, assim como precisamos de uma identidade onde consigamos nos encaixar. Compramos sem pensar se é aquilo que somos. Se é por aquilo que sentimos “fome”.


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A mudança de identidade na vida é como um processo de aprofundamento dos consumos diários, buscando cada vez mais produtos de alto custo, assim como identidades que exibam esses produtos.

Durante a vida, adquirimos diversas identidades, desde a infância até a nossa morte. Cada época tem alguma identidade em destaque: hippies, punks, grunges e etc. Na sociedade atual, a identidade da vez é a gourmet.

Hoje quem é gourmet precisa ser “cool”: frequentar lugares “diferentes” como o Starbucks, uma cafeteria cara e que retrata um estilo de vida americano. Comer em um foodtruck, onde o lanche custa mais de 30 reais, sem contar a bebida! O engraçado é que a ideia inicial do foodtruck era uma comida rápida e barata para quem não tinha tempo de comer. Vai entender...

A identidade Gourmet tem como grande característica procurar coisas diferentes: comidas, casas de show, roupas e afins. Mal imaginam que estão dentro de uma onda cheia de pessoas “diferentes”. Todas são diferentemente iguais!

Há quem pense que é fácil, e também barato, “comprar” essa identidade. Comida? Não pode ser qualquer uma. Tem que ser a não usual! Qual o sentido da comida barata para tirar foto e colocar nas redes sociais? Não há espetáculo nisso. A foto precisa ser de um Iphone, porque se não é Iphone, não é celular. Cada identidade tem seus rituais, o que caracteriza quem faz parte. É preciso seguir, faz parte do “contrato”.

Bauman já dizia que o sistema exige o consumo. Quer fazer parte? Então pague! Consuma! Simples assim. Pague de qualquer maneira, mesmo que tenha que abrir mão do básico, talvez até o essencial. Quem quer ter uma identidade básica? Para que ter algo que todo mundo pode ter? O básico é apenas simples, não tem valor em uma sociedade cheia de extravagâncias.

O mundo gourmet está de pé em meio a crise porque há a necessidade, talvez até desespero, de pessoas que precisam de um Starbucks para acordar antes do trabalho. Precisam almoçar um “japa”. Arroz e feijão? Arroz com salmão grelhado, cream cheese e muito shoyo.

E o que acontece com quem está de fora dessa onde Gourmet? Elas estão ocupadas - muito ocupadas – consumindo os produtos das próprias identidades. Há sempre uma identidade para produzir bens de consumo. O sistema é assim, se não existe, ele cria! Se cria, alguém compra!

Portanto, o sistema irá sugar ao máximo o indivíduo até que ele precise trocar de identidade. Cada nova identidade é um novo ciclo de compras, passeios, amigos e principalmente, uma nova pessoa que veio ao mundo para buscar por toda a vida uma identidade que não irá achar. É com a crise de identidade que esse monstro se alimenta...


João Rachid

Um cara confuso, talvez também perdido, que tenta se encontrar através da escrita. Apesar de ficar cada vez mais perdido, não desisti de achar um sentido para tudo isso.
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