sala escura

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Juliana Radler

Amante das letras e das imagens. Jornalista, videomaker, produtora independente e empreendedora.
"A diversidade cultural é o maior tesouro da humanidade. Quando celebrarmos isso ao invés de negarmos, todos os nossos problemas estarão resolvidos."


O cinema essencial de um intelectual bronco e teimoso: Jia Zhangke

Velocidade, violência e "um toque de pecado" na China contemporânea.
Sem os filmes de Jia Zhangke não entenderíamos a China tão bem, não conheceríamos paisagens em mutação, testemunhas de um tempo efêmero no qual a impermanência, tão ressaltada pelo budismo, se revela sem sombras.



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O chinês Jia Zhangke é considerado um dos maiores cineastas da atualidade. Seus filmes retratam as mudanças ocorridas na China nos últimos anos, traçando paralelos entre o mundo exterior vinculado ao frenético crescimento econômico, e o universo interior dos seus personagens. Ficção e documentário se misturam de forma magistral, revelando um tempo de mudanças gigantescas, proporcionais ao tamanho geográfico e histórico do seu país natal.

Os filmes do cineasta nos levam a reflexões profundas sobre a nossa existência. Ao mesmo tempo que é realidade chinesa nua e crua na veia do espectador, seus dramas contemporâneos e questões existenciais são universais. Um de seus últimos filmes, "Um toque de pecado", aborda a violência na sociedade capitalista e pessoas que chegam a situações limite.

Para nós brasileiros o filme diz muito. Rodado nas metrópoles de Guangzhou e Dongguan, os personagens poderiam facilmente ser deslocados para cidades como Rio e São Paulo, onde se confrontariam com situações análogas de violência e exaustão emocional.

Corrupção desenfreada, injustiça social, violência gratuita, exploração de mão-de-obra, machismo, frieza emocional, prostituição e todo tipo de barbárie provocada pela corrida incessante pelo dinheiro. Tudo isso contado através de histórias diferentes que se cruzam através do movimento dos personagens entre cidades e províncias. Protagonistas que fogem da miséria, da violência, da exclusão e da falta de amor.

Dahai, um morador pacato de um vilarejo, se revolta contra a corrupção de administradores de uma mina de carvão, e depara-se com o limite de sua raiva e revolta. Com uma velha espingarda de madeira, ele sai a caça dos "animais" corruptos da comunidade e daqueles que o humilharam em troca de favores e propinas. Aliás, os animais atravessam a narrativa seguidamente de forma simbólica, ora mostrando sua força, ora sua submissão e sofrimento perante o ser humano.

Um toque de pecado

Questões morais e éticas estão presentes, mas sem julgamento. Atitudes violentas e extremas podem ser cometidas por pessoas boas, assim como pessoas ruins também podem ter atitudes compassivas e generosas em alguns momentos da vida. O que é ser bom ou mau? Ou até que ponto as pessoas são vítimas de um sistema econômico e político opressor e injusto. Há quem sucumba e tire a própria vida diante da falta de perspectiva. Há quem enlouqueça. E também existe os que se resignam e aceitam o seu destino, seja ele qual for.

A tradição de uma cultura milenar se vê fragilizada diante das rápidas mudanças nas cidades e no estilo de vida das pessoas. Valores estão em jogo e nem mesmo a religião é capaz de freiar os novos costumes, fundados basicamente no prazer instantâneo e na realização de desejos carnais e de consumo. Em questão de meses, uma província rural pode dar lugar a prédios e indústrias. A terra é substituída pelo concreto e quem vivia dela precisa rapidamente se adaptar aos novos tempos.

Uma imagem impressionante dessa China "trator" são as chamadas "nail houses", propriedades antigas ou rurais que não foram vendidas por seus donos e permaneceram no meio de empreendimentos imobiliários modernos e gigantescos, como mostra a revista The Atlantic. Muitas vezes demolidas a força ou com baixas indenizações, seus donos são normalmente expulsos a força bruta ou econômica do lugar onde sempre viveram.

Em "Um toque de pecado", um empresário emergente grita para a protagonista vivida por Zhao Tao, grande atriz chinesa e esposa de Jia Zhangke: "Vadia, o dinheiro compra tudo. E eu quero ter você". Ela apanha desse homem tal como o cavalo apanha de seu dono em uma cena anterior. Humilhada, ela saca uma faca de fruta e o mata, numa cena explosiva, desesperadora e vermelha.

Um toque de pecado

Jia Zhangke comove pela sua profundidade e simplicidade. O diretor de cinema, Walter Salles, que acabou de fazer um documentário sobre o cineasta e de organizar o livro "O Mundo de Jia Zhangke", lançado pela CosacNaify, escreve: "O que torna o cinema de Jia Zhangke único é sua recusa em adjetivar aquilo que seus personagens vivem diante de situações tão extremas. Não há uma visão moralizante, preestabelecida, norteando o desenvolvimento de seus filmes.

Há, ao contrário, a busca de equilíbrio constante entre aquilo que ocorre na sociedade e a visão própria do cineasta. Se isso ocorre, é em parte pelo fato de seus filmes serem um corpo vivo, que incorpora febrilmente e com grande inteligência a realidade à sua volta. Quando Jia Zhangke está fazendo ficção, ele se rebela contra os limites dessa forma narrativa, procurando incorporar tudo aquilo que o momento ou a geografia em que está filmando lhe proporcionam".

O cineasta, que está com 45 anos, aprecia viajar e estar no meio das pessoas. A observação do mundo ao seu redor é sua maior fonte de inspiração. "As viagens são como uma lupa que aumenta nossa existência e nos revela a sutil trama da vida", afirma Zhangke, que defende uma espécie de literalização na escrita dos roteiros de cinema, utilizando muito mais os recursos de um escritor do que as "técnicas" de um roteirista.

Escritor de todos os filmes que dirigiu, o chinês observa o tempo de hoje como o tempo da velocidade: "Estamos numa permanente corrida contra o relógio. Até mesmo a arte tem que ser rápida! Uma narrativa tem que ser rápida! Em um contexto desses, perdemos nossa faculdade de viver em harmonia com a natureza, de viver com os outros. Nós nos tornamos a engrenagem de um mecanismo econômico com transformações ultra rápidas, e ajustamos permanentemente nossa vida ao ritmo dessa economia galopante. Ganhamos uma vida na rapidez e perdemos uma na lentidão", ressalta Zhangke em entrevista concedida à Jean-Michel Frodon e Walter Salles, no livro "O mundo de Jia Zhangke".

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Em meio a tanta transformação, a sensibilidade aflorada do cineasta e sua capacidade de realização, mesmo em circunstâncias adversas no início de sua carreira, são uma dádiva para a produção cinematográfica mundial. Sem os filmes de Jia Zhangke não entenderíamos a China tão bem, não conheceríamos paisagens em mutação, testemunhas de um tempo efêmero, no qual a impermanência, tão ressaltada pelo budismo, se revela sem sombras.

Pessoas comuns que constroem a história e moram bem mais próximas da verdade do que os poderosos e os oficiais do governo. "Todos nós vivemos à sombra da autoridade e do poder. Vivemos nossa vida, tentamos lutar, achar um meio de expressar nossa vida interior. (…) É a vida que vivemos, é nosso mundo real, por que criar um mundo artificialmente dramático quando fazemos um filme?", questiona Jia.

"Muitas vezes perguntei a mim mesmo por que gostamos da arte. Embora haja outras razões inconfessas, eu gostaria de fazer uma confissão. Por que continuo a escrever? Porque há ainda tanta coisa a ser mudada e contra as quais quero lutar. Eis meu auto retrato preferido: um intelectual bronco particularmente teimoso", define-se Jia Zhangke, que não perde a leveza e o bom humor mesmo diante do que não concorda. Ele transforma seu desejo de mudança em arte e não em militância ou ativismo. E assim segue o cinema de Jia Zhangke em sintonia com o mundo e sua enorme complexidade.

Trailer de "Um toque de pecado"


Juliana Radler

Amante das letras e das imagens. Jornalista, videomaker, produtora independente e empreendedora. "A diversidade cultural é o maior tesouro da humanidade. Quando celebrarmos isso ao invés de negarmos, todos os nossos problemas estarão resolvidos." .
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