sala escura

24 quadros por segundo na sua imaginação

Juliana Radler

Amante das letras e das imagens. Jornalista, videomaker, produtora independente e empreendedora.
"A diversidade cultural é o maior tesouro da humanidade. Quando celebrarmos isso ao invés de negarmos, todos os nossos problemas estarão resolvidos."


As revelações do Pica-Pau russo

Documentário ganhador do Sundance Film Festival de 2015 narra uma jornada pessoal para trazer ao mundo uma estarrecedora hipótese sobre o acidente nuclear de Chernobil.


O que arrebata no cinema de não ficção é sempre a capacidade de nos surpreender. Ficar estarrecido pelo real e descobrir mais uma vez que estamos sempre aprendendo com o outro. Ou melhor, com a história e o olhar do outro.

É um clichê dizer isso, mas no mundo midiático de circulação de informação ininterrupta, qualquer habitante de grande cidade acha que sabe tudo e que já viu de tudo. Sim, nos informamos muito, mas nem sempre conseguimos montar o quebra-cabeça com tantos fragmentos. Sem falar nas mentiras e manipulações que circulam sem escrúpulos. Mas, essa é uma outra questão.

O documentário “O Pica-Pau Russo” (Russian Woodpecker), longa de estreia do diretor americano Chad Gracia, é um desses filmes que nos surpreende do começo ao fim, a começar pelo seu personagem principal um tanto quanto autêntico: o artista plástico ucraniano, Fedor Alexandrovich, que carrega estrôncio em seus ossos por ter sido vítima, aos 4 anos, do trágico vazamento nuclear de Chernobil.

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Eleito o melhor documentário na mostra internacional do Sundance Film Festival de 2015, o pica-pau russo foi uma arma de guerra batizada de “Duga”, inventada pelos soviéticos na época da Guerra Fria com o intuito de desestabilizar os radares europeus e norte-americanos. No Brasil, o filme acaba de ser exibido no Festival de Cinema do Rio.

Instalada próxima à Chernobil, a Duga foi desativada por não ter tido êxito em sua ousada missão. O som ininterrupto emitido pelas enormes torres de metal da Duga, por isso a analogia com o pica-pau, não conseguia atravessar a aurora boreal e, assim, não atingia o seu alvo principal, os radares americanos.

O artista Fedor lançou-se, então, numa investigação para provar que a explosão do reator da usina não foi um acidente. Sim, a tragédia de Chernobil, segundo narra o filme, pode ter sido causada propositalmente por um burocrata poderoso do Partido Comunista soviético. É estarrecedor pensar nessa hipótese, mas as investigações de Fedor a tornaram mais do que uma simples teoria da conspiração.

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A partir dessa jornada íntima e ao mesmo tempo histórica, Fedor mergulha no mar profundo e turvo de Chernobil e o mistura à sua própria vida de artista plástico engajado na política, vivendo intensamente todos os episódios recentes (como a atual crise na Ucrânia), e em paralelo revirando o passado da catástrofe nuclear.

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Explodir Chernobil para mascarar o fracasso da Duga é a hipótese lançada por Fedor Alexandrovich. A partir da tragédia e do abandono da cidade e arredores como um lugar fantasma, a derrota da Duga foi esquecida e ninguém procurou buscar os culpados pela sua inoperância e altos custos. Na época, um fracasso de tal dimensão poderia levar o culpado à prisão perpétua ou ao esquecimento político profundo pelo severo regime soviético.

Trinta anos depois do desastre, o filme Pica-Pau russo e o Nobel de Literatura para a escritora bielorussa Svetlana Alexievich (autora de “Vozes de Chernobil) colocam uma luz na tragédia, possibilitando novos olhares e versões para as causas do acidente, que nunca ficaram claras. A produção literária e cinematográfica de não-ficção ganha evidência e dá sua imensa contribuição à humanidade, tanto como arte, como verdade.


Juliana Radler

Amante das letras e das imagens. Jornalista, videomaker, produtora independente e empreendedora. "A diversidade cultural é o maior tesouro da humanidade. Quando celebrarmos isso ao invés de negarmos, todos os nossos problemas estarão resolvidos." .
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