sala escura

24 quadros por segundo na sua imaginação

Juliana Radler

Amante das letras e das imagens. Jornalista, videomaker, produtora independente e empreendedora.
"A diversidade cultural é o maior tesouro da humanidade. Quando celebrarmos isso ao invés de negarmos, todos os nossos problemas estarão resolvidos."


As convulsões midiáticas

Você acha que a mídia tem o poder de construir e destruir pessoas? A série documental "Making a Murderer" revela os bastidores de um jogo de interesses capaz de colocar dois inocentes na prisão perpétua. E o documentário Amy Winehouse narra o quanto o assédio midiático contribuiu para a ruína de uma personalidade sensível e genial. Até que ponto a manipulação da opinião pública para fins econômicos e políticos está presente em nossa sociedade, supostamente democrática? O cinema documentário nos ajuda a refletir sobre esses assuntos nestes dois brilhantes trabalhos disponíveis no Netflix.


Steven Avery preso pela primeira vez

Não devíamos precisar estudar Comunicação Social ou algo do gênero para aprender a desconfiar da grande mídia. Ainda me pergunto como tem gente que acredita na primeira notícia ventilada pelos figurões emplumados nos estúdios de TV ou nas grandes redações.

Os interesses nesses locais seguem a lógica do poder e do dinheiro. A briga por audiência está a milhas de distância da busca pela verdade. E o sensacionalismo aplicado às pautas - sejam elas policiais ou políticas - é o principal detonador desses índices.

A opinião pública altamente manipulável é capaz de produzir monstruosidades. É capaz de colocar inocentes na cadeia por toda uma vida, de derrubar presidentes, de enlouquecer ou mesmo matar uma pessoa.

Precisamos cobrar mais responsabilidade da mídia. Um press release não é uma notícia pronta, mas infelizmente, em muitas redações, a depender de quem o divulgou, sai como notícia apurada: quente e fresquinha.

"Making a Murderer" ou como criar um monstro

Dois documentários mostram exatamente as situações narradas acima. A série documental primorosa, fruto de dez anos de trabalho, "Making a Murderer", exibida no Netflix (disponível no Brasil também com legendas), conta a história de Steven Avery, um homem que passou 18 anos de sua vida preso por um estupro que não cometeu.

E se não bastasse esse primeiro erro, Avery foi novamente preso por homicídio, sendo vítima de uma aparente conspiração dos poderosos do condado de Manitowoc, onde morava. A série está gerando uma baita polêmica nos Estados Unidos nos últimos meses. Os acusadores defendem que o filme faz a defesa de um criminoso e está jogando a população contra o Estado.

Enquanto a polêmica está no ar, Avery continua preso tentando conseguir um novo julgamento para mudar a sua sentença fatal: prisão perpétua sem direito à condicional. E se não bastasse, o seu sobrinho, Brendan Dassey, também foi acusado de participar do crime. O jovem na época com 16 anos, também foi injustamente colocado na prisão perpétua com direito a condicional em 2048!

E qual foi o papel da mídia nesse caso? Colocando lenha na fogueira, repercutindo toda e qualquer declaração da acusação, que conseguiu pintar um quadro sombrio de um crime cometido por um facínora calculista. O promotor chegou ao ponto de convocar uma coletiva de imprensa e contar como ocorreu o crime, cheio de requintes de crueldade e altamente "vendável". A audiência bombou e todas as grandes redes passaram a explorar a imagem de "monstro" de Steven Avery.

A família de Avery, dona de um ferro velho, viu os seus negócios acabarem. Sua imagem foi totalmente destruída. Novos capítulos dessa história ainda virão e a verdade há de vir à tona nos novos julgamentos. A Netflix afirma que a série terá prosseguimento em breve.

Assédio

Cartaz do documentário sobre Amy Winehouse ganhador do Oscar

Já o excelente filme sobre Amy Winehouse, ganhador do último Oscar de melhor documentário, revela o que já vimos acontecer com outras celebridades. Assédio ultrajante dos "paparazzi" a ponto de uma pessoa ter o seu direito de ir e vir proibido. Sua privacidade foi pelo ralo junto com a sua sanidade...

A maior cantora de jazz dos últimos tempos, dona de uma personalidade livre e sensível, não suportou todo o esquema midiático ao seu redor. Junto com o uso de drogas e álcool, Amy teve sua vida interrompida aos 28 anos. Seu coração parou de bater. Assim como a princesa Diana, podemos, sim, questionar o papel extremamente cruel da mídia em suas vidas. E como a mídia é, em parte, responsável por suas trágicas mortes.

A exploração da imagem chega a níveis insustentáveis. Seja pela idolatria ou pela condenação. Precisamos nos proteger disso. Todos nós devemos nos questionar sobre o papel da mídia, pois ela está presente no nosso dia-a-dia e ajuda a moldar nossa visão de mundo. Amar um artista ou odiar um bandido pode fazer parte da natureza da personalidade humana. Mas, quando misturamos essas paixões aos interesses econômicos e midiáticos, a combinação pode ser explosiva.

A política, a indústria cultural e o mundo dos negócios, são os maiores interessados em manipular fantoches, sempre seguindo os seus próprios interesses financeiros. Desde muito cedo, as crianças já precisam ter uma educação que as oriente a lapidar sua visão crítica de mundo. A debater. A respeitar opiniões diferentes e sobretudo de desconfiar das grandes verdades.

Grande mestre Dalai Lama defende que a compaixão precisa ser cultivada desde o jardim de infância. Uma sociedade que convive com o sensacionalismo e com o hábito de construir e destruir pessoas publicamente não tem compaixão alguma. Vamos nos questionar mais e buscar novos olhares. A internet, principalmente, está cheia de bom conteúdo, de agências de notícia alternativas e de jornalistas muito sérios que resolveram deixar os grandes conglomerados para poder fazer bom jornalismo.

Amy Winehouse não teve tempo de deixar que a vida a ensinasse a viver, como disse Tony Bennet no fim do documentário. Sua extrema sensibilidade a tornou vulnerável e o desequilíbrio a levou de vez para a escuridão. Espero sinceramente que a sociedade comece a refletir mais sobre todos esses casos e como podemos construir uma sociedade de menos controle e ódio e, sim, mais amor e liberdade. E isso tem tudo a ver com o que estamos passando na cena política brasileira. Veremos o que o futuro nos revelará.


Juliana Radler

Amante das letras e das imagens. Jornalista, videomaker, produtora independente e empreendedora. "A diversidade cultural é o maior tesouro da humanidade. Quando celebrarmos isso ao invés de negarmos, todos os nossos problemas estarão resolvidos." .
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