sala escura

24 quadros por segundo na sua imaginação

Juliana Radler

Amante das letras e das imagens. Jornalista, videomaker, produtora independente e empreendedora.
"A diversidade cultural é o maior tesouro da humanidade. Quando celebrarmos isso ao invés de negarmos, todos os nossos problemas estarão resolvidos."


A Cidade Onde Envelheço

O dilema de se encontrar em algum lugar no mundo, nem que seja para voltar ao ponto de onde partimos no mapa


Se encontrar em um lugar, fazer dele sua casa, é uma das grandes experiências que uma pessoa pode ter. E de preferência sozinha. Se adaptar, fazer amigos, saber circular e encontrar a cerveja mais gelada e barata. Tem o sentimento inicial da descoberta de tudo, um baita tesão que nos sustenta por longas horas de caminhada. Um impulso enorme de só querer flanar para ver e conhecer.

Já morei em quatro cidades diferentes no Brasil e passei curtas temporadas em outras fora do país também. Gosto de me sentir de fora. Que reparem no meu sotaque e gírias, notem meu andar diferente. Que me perguntem coisas da terra de onde venho. Mesmo em tempos de internet e mundo pequeno, ainda existe o interesse direto pela troca que se dá pessoalmente. Os sotaques, os ritmos, os hábitos. Tudo muda em apenas algumas horas dentro de um avião.

A cidade onde envelheço

A Cidade Onde Envelheço é um filme que provoca sentimentos sobre viver em lugares diferentes. Sobre solidão, encontros, afetos e liberdade. Como saber a hora de ficar ou partir? Por que voltar para a nossa cidade de origem? Do que mais sentimos falta quando estamos fora? Dos amigos, da família, do mar, das montanhas, do vento quente?

É um filme de sensações fluídas. Sem grandes emoções, choros, violência e suspense. É um filme que vai flanando pela tela, exatamente no estado como ficamos quando chegamos a um novo lugar desconhecido para morar. Nos meses que morei em Recife, por exemplo, eu saia para tomar vento e restaurar as ideias. Em Paraty, nos primeiros meses, andava de bicicleta incessantemente pela beira do Rio Perequê. Na gigante São Paulo eu me perdia pelas estações de Metrô e sempre tinha a Av. Paulista como referência para todos os meus deslocamentos.

Agora, morando no lugar onde nasci, tento me reconectar a raízes sobreviventes e também descobrir uma nova cidade que surge agora, 20 anos depois que a deixei. Duas décadas de andanças, várias moradas, muitos amigos e amores. Descobertas, alegrias, desilusões e tristezas também. Porque como dizia Fernando Pessoa “navegar é preciso, viver não é preciso”.

Sou super grata ao filme por me trazer reflexões sobre minha própria caminhada. Talvez pelo jeito de documentário, o filme é íntimo, traz naturalidade e verdade. As protagonistas, Teresa e Francisca, feitas por duas belas atrizes portuguesas, Francisca Manuel e Elisabeth Francisca, poderiam ser personagens de uma não-ficção.

A cidade onde envelheço

As atrizes improvisaram os diálogos e tiveram a liberdade de construir suas personagens a partir do que sentiam. O roteiro propunha a ideia da cena e a história em si, mas as atrizes construíram com técnica e emoção toda a movimentação e texto em cena, como disseram no debate após a projeção no Cine Arte UFF, em Niterói. É um longa de estreia da diretora brasileira, Marília Rocha, e que ganhou o último Festival de Brasília. É um filme brasileiro sensível, autêntico e super atual no tema que se debruça. A trilha sonora é linda e resgata uma das mais belas canções de Jards Macalé, Soluços.


Juliana Radler

Amante das letras e das imagens. Jornalista, videomaker, produtora independente e empreendedora. "A diversidade cultural é o maior tesouro da humanidade. Quando celebrarmos isso ao invés de negarmos, todos os nossos problemas estarão resolvidos." .
Saiba como escrever na obvious.
version 17/s/cinema// @obvious, @obvioushp //Juliana Radler
Site Meter