Bianca Pinheiro

Geminiana um tanto quanto atípica, prefere escrever a falar. Nutre grande apreço por filmes, séries, livros e música - não necessariamente nessa ordem

O Amante da Rainha: a história de um adultério revolucionário

Filme dinamarquês de 2012, O Amante da Rainha apresenta, por meio de uma história verídica de política e amor, a maneira pela qual o iluminismo deu seus primeiros passos na Dinamarca.


Esta não é uma história sobre amor, paixão ou adultério. Muito embora tais elementos estejam presentes em O Amante da Rainha (2012), o filme não se restringe a eles. Pelo contrário: utilizando os ingredientes derivados de seu título como caracteres secundários, o drama se revela um excelente documento histórico a respeito do desenvolvimento do iluminismo no mundo e, sobretudo, na Dinamarca.

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O Amante da Rainha sugere um filme superficial sobre casos régios, com toques de romantismo, idealização e luxúria. Essa é, aliás, uma das poucas críticas que faço. O título não nos remete à grandeza da obra, e não é sequer um problema de tradução, já que, literalmente, En Kongelig Affære significa “Um caso real”, nome adotado em Portugal e nos Estados Unidos – A royal affair – e que não é lá muito melhor do que o brasileiro.

Com um roteiro inteligente e que não subestima a capacidade intelectual do espectador, o filme nos conta a história do importante encontro entre duas mentes privilegiadas e à frente de seu tempo em plena Dinamarca, fins do século XVIII, e suas consequências individuais e coletivas, no panorama social, político, econômico e religioso da época.

De um lado, temos Caroline Mathilde (Alicia Vikander), inglesa que foi enviada à Dinamarca para se casar com Christiano VII e, assim, tornar-se rainha. Do outro, Johann Friedrich Struensee (Mads Mikkelsen), intelectual alemão que ganhou a simpatia do rei, tornando-se médico oficial da corte.

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O encontro entre os dois personagens pouco é romântico ou avassalador: Caroline e Johann não sentem uma atração devastadora à primeira vista. A rainha é desconfiada frente àquele homem que tanto agrada seu marido, o rei insano. No entanto, ao visitar os aposentos do médico para uma consulta, tem sua curiosidade atiçada pela vasta e rebelde biblioteca de Johann, que contém obras de diversos autores iluministas. Ela, que teve vários de seus livros censurados ao chegar à Dinamarca e nutre uma profunda admiração pelos pensadores do iluminismo, fica encantada. Assim, surge um grande interesse intelectual entre Caroline e Johann: suas conversas envolvem Rousseau, Locke, Voltaire, ideais de liberdade e melhorias para o povo. À estima que um nutre pelo intelecto do outro vai sendo acrescido o desejo, e os dois, então, descobrem-se apaixonados. É dessa maneira que a união de dois estrangeiros começa a mudar todo um país.

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Os protagonistas não são mostrados de maneira idealizada; pode-se dizer, até mesmo, que têm uma construção um tanto quanto anti-heroica. Caroline e Johann manipulam fortemente Christiano VII, um homem que, à primeira vista, é detestável, mas que vai se revelando como um personagem temeroso, inseguro, altamente influenciável por todos e com profundos problemas psicológicos. O homem age como um fantoche em suas mãos, mas é por um bom motivo: Caroline e Johann querem revolucionar a Dinamarca. Os fins justificam os meios?

Essa e outras questões morais nos são colocadas ao longo da película. Deve-se arriscar o bem-estar dos filhos por suas ideologias? Até que ponto a religião pode nos tornar irracionais? Pode um estrangeiro saber o que é melhor para um povo ao qual não pertence? A abolição da censura só é válida quando nos é favorável?

O Amante da Rainha, ao colocar uma mulher – mais do que uma mulher: uma personagem histórica feminina – no centro de uma intrincada trama política, valoriza aquele tido como o “sexo frágil”. Ou melhor: o filme não valoriza a mulher, pois esta já tem valor em si própria, mas sim a História. Caroline participa da elaboração das pautas e das leis, e é o verdadeiro impulso para as mudanças ocorridas. Uma visão sobre os fatos que leva em consideração as figuras femininas é tão rara que chegamos a estranhar uma mulher com uma presença política tão forte em pleno século XVIII.

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(Cabe, aqui, acrescentar mais uma crítica ao título, mas que, nesse momento se restringe ao brasileiro: O Amante da Rainha enfatiza o personagem de Struensee, dando a ele um destaque maior em relação a Caroline.)

Tecnicamente falando, o visual do filme é muito bonito. As cores vão se transformando ao longo da obra, indo de tons mais contrastantes até tons mais escuros, de acordo com o estado de espírito dos personagens e a evolução da história. Em determinados momentos, as sombras e as penumbras ganham todo o quadro, deixando-nos com uma sensação de desolamento, medo e impotência.

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Por meio de um roteiro conciso, a trama nos é revelada sem pecar por excessos ou obviedades. Isto pode ser percebido, por exemplo, na cena em que Caroline envia um bilhete a Struensee, e o espectador não fica sabendo do seu conteúdo na íntegra, mas pode subentendê-lo a partir do desdobramento do fato, e, também, quando a rainha é visitada em seus aposentos exilados por uma empregada e entra em desespero: não sabemos a fala da moça, mas depreendemos, pela angústia de Caroline, que a notícia da morte de Struensee havia chegado.

A morte de Struensee e de seu parceiro Brandt é, aliás, outro ponto forte do filme. Não nos é apresentado o momento em que suas cabeças são atingidas pela guilhotina, o que demonstra um profundo respeito do diretor para com tais personagens e com o próprio espectador, que certamente se apegou e torceu por eles durante a exibição.

Denso e inspirador. Essas são duas palavras que podem definir O Amante da Rainha. Com belas fotografia e trilha sonora, roteiro direto e ótimas atuações, o filme chega ao fim sem deixar a desejar, com um desfecho que é, ao mesmo tempo, doce e amargo, exprimindo o gosto de uma derrota vitoriosa e de uma ilusão frutífera. E o mais bonito de tudo é saber que a história é verídica.


Bianca Pinheiro

Geminiana um tanto quanto atípica, prefere escrever a falar. Nutre grande apreço por filmes, séries, livros e música - não necessariamente nessa ordem.
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