Bianca Pinheiro

Geminiana um tanto quanto atípica, prefere escrever a falar. Nutre grande apreço por filmes, séries, livros e música - não necessariamente nessa ordem

ou seja inteiro ou não seja at all

Sobre os desencontros entre as expectativas apaixonadas e a realidade dos corações quebrados.


Quando eu era adolescente, tive muitos amores platônicos. E era aquela coisa bem clichê de filme norte-americano: menina introvertida e esquisita que cai de amores pelo cara popular do colégio. Só que o desfecho dessas histórias nunca passou nem perto dos finais felizes cinematográficos, causando, por isso, muito chororô e autodepreciação. No entanto, hoje, mais velha e distanciada daquelas situações, o que era tido como uma das piores coisas do mundo, o amor platônico, me parece brincadeira de criança perto do que hoje é conhecido como migalhas afetivas.

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Você conhece alguém interessante. Vocês se sentem atraídos um pelo outro. A química, tanto física quanto intelectual, é ótima. Vocês gostam de passar o tempo juntos e têm muitas afinidades. E você vai se envolvendo cada vez mais e quando dá por si, bang!, já está apaixonada. Isso não seria um problema caso o outro não tivesse ficado lá atrás, sem poder te dar nada além do que os costumeiros encontros casuais.

Triste pelo coração partido e magoada por não ter sido informada sobre a falta de intenções do outro, você decide ir embora. Mas – surpresa! – ele não quer que você vá. Insiste para que você fique. Ele gosta de você, é só o momento que não é propício. E, como uma boa boba apaixonada, você fica, mesmo sabendo que coisa boa não pode resultar disso.

Os dias, as semanas, os meses passam. O momento nunca é propício, e nem há perspectiva de ser. É, aí, então, que você chega à conclusão que não há nenhuma desculpa capaz de justificar o delay, a não ser que ele não está tão afim de você. Com essa dedução, você opta por se afastar novamente. Mas ele, de novo, diz que não é bem assim, e você permanece. O ciclo se repete.

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Receber migalhas quando se está apaixonado é algo profundamente doloroso e deixa cicatrizes. Porque você não tem um não, mas também não tem um sim. Porque você não é completamente rejeitado, então aceita qualquer coisa que o outro quer te dar. Porque você tem que ficar controlando palavras e emoções para não ultrapassar os limites impostos. Porque você está sempre insatisfeito, mas não consegue ir embora. E o pior de tudo é que, acostumada com os restos, você pode acabar acreditando que é somente isso que merece.

Com o tempo, a relação deixa de ser fonte de prazer e se transforma naquilo que sempre foi: um desgosto. Na falta de uma metáfora melhor, eu diria que o relacionamento baseado em migalhas é um chiclete que você masca indefinidamente. Ele vai perdendo o gosto e vira apenas uma massa borrachuda – mas você continua mascando.

Masca para enganar o estômago, numa tentativa de trapacear a fome. Masca porque aquilo que te saciaria não está ao seu alcance. Masca porque o muro que o objeto de desejo construiu ao redor de si é mais forte do que qualquer boa vontade. Masca porque o outro não te deseja com a mesma intensidade. Masca por imaginar o gosto que achava que o chiclete tinha, ignorando o gosto que agora (não) tem.

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Assim, é preferível não ter nada. É melhor não receber um pingo de afeto, de carinho, de atenção do que recebê-los em prestações a pequeníssimas doses. É mais saudável ouvir um não cheio de si e certeiro do que um mais ou menos agridoce. É mais razoável levar um fora de uma vez por todas do que um toco tácito sempre que se demonstra um pouco mais de carinho. É melhor quebrar o coração numa só tacada, em vez de feri-lo todos os dias.

Um relacionamento de migalhas é um amor platônico pela metade. Na verdade, tudo está pela metade, ou, até mesmo, pela quarta parte: o outro, os encontros, o afeto, as conversas, o sexo, o tempo. Você, inclusive, fica pela metade, embora apenas do lado de fora, para não ser ignorado, enquanto por dentro está queimando com tudo aquilo que não tem permissão para sair. Só a frustração e a tristeza é que são inteiras.

É por isso que de agora em diante eu só quero aqueles que me vêm inteiros. Chega de meio-termo. Chega de se. Chega de não enrustido, aconchego sem abrigo. Chega de lance, desapego e distanciamento. Chega de metades, quartas partes, álgebra fracionária e economia. É binário. É zero ou um. É gostar ou não gostar. É querer ou não querer. É sim ou não. É tudo ou nada.


Bianca Pinheiro

Geminiana um tanto quanto atípica, prefere escrever a falar. Nutre grande apreço por filmes, séries, livros e música - não necessariamente nessa ordem.
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