Bianca Pinheiro

Geminiana um tanto quanto atípica, prefere escrever a falar. Nutre grande apreço por filmes, séries, livros e música - não necessariamente nessa ordem

Sobre ler Clarice

Nunca se esquece a primeira vez, ainda mais com Clarice Lispector. Quando somos estreantes em Clarice, descobrimos um verdadeiro enigma: um enigma delicioso de se tentar decifrar. Tentar, porque Clarice não se decifra: sente-se.


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Sempre quis ler Clarice. A fama de complexa e profunda atiçava minha curiosidade. Não posso negar que, também, trechos seus lançados ao estrelato das redes sociais, juntos aos de Caio Fernando Abreu, faziam-me ansiar por mais. No entanto, adiava, pois, por vezes, Clarice aparentava ser, para mim, aquele tipo de escritor cujo valor da obra reside unicamente em pequenos excertos, sendo o conjunto de pouco valor: pegava para ler algumas páginas de seus livros onde aqueles fragmentos poderosos se encontravam e não compreendia. Achava que não suportaria uma leitura tão complexa e, assim, abandonava-a.

Eis que um dia me deparo com a sinopse de Uma aprendizagem ou o Livro dos Prazeres. Ao lê-la, identifiquei-me prontamente: a história de uma mulher, Lóri, que se encontrava em uma jornada em busca do amor próprio, mediada por um amor externo, residente em Ulisses. Li trechos e mais trechos na internet e finalmente decidi: não posso mais esperar para começar este livro. Para começar Clarice.

Quando iniciei a leitura, fiquei um pouco desanimada: tive a mesma sensação de antes: Clarice era feita de passagens brilhantes, nada mais. No entanto, quis prosseguir, afinal como teria uma opinião formada sobre um texto que não li até o fim?

Pois bem. Valeu a pena. E como.

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O desamparo perdurou pelas primeiras 30 páginas. Esse foi o tempo que levei para compreender a linguagem de Clarice. E a compreensão foi a seguinte: Clarice não se compreende, se sente. E se sente de maneira visceral, podendo beirar o entendimento, mas nunca alcançando-o em sua plenitude, pois Clarice escreve sobre o universo, o universo humano, que é um mistério até para nós, seres humanos.

É por isso que, ao ler Uma aprendizagem ou o Livro dos Prazeres, tive a impressão de que o texto tinha sido escrito por um ser sobrenatural. E é bem possível: aqueles que amam escrever bem conhecem a sensação de compor um texto que aparenta vir de algo maior e superior, e não de si próprio. Clarice sentiu o mesmo. Podemos encontrar nas páginas iniciais da obra a seguinte nota:

Este livro se pediu uma liberdade maior que tive medo de dar. Ele está muito acima de mim. Humildemente tentei escrevê-lo. Eu sou mais forte do que eu.

clarice2.png Imagem de Universo dos Leitores.

A experiência de ler Uma aprendizagem ou o Livro dos Prazeres foi única. Eu me vi em Lóri, uma jovem mulher temerosa da vida, que representa, para ela, dor, sofrimento e risco. Lóri se privou da vida para evitar a dor, sem perceber que assim doía do mesmo jeito: ao negar a dor do mundo, a dor legítima, ela era atingida por uma dor forjada por si própria.

O que acontecia na verdade com Lóri é que, por alguma decisão tão profunda que os motivos lhe escapavam — ela havia por medo cortado a dor. Só com Ulisses viera aprender que não se podia cortar a dor — senão se sofreria o tempo todo.

Por meio de Ulisses, um professor de Filosofia por quem se apaixona, Lóri inicia uma aprendizagem, uma verdadeira viagem interior. No entanto, não se engane: Ulisses não é o responsável pelo amadurecimento da mulher. Ele é apenas o motim, o motivo que Lóri necessitava para a mudança. A verdadeira aprendizagem, o estado de graça, Lóri alcança por si e em si mesma.

Ulisses deseja Lóri profundamente, mas quer recebê-la de corpo e alma. Portanto, decide esperar até que ela esteja pronta para receber – não ele, o homem, mas o mundo em toda sua complexidade, sofrimento, e, é claro, alegria, pois esta também é difícil de ser aceita – e dar a si mesma. Lóri vai passando ao longo do livro, então, pelo processo de entrega à vida, culminando no ponto em que ela tem fome de viver e deseja abocanhar a existência com tudo aquilo que lhe é inerente.

Uma aprendizagem ou o Livro dos Prazeres não se situa no tempo ou no espaço, pois exprime os medos e as angústias residentes no mais íntimo do indivíduo. É um livro do universo e para o universo.

Por meio de Lóri e Ulisses, entramos em contato com nosso medo de ser, mas também aprendemos a enfrentá-lo. Aprendemos, sobretudo, que o mundo deve ser desejado em toda a sua intensidade, uma vez que às vezes é preciso se rasgar para permanecer inteiro – e não ser um inteiro quebrado.

Este não é um livro para quem está buscando uma história com reviravoltas e intrigas. Este é um livro, sim, para ser degustado. É preciso apreciar cada palavra, ler e reler cada frase, sentindo-a. Ainda assim, ele não será totalmente absorvido: está para além da capacidade do homem. No entanto, é válida a tentativa: relê-lo nunca será demais. Ao menos, não para mim. Eu, eu tenho vontade é de carregá-lo para todo canto, pois sei que em qualquer lugar encontrarei nele uma palavra adequada ao momento.

No mais, resta-me aguardar com ânsia voraz meu próximo Lispector.


Bianca Pinheiro

Geminiana um tanto quanto atípica, prefere escrever a falar. Nutre grande apreço por filmes, séries, livros e música - não necessariamente nessa ordem.
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