Bianca Pinheiro

Geminiana um tanto quanto atípica, prefere escrever a falar. Nutre grande apreço por filmes, séries, livros e música - não necessariamente nessa ordem

por que não vejo mais filmes românticos

Filmes românticos: superficialmente bonitos, profundamente letais.


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A notícia de que existem várias comédias românticas hollywoodianas que acabam naturalizando o assédio sexual por meio da romanticização dos abusos me trouxe à mente um aspecto do meu cotidiano que eu não havia notado até então. Quando tentei me lembrar do último filme de romance a que tinha assistido nos últimos tempos, surpreendi-me ao não saber com precisão qual tinha sido. Assim, percebi que, conscientemente ou não, tinha parado de ver filmes românticos.

Muito remotamente algumas passagens de Agora é para sempre despertaram em minha lembrança. Recordei-me de um filme sobre câncer, com Dakota Fanning e romance, mas não conseguia me lembrar de seu nome. Assim, joguei no Google os termos “câncer”, “dakota fanning” e “filme”, e descobri o título imediatamente. Não tenho certeza se foi esse o último romance a que “assisti”, mas me lembro de não ter gostado, interrompendo a reprodução em algum momento para dormir.

Se antes existia algo de encantador e mágico, para mim, nesse tipo de obra cinematográfica, agora é justamente isso que me resta ao encarar a perspectiva de assisti-las: o sono. Não que não existam filmes bons do gênero: eu mesma adoro Diário de uma paixão e Titanic. Mas o fato é que tive contato com eles em um tempo diferente de minha vida, e guardo carinho pelos mesmos até hoje, mas não sei se minha reação seria semelhante ao assisti-los pela primeira vez agora.

Os filmes românticos trazem consigo ideais de relacionamento inalcançáveis. Bonitos, à primeira vista, mas um tanto quanto esdrúxulos se esmiuçados. Normatizando, padronizando e monetizando as relações amorosas, o romantismo veiculado nessas obras induz as pessoas a acreditarem que somente aquele tipo de amor é válido, verdadeiro e suficiente, levando muitos a se sentirem infelizes com seus parceiros ou, até mesmo, a abandonarem relações em potencial pela ausência dos requisitos mínimos exigidos.

Monogamia, casamento, amor à primeira vista, declarações surpreendentes, obstáculos impossíveis vencidos, “para sempre”... Claro que essas ideias não foram inventadas pelo cinema, mas sim resultado de séculos e séculos de doutrinação em outros domínios, como o religioso. No entanto, não se pode negar a enorme responsabilidade que a sétima arte tem ao propagar filme após filme os mesmos dogmas amorosos que prejudicam as concepções de relacionamento no mundo real.

Assim, inúmeros infelizes persistem em relações insatisfatórias, buscando parceiros extraconjugais. Hipócritas, preferem seguir o ideal do amor romântico monogâmico, em vez de proclamarem suas tendências para a poligamia. Sonhadores incuráveis não se sentem amados o suficiente por seus namorados, tendo a sensação de estar sempre incompletos, ao buscar no outro a perfeição e o amor retratados nos filmes. Vítimas de violência física e psicológica permanecem em relacionamentos abusivos na esperança de um dia mudar seus companheiros.

Não podemos deixar de notar, também, que, de acordo com o amplo espectro de filmes românticos, só existe amor entre homem e mulher, de preferência brancos e de classe média. Onde está o amor homossexual, inter-racial, entre classes? Onde está o amor entre pobres, entre negros, entre indivíduos não binários? Onde está o amor na maturidade e na velhice? Obviamente essa falta de representatividade não se encontra somente nos filmes românticos, sendo um problema estrutural do cinema dominante, mas é por eles reproduzida.

É bom ressaltar que quando digo filmes românticos estou me referindo a obras cinematográficas que reproduzem o discurso do amor romântico, e não a filmes que falam sobre o amor. Afinal, filmes sobre o amor são fundamentais para os seres humanos destrincharem esse assunto tão recorrente e controverso em nossas vidas: os relacionamentos amorosos. Diferentemente dos filmes românticos, aqueles que tratam do amor não são unívocos nem rasos, buscando retratar a humanidade das relações. São obras como Brilho eterno de uma mente sem lembranças, Amour, Blue Valentine e Azul é a cor mais quente. Esses, sim, falam sobre o amor. O amor das nossas vidas, não das telas ou dos manuais.


Bianca Pinheiro

Geminiana um tanto quanto atípica, prefere escrever a falar. Nutre grande apreço por filmes, séries, livros e música - não necessariamente nessa ordem.
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