Bianca Pinheiro

Geminiana um tanto quanto atípica, prefere escrever a falar. Nutre grande apreço por filmes, séries, livros e música - não necessariamente nessa ordem

veludo azul: o encontro do noir com o melodrama e o grotesco

Veludo Azul, filme de 1985, considerado uma das obras-primas do cineasta americano David Lynch, é uma história sobre a luta entre o bem e o mal desenvolvida em grande estilo, com a mistura de elementos típicos do cinema noir e do melodrama.


Não é difícil encontrar filmes e séries cujo desenrolar se baseia no retorno de um personagem à cidade natal, geralmente por motivos de doença ou morte de algum familiar. É exatamente isso que ocorre, por exemplo, em Tudo acontece em Elizabethtown (2005) e A sete palmos (2001-2005). No entanto, a partir dessa premissa pode surgir uma infinidade de obras únicas. É isso que David Lynch faz em Veludo Azul (1985): um filme singular, que mistura características do cinema noir, do melodrama e a estética do exagero.

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Veludo Azul conta a história de Jeffrey (Kyle MacLachlan), um rapaz que retorna às origens por conta do pai doente, e se envolve em uma trama policial quando encontra uma orelha humana na volta da visita ao homem no hospital. Jeffrey entrega a orelha a um policial conhecido de seu pai, e conhece sua filha, Sandy (Laura Dern), que passa a lhe dar detalhes da investigação. Jeffrey, então, começa a investigar Dorothy (Isabella Rosselini), cantora que teve filho e marido sequestrados por Frank (Dennis Hopper), o homem inescrupuloso que abusa sexual e psicologicamente dela.

Se tivesse que descrever Veludo Azul em uma palavra seria “estranho” – essa é, aliás, a marca de Lynch em praticamente todos os seus filmes. Blue Velvet já causa estranhamento em sua sequência inicial: vemos belas rosas, uma vizinhança amigável, tranquila e feliz, bem nos padrões do sonho americano, e logo depois um senhor regando as plantas, quando começa a passar mal, tudo isso ao som de Blue Velvet. À assintonia repentina entre a música e o que aparece na tela é acrescentado um clima sombrio quando a câmera se desloca entre a grama, e a música vai sendo substituída por um som de suspense, e um bando de insetos invade nossa visão. Só com esse início Lynch consegue dizer o que acontecerá no filme inteiro: o abalo da paz e da felicidade pela descoberta de um submundo sinistro e cruel.

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Em Veludo Azul temos um claro combate entre o bem e o mal. Os parâmetros morais da trama são Sandy, que representa o bem, e Frank, o grande vilão responsável pelos males da história. Enquanto Sandy é praticamente a visão de um anjo, entrando em cena pela primeira vez como uma luz que sai da escuridão, Frank é um louco e um sádico que alcança através da direção de Lynch e da atuação de Hopper uma entoação exagerada que contribui para o caráter por vezes caricato do filme. Outro sinal burlesco da obra está no exagero do som dos socos distribuídos ao longo da película.

A complexidade psicológica da relação entre Frank e Dorothy chama a atenção do espectador. O relacionamento dos dois é claramente abusivo, sendo marcado pela violência, estupros e assédio contra a mulher. No entanto, é interessante notar a dinãmica dicotômica entre os dois: ao mesmo tempo em que Frank a domina e a maltrata, tem o fetiche de encarnar o papel de um bebê que vê nela a sua mãe, adotando uma posição tão humilhante que a proíbe de encará-lo durante o ato. Dorothy, por sua vez, obrigada a aceitar tal violência, vê em Jeffrey a oportunidade de ser ela própria a guia em um jogo de dominação-humilhação, repetindo falas e gestos de Frank para com ela nos momentos em que está com o menino. Dorothy aparece, assim, como uma mulher profundamente maltratada que, de tão acostumada com a brutalidade e a agressão, ansia por elas, demonstrando ser vulnerável e possuir o psicológico deveras abalado.

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O tom dark da obra é ressaltado pela trilha sonora de Angelo Badalamenti, parceiro de longa data de Lynch, tendo participado em outros de seus filmes, como Estrada Perdida e Cidade dos Sonhos. Com um som focado nas notas graves e que, por vezes, chega aos nossos ouvidos quase como um sussuro, quase como um silêncio, nossa tensão aumenta e chegamos a ficar com medo. Além disso, os momentos mais apreensivos são acompanhados por uma música dramática que surge de repente, fazendo com que o filme tenha um viés melodramático, caráter notado também no desenvolvimento da relação amorosa entre Jeffrey e Sandy.

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A utilização das cores é muito importante para a produção de sentidos na trama. É por meio desse recurso que o contraste entre Sandy, a mulher pura e ingênua, e Dorothy, uma femme fatale perturbada, é realçado. Dorothy aparece frequentemente vestindo vermelho ou cores escuras – e, é claro, também o azul, que parece conotar uma objetificação da personagem, pois é seu robe de veludo azul que surge quando está na companhia de Frank, o homem que a fetichiza, maltrata e explora sexualmente; além disso, a decoração de seu apartamento é intensamente vermelha, simbolizando sua sensualidade e, também, o drama sangrento no qual está envolvida. Já Sandy sempre aparece vestindo cores suaves, como rosa claro e branco, o que evidencia sua candura e bondade.

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Veludo Azul chega a seu final com um diálogo direto com seu início, mas nem por isso é um filme “fechado”. Em seus últimos minutos, um dos planos faz um close-up na orelha de Jeffrey e vai se afastando até mostrá-lo deitado confortavelmente em uma espreguiçadeira. Quando lembramos que no começo do filme ocorre o movimento inverso – ou seja, a câmera vai se aproximando da orelha, como se estivesse adentrando nela –, ficamos com a sensação de que talvez toda a história tenha sido um sonho. Essa sensação é intensificada no momento em que alguns planos iniciais são repetidos, logo após Jeffrey abrir os olhos. Assim, não sabemos se o que ocorreu foi apenas um devaneio de um homem que gosta muito de mistérios.

Lynch nos presenteia com uma história que é, ao mesmo tempo, melodramática, caricata e sombria. Por meio de seu filme, chegamos à conclusão de que, apesar de ser o mundo “um lugar estranho” e cheio de pessoas de caráter duvidoso, o bem pode surgir do mal e, acima de tudo, o bem é capaz de vencer o mal. Nesse sentido, Veludo Azul é uma obra otimista que, além de possuir uma direção magistral, não obstante o seu clima dark, tem em seu desfecho o triunfo do amor, deixando nos espectadores um gosto de esperança.


Bianca Pinheiro

Geminiana um tanto quanto atípica, prefere escrever a falar. Nutre grande apreço por filmes, séries, livros e música - não necessariamente nessa ordem.
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