Bianca Pinheiro

Geminiana um tanto quanto atípica, prefere escrever a falar. Nutre grande apreço por filmes, séries, livros e música - não necessariamente nessa ordem

Problematizando 13 Reasons Why

Muitas pessoas estão falando bem de 13 Reasons Why. No entanto, é importante problematizar algumas questões levantadas pela série. Confira uma outra perspectiva em "Problematizando 13 Reasons Why" e participe desse debate.


Texto com spoilers

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É difícil fazer críticas negativas a respeito de algo que a maioria das pessoas está gostando, principalmente quando se trata de temas tão delicados quanto os de 13 Reasons Why. Em primeiro lugar, gostaria de dizer que os assuntos colocados em pauta pela série são importantes e devem, sim, ser trazidos à tona. No entanto, não acredito que isso tenha sido feito da maneira correta. Em segundo lugar, gostaria de deixar claro que as críticas que seguem são feitas por alguém que tem experiência própria no lidar com a depressão.

13 Reasons Why é a mais recente produção da Netflix, e conta a história de uma adolescente de 17 anos, Hannah Baker, que cometeu suicídio e deixou uma série de fitas gravadas nas quais relata os motivos que a levaram a cometer o ato. No total, são 7 fitas com lado A e lado B, o que resulta em 13 razões, levando em consideração que só a metade da última fita foi utilizada. Cada episódio narra uma razão, cada razão é uma pessoa, cada pessoa é um colega de escola de Hannah – com exceção de Mr. Porter, conselheiro do colégio – que fez algo contra a menina, ou deixou de fazer quando ela mais precisava.

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O formato da série é, por si só, maniqueísta. Hannah, ao longo das fitas, coloca uma pesada carga de responsabilidade sobre aqueles que julga serem culpados por seu suicídio. Se Jessica não tivesse brigado com ela por causa de Alex, se Alex não tivesse feito uma lista na qual Hannah era considerada “a melhor bunda da escola”, se Zach não tivesse sido ríspido e roubado seus bilhetes, se Ryan não tivesse publicado um poema íntimo de Hannah, se Sheri não tivesse derrubado a placa da estrada, se Clay não tivesse ido embora mesmo depois que a adolescente o expulsou do quarto... talvez tudo pudesse ter sido diferente. “Se”, “se” e “se”.

Na medida em que coloca o outro, mesmo que a partir de pequenos erros ou omissões, como responsável pelo modo como a protagonista se sente, tendo como base a teoria do efeito borboleta, a série mostra Hannah, e nós, como totalmente dependentes das atitudes dos demais. Sabemos que todos estamos conectados e nos influenciamos uns aos outros, mas também não temos um determinado nível de responsabilidade por nós mesmos? 13 Reasons Why parece negar esse fato e defender que, se todos forem bons uns com os outros, não haverá sofrimento. Tal pensamento pode ser perigoso, pois é uma utopia que deposita nossas expectativas e nosso potencial de felicidade no outro, sendo capaz, assim, de aumentar nossa vulnerabilidade em relação à decepção e à tristeza, em um mundo em que ser feliz todo o tempo é regra essencial. Hannah é um exemplo perfeito disso, pois esperou que as pessoas a impedissem de cometer suicídio, sem que nem soubessem que ela estava prestes a tirar a própria vida. Como ninguém correspondeu a essa expectativa, ela preferiu morrer.

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Apesar de a série tentar remediar o maniqueísmo, mostrando que os supostos vilões também são, até certo ponto, vítimas, falha ao tentar quebrá-lo, pois Hannah deixa claro quem foram os responsáveis por sua morte nas 13 gravações que são a espinha dorsal do programa, e aparece de maneira idealizada, como o dedo que julga sem ter suas próprias atitudes problematizadas. Podemos notar o quanto Hannah é idealizada, e o outro, culpado, quando vemos as redes sociais infestadas por publicações como “todos estão postando mensagens se identificando com a Hannah, mas 90% são um dos porquês”. É claro, pois, do modo como os fatos são apresentados e julgados na série, qualquer atitude que possa magoar alguém é vista como potencial causa para um suicídio, o que gera uma banalização do mesmo.

Não, eu não estou dizendo que fazer bullying é legal e não deve ser punido. O que estou dizendo é que me parece improdutivo gravar uma série de fitas falando sobre os supostos culpados por um suicídio, pois isso acaba agravando o clima de hostilidade entre as pessoas envolvidas, e funciona como uma tortura psicológica, tanto que Alex também tenta se matar por não aguentar a culpa, Clay é atormentado até saber o motivo de estar nas fitas, Jessica passa a ter uma razão a mais para sofrer e Taylor compra um monte de armas, provavelmente para invadir o colégio. Isso se chama vingança, dá ensejo a um ciclo mórbido de dor e ódio e, assim, não é um bom exemplo para os espectadores que estão sofrendo.

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O suicídio é algo muito sério e que deve ser tratado com responsabilidade, coisa que 13 Reasons Why não faz. Ao apresentar uma protagonista que se suicida como uma maneira de se vingar contra todos aqueles que a fizeram sofrer – aspecto que pode ser notado no seu próprio discurso, ao dizer coisas como “farei você sentir o que eu senti uma vez”, e também no seu tom de voz, que não soa desequilibrado, instável ou desesperado, mas apenas frio e calculista –, há o perigo de Hannah aparecer como uma heroína, como uma verdadeira mártir. Com seu plano, Hannah mobilizou todos os culpados, fazendo com que se arrependessem de seu comportamento ou, no mínimo, ficassem perturbados; conseguiu uma declaração de amor de Clay; ganhou um memorial no colégio; enfim, deixou de ser invisível. Ao longo dos episódios, Hannah participa ativamente da vida dos seus 13 motivos como se estivesse, de fato, viva. Nesse sentido, o suicídio é uma romantização e, por mais que essa não seja a mensagem que a série queira passar, os espectadores podem acabar considerando-o uma saída para seus problemas.

Além disso, 13 Reasons Why não utiliza nenhum recurso narrativo capaz de mostrar que Hannah se arrependeu de dar fim à própria vida, e não apresenta mensagens otimistas para aquele que sofre. A série age sobre os depressivos apenas por meio da identificação, e isso é perigoso, uma vez que o suicídio é um ato que já costuma rondar costumeiramente o pensamento desses indivíduos. É provável que alguém já fragilizado emocionalmente se sinta “sozinho contra todos” e ainda mais triste ao assistir o seriado, afinal de contas, que solução ele propõe? Se não adianta procurar ajuda, extravasar a dor em poemas ou diários, o que resta? O seriado deveria mostrar, ao menos, uma saída palpável, ou seja, uma tentativa de tratamento – counselors não são psicólogos nem psiquiatras.

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Outro problema é que, ao mesmo tempo em que a maior parte das razões apresentadas para o suicídio envolve intrigas juvenis, aparecem também o estupro e o assédio. Como podemos equiparar um abuso sexual aos outros motivos citados mais acima? A partir do momento em que a série coloca todos os problemas no mesmo pacote, o machismo e a misoginia perdem relevância e aparecem como simples bullying. Mas o programa não deveria ser tratado como tendo o bullying como temática, e sim a misoginia. Foi a misoginia que matou Hannah, misoginia essa responsável por espalhar boatos de que ela era “fácil” e que, por isso, deveria estar sempre disponível; pelo estupro; e pelo descaso do conselheiro do colégio ao ouvir seu relato de abuso.

No entanto, 13 Reasons Why falha ao tentar falar sobre machismo, não só por apresentar atitudes misóginas e criminosas como bullying, mas também por personificá-las demais em alguns personagens e focar em suas consequências emocionais, em vez de discutir suas causas sociais e históricas e combater, assim, suas raízes. Por que não mostrar que as atitudes misóginas dos meninos foram aprendidas em casa e na sociedade? Por que não abordar como a objetificação das mulheres nas revistas, na televisão e no cinema sustentam o machismo e, consequentemente, o estupro? Por que negar a sororidade, colocando duas vítimas de abuso sexual uma contra a outra, Hannah contra Jessica? Por que exibir somente a homossexualidade entre duas mulheres, quando existem, no mínimo, três meninos gays na trama? Por que não criticar o sistema, em vez de simplesmente expor seus resultados?

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13 Reasons Why é voltada para o público adolescente, mas isso não é motivo para ser superficial. Na verdade, a série tenta abarcar tantos temas de uma só vez, que acaba por não tratar de nenhum com profundidade. O bullying, a depressão, o suicídio, a automutilação, o machismo e a homofobia são apenas “jogados” para que o espectador saiba que existam, sem ser feita nenhuma reflexão sobre o mundo material que permite que essas discriminações e esses problemas em geral afetem nosso mundo emocional.

Além de todos os seus problemas simbólicos, 13 Reasons Why apresenta uma série de problemas do ponto de vista técnico. Seus personagens parecem não ter uma personalidade coerente, agindo à mercê das necessidades da trama. Há cenas completamente desnecessárias, em que o único objetivo é aguçar a curiosidade do espectador, o que é um erro, pois a série é um drama, e não um thriller. Há episódios demais, longos e cansativos demais, e diálogos e mistérios que não acrescentam em nada. Por vezes, a série parece priorizar a criação de uma aura de suspense do que tratar, de fato, das questões que propõe e, assim, acaba apresentando uma perspectiva maniqueísta, ambígua e rasa sobre sua temática.

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Eu gostaria de acreditar que 13 Reasons Why pode colaborar para a conscientização dos que praticam bullying ou qualquer tipo de discriminação. Mas, a bem da verdade, acho que, se o seriado estivesse realmente interessado nisso, teria uma história com menos culpa e ressentimento e mais perdão e solidariedade, afinal de contas, guardar mágoas não é bom para a saúde mental de ninguém e, por mais traumatizante que possa ser sofrer bullying, é mais saudável para nós mesmos procurar ajuda psicológica e/ou psiquiátrica para cicatrizar essas feridas, em vez de atribuir responsabilidades.

*Texto publicado originalmente em Minha Visão do Cinema.


Bianca Pinheiro

Geminiana um tanto quanto atípica, prefere escrever a falar. Nutre grande apreço por filmes, séries, livros e música - não necessariamente nessa ordem.
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