Agatha Andrade

Em meio a milhares de vidas amontoadas buscamos o que está dentro de nós mesmos para nos sentirmos mais autônomos em um mundo tão igual. É só ao observar o vazio que tememos que ele, também, esteja além das estrelas. Medo de que essas estejam tão perdidas quando nós. Blog:www.screepeer.com.br

Brilho Eterno de uma mente sem lembranças

Algumas lembranças são importantes, pois constroem quem somos. Os caminhos que tomamos por mais complexos que sejam nos definem, ora definem como nos sentimos, ora como agimos. Precisamos olhar para atrás para nos encarar tropeçando para então compreender, em que ponto devemos desviar ou como nos levantar ao cair novamente.


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O longa de 2004, Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças, conta a história de Joel (Jim Carrey) que resolveu fazer um tratamento que o permitia esquecer a mulher que ama, Clementine (Kate Winslet), pois descobrira que ela havia feito o mesmo. Nesse processo, ele acaba encaixando-a em momentos de sua memória em que ela não estava, a fim de tentar - de alguma maneira - salvar sua história em suas lembranças.

Afinal, por mais que ele grite que o melhor é esquecer, no meio do caminho, ele não consegue se desprender do que foi. Há a dor, mas o lado bom parece mais forte. Libertar-se daquilo tudo lhe pareceu pior do que a dor do fim. Em meio ao tratamento, ele começa a lutar para manter as lembranças, mas elas vão sendo apagadas.

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Quem nunca amou alguém que desejou esquecer com todas as suas forças ? Alguém que o fez olhar para atrás diversas vezes e o fazer querer reconstruir quem é. Não importa os momentos, algumas pessoas são tão especiais que desejamos que elas estejam até onde não deveriam.

Ao encontrarmos tal pessoa nos arriscamos e tomamos caminhos que podem parecer corretos ali, mas tempos depois podemos datá-los como errôneos. No fim, são essas lembranças que nos ajudam a trilhar pela estrada. O esquecer não funciona, pois precisamos do que está lá atrás para não cairmos nos mesmos erros. Até onde, o desejar esquecer é sincero ? Até onde ele é realmente o que precisamos ? Afinal, precisar de algo não significa que esse algo é o que temos que ter.

Posso dizer que já virei para trás milhares de vezes desejando esquecer. Já quis que certas histórias nunca mais fossem repetidas na minha cabeça, e, que ao olhar alguém que remetesse ao meu passado nos olhos não sentisse nada. Não obstante, se eu não lembrasse ou sentisse não seria eu mesma. Seria uma ilusão minha caminhando em meu lugar. Buscando o que nem sabe que quer encontrar.

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Segundo Nietzsche, "Abençoados são os esquecidos...". Será ? Tropeçar faz parte, e, lembrar do tombo é ter consciência de como se pode levantar depois. Ainda estamos vivos quando esquecemos, mas se não houve certo processo para chegarmos a tal estado fica o vazio. Aquele estranho que calado grita mais que qualquer um. Tal que, acabamos nos questionando: Qual é o meu problema ? Pois, simplesmente falta alguma coisa.

É como a primeira manhã de Joel, depois do tratamento. Nada parece estar como deveria. O mundo está mais monótono e a irritação aparece nas pequenas coisas. Ele olha em volta e se pergunta o que está faltando. Chega na estação e em um impulso pega outro metrô, pois ir para o trabalho não era o que ele precisava naquele instante.

Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças é um longa incrível, pois leva o espectador a diversos caminhos conclusivos ou questionadores. Desafiando a você, nas lacunas, encontrar suas lembranças. Alguns podem se guiar pela necessidade de se esquecer, outros pelas subjetividades de Clementine, outros pela felicidade de tentar quando não se vê saída. Preferi o encarar que estamos sempre caindo e isso nos ajuda a apreender a caminhar.

O paraíso e o inferno estão em nossas lembranças nos guiando por milhares de caminhos divergentes. Para deixar de pensar em um ou em outro é preciso recontá-los até perderem o valor. As vezes funciona para algumas, e, para outras, ainda não sou capaz de afirmar. Mas, no filme aquelas pessoas se perderam mais do que gostariam ao optarem pelo caminho aparentemente mais fácil.

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A história de cada um não era, necessariamente, perfeita, mas eram deles. Arrancá-las fora devastador. Esquecer rapidamente pode parecer o melhor caminho a se percorrer, mas até quando ? Ou até onde se pode ir sem se perder ? Quando Patrick(Elijah Wood), um dos funcionários da clinica que se apaixona por Clementine, tenta ser como Joel, depois que ela o esqueceu. Não é suficiente, pois não é da maneira que deveria ser. A Mary(Kirsten Dunst) com o caso esquecido com o Dr. Howard Mierzwiak(Tom Wilkinson), mesmo após ter esquecido isso, ela ainda o amava sem saber que ele estava em seu passado. No fim, todos podiam esquecer, mas não deixar de amar ou se afastar de alguns sentimentos.


Agatha Andrade

Em meio a milhares de vidas amontoadas buscamos o que está dentro de nós mesmos para nos sentirmos mais autônomos em um mundo tão igual. É só ao observar o vazio que tememos que ele, também, esteja além das estrelas. Medo de que essas estejam tão perdidas quando nós. Blog:www.screepeer.com.br.
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