Agatha Andrade

Em meio a milhares de vidas amontoadas buscamos o que está dentro de nós mesmos para nos sentirmos mais autônomos em um mundo tão igual. É só ao observar o vazio que tememos que ele, também, esteja além das estrelas. Medo de que essas estejam tão perdidas quando nós. Blog:www.screepeer.com.br

Porta mal fechada: Se você soubesse que hoje é seu último dia de vida, com quem passaria ele ?

A pergunta não é como, onde, mas com quem ? Existem milhares de respostas e caminhos possíveis que variam de pessoa para pessoa. Existe uma resposta, que particularmente vem sem que eu consiga impedir. Aquela que entra no coração sem querer e amordaça os demais sentimentos ou valores. A que passa por uma porta mal fechada da vida. Segurando a chamada "razão" por um tempo.


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Pergunta famosa essa, tenho certeza que todos já se fizeram ela em algum momento da vida ou quem não, irá fazer. Confesso que sempre me faço. Penso por diversas vezes que poderia passar com qualquer pessoa, poderia ser com um amigo ou alguém da família, o que importa é ser especial. Porém, na minha vida existe uma porta mal fechada. Do tipo que se sai muito rápido e bate ela, mas ela fica entreaberta. No espaço restante dessa passam todas as lembranças indesejáveis. Do tipo que regem minha ações e quem eu sou. Por anos, todas as vezes que penso nessa pergunta, minha mente só me trás a uma resposta que passa por esse vão. A que consegue me consumir aos poucos e transformar minha alegria em um vazio estranho.

Isso as vezes é tão súbito que chega a ser mais que confuso. Pode vir a qualquer instante, podendo eu estar de mãos dadas com alguém ou não. De alguma maneira as lembranças passam como o convidado indesejado. Quando essa pergunta vem começo duvidar, ainda mais, de tudo dentro de mim. Esqueço quem eu sou, e, o fato de que se tudo acabar nada disso irá importar. Não sou capaz de trancá-la, pois estou em uma espécie de bolha da qual não consigo me mover. Observando isso ocorrer por vezes demais para ser normal. É a estranha fantasia de um mundo cruel que eu deveria esquecer, mas sinto falta.

Certa vez, eu jurava que tinha trancado a porta. Abri outra e passeei por diferentes ruas, fora libertador. Não obstante, você já sentiu que em uma passagem extremamente curta de tempo, nanosegundos, talvez, algo mudasse? Como se um copo estivesse caindo e se estraçalhando no chão de uma sala vazia? Eu já.

Só precisava dar mais um passo para tudo estar perfeito. Então, o copo se quebrou e a pergunta foi refeita. Mais uma vez todos meus sentimentos gritaram que eram com quem estava atrás da porta que eles desejavam passar o ultimo dia. As demais pessoas eram especiais e estavam ali, mas apenas a imagem de tal pessoa passara pela minha cabeça. Mesmo com a porta mal fechada nunca houve para onde voltar. O que está atrás dela não é mais acessível, mas o que é despertado quando as lembranças passam por ela não aceita. Não aceita e continua gritando o proibido. O que se foi. Minha resposta nunca mudou, enquanto a do cara lá atrás se moveu tantas vezes que me aprisionou longe delas.

Sei que muitos poderão dizer: Então, por que você não fecha ela e ponto ? Corra até ela desaparecer ou lute até não poder mais. Sinceramente, eu mesma, repito isso o tempo todo para quem quiser ouvir. Digo e repito para todos agirem, não ficarem presos na bolha do passado. Mas, eu só faço isso, pois eu estou. Presa no passado e observando o presente. Sonhando e vivenciando amores líquidos até eles escorrerem por minhas mãos, para daí, começar um novo. Talvez, um dia a porta se feche. As lembranças se contentem e um novo infinito se torne especial. Único e me complete. Não obstante, por enquanto, eu continuo a seguir. Fazendo a única coisa que me restou e aceitando.

Mas, como eu falei a resposta varia de pessoa para pessoa. Serei hipócrita e continuarei a dizer que a melhor resposta é passar com a pessoa ou com as pessoas que mais te fazem bem. Sorria e seja o mais feliz que puder. Pois, mesmo que eu ainda venha pensar em uma resposta, a principio, eu sei que ela não é a única. Isso é a única coisa que me faz sorrir, depois de pensar na porta entreaberta.


Agatha Andrade

Em meio a milhares de vidas amontoadas buscamos o que está dentro de nós mesmos para nos sentirmos mais autônomos em um mundo tão igual. É só ao observar o vazio que tememos que ele, também, esteja além das estrelas. Medo de que essas estejam tão perdidas quando nós. Blog:www.screepeer.com.br.
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