Agatha Andrade

Em meio a milhares de vidas amontoadas buscamos o que está dentro de nós mesmos para nos sentirmos mais autônomos em um mundo tão igual. É só ao observar o vazio que tememos que ele, também, esteja além das estrelas. Medo de que essas estejam tão perdidas quando nós. Blog:www.screepeer.com.br

A Garota no Trem

“A Garota no Trem” abre um espaço para diversas reflexões dentro do longa-metragem, além de ter uma trama surpreendente.


garotatrem_feat.jpg

Inspirado no livro de Paula Hawkins, “A garota no Trem” é um suspense que prende o espectador na história. É muito bem construído para deixar o público envolvido com a trama, os personagens e as reflexões sobre algumas normas sociais que é possível fazer ao assistir o filme.

Conta à história de Rachel (Emily Blunt), uma mulher que está sempre fantasiando sobre a vida dos habitantes de uma casa que ela consegue avistar todos os dias do trem. Há um belo casal vivendo na casa, aparentemente em uma vida perfeita – um casal unido, romântico e atencioso.

Rachel desenha o casal e faz interpretações de quem eles são todos os dias. Ela observa tanto, pois eles têm tudo o que ela teoricamente já teve e sonhava em ainda ter. O casal aparenta ser do tipo que ela imagina não ter problemas, do tipo que inveja ao olhar de longe. A vida dela é olhar pela janela do trem, enquanto bebe mais um gole de álcool. Seu antigo mundo está quatro casas depois sendo protagonizado por outra mulher. Seu ex-marido, Tom, mora em sua antiga casa com Anna, a atual esposa, após ter o filho que Rachel sempre sonhara em ter com ele.

Rachel entra em desespero quando certo dia avista a mulher, da casa que tanto observa, beijando outro homem. Ela fica desesperada e acaba bebendo excessivamente – ela não consegue acreditar naquela traição. A mulher é dada como desaparecida logo depois.

Rachel é uma mulher destruída. Vivendo trancada em seu passado, observando na terceira pessoa sua antiga vida. Vivendo a margem do que o tempo fez com ela. Bebendo para aturar mais um dia e observando o casal feliz para sentir-se um pouco mais satisfeita. Ela perdeu o controle da sua mente, do seu presente, da sua vida.

Como julgá-la? Ás vezes, é assim, olhamos tudo o que perdemos e não há mais motivos para seguir em frente. Ficamos desejando o que ficou lá atrás, ou melhor, apenas estar no lugar de outra pessoa. Almejando que tudo fosse diferente, mas sem ter ideia do que fazer para mudar alguma coisa. Tendendo a nos apegar a fantasias para nos sentirmos um pouco mais completos.

filmes_10676_garotas11.jpg

Quando a história adentra na vida dentro da casa que Rachel considera perfeita, temos Megan (Haley Bennett) que se sente incompleta. Olhando toda sua realidade e sentindo como se não fizesse parte daquilo tudo. Lembrando-se de tudo o que ela deixou de fazer. Lamentando pelos problemas do passado e tentando sentir-se satisfeita com o presente.Tão descontente com a sua realidade quanto qualquer um naquele cenário, pois a vida que leva não é o que esperava. Detendo medos, fantasmas e arrependimentos que tenta superar a sua própria maneira. Muito do invejado por Rachel, ela odeia. Pois, está trancafiada em seus próprios vícios para superar o que deixou para trás.

Anna (Rebecca Ferguson), a atual esposa de Tom é um pouco diferente das outras duas. É a mulher orgulhosa da vida que leva, sentindo falta de sua antiga posição de amante, afinal tinha uma maior proximidade com o marido.

Após o desaparecimento de Megan, o filme mostra lapsos de memória que transformam o cenário em um suspense único. Deixando o público ansioso para compreender o que realmente aconteceu.

2_6xcsrwS.png

Para Rachel, temos a típica frase: A grama do vizinho é sempre mais verde. Olhando para o outro e já definindo tudo o que ele é. Projetando tudo, o que gostaria de ter sido ou ser, na vida alheia, mas no fim necessitando mesmo olhar para dentro e libertar-se do passado. Entender a si mesmo, parar de fugir e enfrentar seus medos – O que é sempre mais fácil de falar do que de fazer.

Em meio a tanta confusão interna, a sociedade não a ajuda, apenas a julga e a olha como louca. Ninguém tenta entender seus motivos. Com o decorrer do filme vamos compreendendo melhor o desespero dela por ter perdido Tom, o tipo de relacionamento em ela vivia, o quanto ela foi sendo arruinada por diversas situações.

rachel-megan-e-anna-personagens-centrais-do-suspense-a-garota-no-trem-1477528823472_615x300.jpg

O filme é muito interessante, pois pode ser analisado por diversas perspectivas, por exemplo, trata de temas como relacionamento abusivo e na posição em que essas mulheres são postas na sociedade (a dona de casa, a alcoólatra e a mulher que traí do marido) – a primeira visão que temos delas é estereotipada, vestida de rótulos de uma sociedade machista, mas vai sendo desconstruída com o passar do longa-metragem.

O suspense do filme lembra muito que podemos encontrar em “Garota Exemplar”, mas esse ainda trabalha um pouco mais a força feminina. Além de, vincular questões da realidade social a um suspense incrível.

Eu peguei apenas uma analise mais inicial de todo o longa-metragem, mas ele perpassa por questões que podem acarretar interpretações bem interessantes. A história tem um ótimo desenvolvimento e é surpreendente. Vale a pena conferir o suspense que leva o espectador a ficar vidrado na história do inicio ao fim.


Agatha Andrade

Em meio a milhares de vidas amontoadas buscamos o que está dentro de nós mesmos para nos sentirmos mais autônomos em um mundo tão igual. É só ao observar o vazio que tememos que ele, também, esteja além das estrelas. Medo de que essas estejam tão perdidas quando nós. Blog:www.screepeer.com.br.
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/cinema// @obvious, @obvioushp //Agatha Andrade
Site Meter