sem lenço com documento

Mulher pensando inquieta...Feito flor de Algoroba...Perigo no ar...Cuidado!

Marcília Nóbrega

Urge olhar o outro como que para o espelho.

O outro me carrega. Por isso, corro tanto e não quero o outro.

Urge voltar...Para o outro. Para mim.

Meu marketing...Minha Maluquice!! (??)... As “redes sociais”, inimigas na trincheira. E sobre cartas de amor e de amigas.

Dia desses me peguei refletindo: “...Nossa eu não tenho uma conta no twitter...eu preciso de uma conta no twitter...”. Fucei, fui lá no troço...E nem sabia como criar a conta...Cansei, deixei pra me logar no negócio depois...Mas meu marido me perguntou pra que eu queria uma conta no twitter...Ao que respondi que não sabia, mas que devia ser interessante.


Dia desses me peguei refletindo: “...Nossa eu não tenho uma conta no twitter...eu preciso de uma conta no twitter...”. Fucei, fui lá no troço...E nem sabia como criar a conta...Cansei, deixei pra me logar no negócio depois...Mas meu marido me perguntou pra que eu queria uma conta no twitter...Ao que respondi que não sabia, mas que devia ser interessante. Sozinha, depois, fiquei a matutar que se o twitter fosse interessante pra me causar o mesmo desencanto e abuso que me têm causado o facebook e o instagram, era melhor deixar pra lá. Melhor é escrever minha carta pra Angelícia. Angelícia é uma amiga de infância muito querida e que morava na zona rural, onde passei belíssimos momentos de minha meninice e adolescência. Durante anos nos comunicamos por cartas. Mas o tempo nos levou as duas para lugares longínquos. Mas tem me dado uma saudade dela, de tudo o que vivemos e falamos e brincamos e dançamos... Pois bem, eu sabia que tinha o número do telefone celular da filha dela. Liguei. Mas a filha me relatou que não poderia passar pra ela já que não conseguia ouvir direito ao telefone. Ela tem um problema auditivo e se constrange muito com isso. Sempre teve, porém eu não sabia que tinha piorado. Bom, vamos à carta. Comecei a escrever e, acredite, ainda não parei. Primeiro porque gosto de escrever e sou prolixa, segundo porque muitos foram os anos sem nos vermos e nos darmos notícias. Amadurecemos, talvez, tivemos romances, desamores, doenças, alegrias...tivemos filhos... Tudo isso enfim que nos ocupa e tira o tempo de escrever cartas. Mas terminarei e enviarei. E já vejo os olhos negros dela lendo e sabendo de mim...E sei que ela responderá. Outra amiga minha, cujo nome não devo revelar, adora cartas de amor, como eu. Certa feita ela teve um lindo romance com uma pessoa que também adorava escrever cartas de amor. Depois de alguns anos eles se separaram, ela retomou uma antiga relação com outra pessoa e eles se casaram... Mas num dos nossos encontros ela me entregou um pacote cor de rosa com todas as cartas de amor trocadas com aquele grande amor dela. Era um volume razoável, com cartas, muitas cartas, e bilhetes de cinema, e recadinhos/poemas trocados em lenços de papel de lanchonetes, e flores secas... Enfim, eu guardava comigo agora a história dela, que por sinal foi muito linda, eu pude testemunhar...Sim, tenho saudade de cartas de amor e de amigos...Até cheiro elas tinham às vezes. Elas eram mais humanas, mais reais, mais carinhosas... Nós tínhamos tempo para elas...Planejávamos o que escreveríamos e por vezes as enfeitávamos com canções, com poesias regadas até a licença poética...Sonhávamos com o olhar de quem as leria...As cartas enfim nos faziam felizes...Nos faziam mesmo melhores. Pelo menos melhores do que hoje. Nelas não precisávamos necessariamente opinar, às vezes as reticências mais falavam. Nelas não havia a necessidade de combater, de se mostrar... Elas eram instrumentos de amor e amizade, bem guardadas nos envelopes com bordas em verde/amarelo e bem seladas, literalmente seladas. Nas cartas dávamos notícias, boas ou más. É bem verdade que púnhamos o nosso olhar e cara sobre esta notícia... Mas o interesse em parecer ser bom, competente, participativo, humano e melhor, não veio das cartas, ou com elas. Veio com as redes, ouso dizer anti sociais, que tanto estimulam esse nosso marketing de cada dia. Com efeito, o cansaço e desencanto que me tomam em relação a estes instrumentos de desfazer relações, como os defino, decorre desse exagero nosso na exposição, sendo que quase sempre nos expomos para mostrar que: “eu sou bom porque posto isso”, ou “oh, como sou humana por condenar isso” ou “como você é menor, defendendo essa causa”... É óbvio que o conhecimento e a informação nos libertam e educam. Mas o que temos visto nestes saites e aplicativos de “relacionamentos” e comunicação é uma babel que deseduca, é um desserviço à sociedade. Não é de igual modo incomum as interpretações “equivocadas” que quase sempre se convertem em grosseria e desrespeito, para dizer o mínimo. Dizia eu para uma grande amiga certo dia: “Uma geração de grosseiros está em curso”. Protegidas pelo anonimato, ou por codinomes, ou mesmo se identificando, as pessoas comentam postagens e notícias de seus “amigos” com raiva, com ódio...É patológico, eu não tenho dúvida, embora seja por demais sabido que a humanidade está há muito adoecida. Por outro lado, o não posicionamento ou a não opinião sobre certo tema refletido numa notícia ou postagem, causa de igual modo o descontentamento de seus “amigos” que por vezes chamam os seus pares de omissos, simplesmente pelo silêncio. Mostrar-se, pôr a cara, ser combativo, ser bom, ou ser mal. Mas é preciso o marketing, sem o qual estes instrumentos não sobrevivem, como é notório e sabido também. A dieta lowcarb vendidas para mulheres e homens que querem secar, mesmo que seus exames se mostrem saudáveis, é promessa de felicidade nas lindas fotos curtidas por centenas e milhares. Sim, é preciso patrocinador, é claro. O padre sarado e vaidoso com pânico postando para o Brasil inteiro a sua crise mental e psíquica é marketing certeiro para as editoras de seus livros...Meu Deus...Socorro... As meninas e mulheres enlouquecidas nos espelhos da academia, secando a barriga e entortando a cara pra lá e pra cá buscando a beleza do selfie que a celebridade ou blogueira faz. Sim, isso virou felicidade. Que bom. Vamos vender saúde... Essa então, a indústria da saúde, a mais promissora (perigosa!?). Não, todos estes elementos não cabiam na carta, literalmente. É bem verdade que a carta não ia até as nuvens, como podem ir e serem salvos os dados bytados trocados nas redes sociais. De minha parte, prefiro não poluir as nuvens, sabe? Eu as prefiro limpas, claras, para virarem bichos e coisas, no imaginário de minha Nina e de outras crianças. Vou lá, terminar de escrever minha carta, com notícias de amiga e de amor. carta-de-amor.jpg


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