sem lenço com documento

Mulher pensando inquieta...Feito flor de Algoroba...Perigo no ar...Cuidado!

Marcília Nóbrega

Urge olhar o outro como que para o espelho.

O outro me carrega. Por isso, corro tanto e não quero o outro.

Urge voltar...Para o outro. Para mim.

...Bem pertinho da casa de Clarice Lispector... Ou sobre olhares para uma manhã no Centro de Recife.

Rua do Aragão...Sábado, Por volta das 10h30. Cansados, sol a pino. Sombra, sombra pra Nina que já está muito vermelha, muito confusa, mas muito calma.. “...Olha que igreja linda, filha...” Muita igreja linda...Muita casa linda.. Fomos à loja de móveis que queríamos e tínhamos ido há mais de dez anos...Nem tudo era do mesmo jeito. A mesa de madeira desejada e parecida com a que tínhamos não existe. Quase tudo na loja querida é modernoso demais, comercial demais e fraco demais. Pena. Vamos em frente, e que nos sejam mostradas as “novidades”. Mas havia muitas novidades...Muitos olfatos...Muitos ouvidos...Saltando dos olhos, nariz e ouvidos. E sim, Clarice estava lá.


Rua do Aragão...Sábado, Por volta das 10h30. Cansados, sol a pino. Sombra, sombra pra Nina que já está muito vermelha, muito confusa, mas muito calma.. “...Olha que igreja linda, filha...” Muita igreja linda...Muita casa linda.. Fomos à loja de móveis que queríamos e tínhamos ido há mais de dez anos...Nem tudo era do mesmo jeito. A mesa de madeira desejada e parecida com a que tínhamos não existe. Quase tudo na loja querida é modernoso demais, comercial demais e fraco demais. Pena. Vamos em frente, e que nos sejam mostradas as “novidades”. “...Xixi, mamãe!” Ai meu Deus... Tem banheiro lá atrás da loja, ainda bem. Terminamos o xixo de Nina. Sabonete cor de rosa, acho que gessy, nos esperava...Pronto, mas optamos por não usar a toalha... Preta demais... O vendedor da loja nos recomendou para o almoço um restaurante chamado A SERTANENSE...Que bom, delícia, limpinho, agradável.. E segregado. Lá em baixo, é PF e lá em cima, é self-service. Vamos pra cima... Delicioso o almoço. Eu, como sempre, de ouvidos e olhos a céu aberto... Atrás de nós, duas senhoras conversam, mas o ângulo é tal que as vejo transversalmente. E olho mesmo. Tou nem aí. Antigas, elegantes... Põem a conversa em dia. Parecia que não haviam marcado mas era bom o papo. Uma delas, a que eu via plenamente quase de frente, falava da crise, do ódio por Dilma e Lula... “...Aqueles ladrões...” Tinha ódio e também umas sobrancelhas pintadas. A outra, que eu não via a não ser o seu vestido amarelo, era bem mais velha. Dizia para a amiga: “...Tu tem? Pois eu nem tenho..., eles não roubam mais do que os outros que por lá passaram e do que fulano e sicrano que faliram Pernambuco não, viu?”. A amiga respondeu: “...É, você tá certa.” Calou-se, em respeito à outra que era mais velha, talvez. E falavam ainda mais, de antigos clubes de dança, de noites de baile...A amiga da sobrancelha pintada disse: “...Pois é, quanta oportunidade perdemos...” ao que responde taxativa a dama de amarelo: “..Só tu, porque eu não perdi nenhuma oportunidade da minha vida. Tu estás estudando?” “Não, não estou, não. Tu estás?” respondeu um tanto constrangida e chateada. “...Pois eu estou fazendo História, à noite.. Mas não presta não, professores muito novos e limitados..”...Eu pensei “preciso ver a cara dessa mulher”...Pois meu desejo foi atendido...Nina acaba de comer e sai da mesa. Fica por ali, explorando... A dama de amarelo se vira pra ela e finalmente me aborda: “Linda ela, já lê?” ”Do jeitinho dela, muito. Ela gosta bastante de livro.” respondo eu. “Da idade dela, eu lia Machado de Assis, Tolstoy... A minha irmã me ensinou a ler escondido do meu pai... Debaixo da mesa. Eu devo isso a ela...E você gosta de ler?” “Sim, gosto, gosto muito, mas não leio o quanto deveria..” A amiga de sobrancelha pintada se levanta e diz que vai ali... Pega o elevador e xau...A conversa se estica bem...Jean almoça, quieto, olhando e olhando...Nina passeia rodeando a mesa. “ Ela tem ódio de Lula, você ouviu, né?...a minha amiga...” “Não teve como não ouvir, nossas mesas estão coladas”, respondo eu mais educada do que bisbilhoteira. E acrescentei preocupada: “...Mas ela já se foi, a senhora não está na companhia dela?” “Não, não, de jeito nenhum... Deixa ela ir, coitada”, afirma, como que atestando a incompatibilidade com a companheira de mesa. E prossegue: “A gente fica meio maluca quando é leitor, né? Eu li muito...Muito...Adoro ler.. Mas o povo tá muito burro, ultimamente... Eu almoço sempre aqui. Vez por outra vêm uns advogados, conheço pelos diálogos, que devem trabalhar aqui perto, todos empalitozados, esnobes, bem donos do mundo...Tão imbecis que dá pena. Fico só rindo, coitados”. E falou, falou, mas falou tanto...Que eu teria ficado ali muito. Mas não dava, não dava mais, tínhamos que ir. Despedimo-nos. “Até logo, você é muito bonita, tal como sua filha”, agradeci e retornei o elogio. Desci ainda embriagada daquela mulher. E seguimos, pelo Aragão. “...Papai, quero ver os pombinhos”. Um sol escaldante, já. Vamos, vamos lá. Pra mais de meio dia. Praça Maciel Pinheiro. Peço licença pra gente sentar num banco ao lado de um senhor que tomava cachaça vendida por um dos ambulantes, que o servia e conversava com ele, enquanto a mulher manipulava os alimentos. Um prato de galinha guisada com uma latinha de cachaça. A tarde prometia. O ambulante me deu um tamborete. Nina brinca com os pombos mostrando ao pai como são lindos, e eu olho, olho...Ouço também, uma música caribenha, cubana? Endoideço, vou ao carrinho dos CDs e DVDs. O vendedor me diz que só tem ele, que perdeu o saquinho do CD e que de R$ 3,00 me vende por R$ 2,00. Justo. Enquanto vai atrás do troco eu vejo uma pilha de DVD pornô. “Minha Nossa Senhora”, penso eu. Pois quem vem me dá o troco já é o homem que vende fruta, que me corre todo serelepe. Não vê a aliança e investe: “...Essa música é decente, né não?? Mas pa quem sabe dançar”..Eu respondo: “...É”. Do outro lado, Jean olhava Nina. Eu os via do ângulo onde eu estava. Do lado de Nina uma menina, duas na verdade, sujas, bem sujas, também encantadas com os pombos. Estavam próximas da mãe e de outra mulher, que comiam uma quentinha junto com as meninas. Volto, animada com o meu CD de “músicas cubanas”, como escreveu o vendedor com a caneta de identificação. Sentada do meu lado, uma cigana, com muitos anéis nos dedos, muitos...Ela tinha o olhar perdido... Muito perdido. Mas tinha dinheiro pra comprar um prato de “mão de vaca” no carrinho do vendedor que me deu o tamborete. Ela comeu muito. De frente pra ela, uma outra mulher de olhar igualmente perdido, cheirando cola...Escorada num carro. Deitada, ao lado dessas duas mulheres, uma outra mulher, mas essa não dormia, essa era simpática. Quando eu voltava da compra do CD ela me fez uma aceno e sorriu, com muito poucos dentes. Sinto cheiros também, de sujeira, de imundice, de pobreza, não necessariamente nessa ordem. Mas são cheiros diferentes, certamente. “Vamos lá?” Nina protesta chorando. Mas é hora de irmos. Compro uma garrafa de água ao vendedor que me deu o tamborete. Lavo as mãos de nós três. E seguimos pela praça...De mãos lavadas. Jean relata o que eu ainda não havia percebido: “Você viu, quem morou ali naquela casa?” “Onde?” “Ali, olhe a placa” “A ANTIGA CASA DE CLARICE LISPECTOR”. Incrédula, emocionada, respondi: “Meu Deus...” Quantos personagens tão Claricianos naquele pedaço de dia brincavam, riam, gemiam e choravam no vale de lágrimas próximo à casa da menina Clarice! sabonete-outro.jpg


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