sem lenço com documento

Mulher pensando inquieta...Feito flor de Algoroba...Perigo no ar...Cuidado!

Marcília Nóbrega

Urge olhar o outro como que para o espelho.

O outro me carrega. Por isso, corro tanto e não quero o outro.

Urge voltar...Para o outro. Para mim.

Câncer: O Ter e o não Ter... E as relações psicossociais que impactam uma mulher que teve câncer de mama...

Passado algum tempo do tratamento de câncer de mama (quase dois anos para ser exata), são evidentes os muitos rastros deixados por esta doença de tantos CIDs e estigmas para milhões de mulheres mundo afora, inclusive esta que vos escreve, sobretudo numa sociedade que ainda carece tanto de respeito, de tolerância, ou de qualquer sentimento que aproxime as pessoas e não as afaste. Digo isto porque tão logo terminei meu tratamento, e mesmo durante todo o tratamento, eu constatei um fato: EU FAÇO PARTE DE UM GRUPO SEGREGADO. De algum modo, eu sei como se sente um preto que vive no Brasil e sofre discriminação; um casal homoafetivo; uma minoria seja ela de que grupo for, que não é respeitada, E QUE PRECISA SER.


Passado algum tempo do tratamento de câncer de mama (quase dois anos para ser exata), são evidentes os muitos rastros deixados por esta doença de tantos CIDs e estigmas para milhões de mulheres mundo afora, inclusive esta que vos escreve, sobretudo numa sociedade que ainda carece tanto de respeito, de tolerância, ou de qualquer sentimento que aproxime as pessoas e não as afaste. Digo isto porque tão logo terminei meu tratamento, e mesmo durante todo o tratamento, eu constatei um fato: EU FAÇO PARTE DE UM GRUPO SEGREGADO. De algum modo, eu sei como se sente um preto que vive no Brasil e sofre discriminação; um casal homoafetivo; uma minoria seja ela de que grupo for, que não é respeitada, E QUE PRECISA SER. Começo este texto citando uma foto, isso mesmo, uma foto despretensiosa de família em que eu estava presente, há dois dias antes de eu começar a escrever esse texto e foi, por acaso, por afeto ou sei lá por que causa, posta num grupo de relacionamento virtual familiar. Passado algum tempo da postagem, minha irmã me chamou à atenção para um comentário de uma pessoa que participava do referido grupo: “... Oh, que maravilha... Que bom que esta foto se repete...”, numa referência a outras fotos das irmãs em que eu me encontrava... Um comentário afetuoso? Cristão? (In)adequado? Qual o simbolismo deste comentário? Para mim, que sou a razão do comentário na foto, tal fala é o retrato de como há ainda caminhos longos a serem percorridos por nós que tivemos, temos (ou teremos???) um câncer. Talvez o mais importante deles: Conviver com e enfrentar a certeza de muitos de que você morrerá dali a muito pouco tempo e de que é um milagre você ainda estar aqui. Tendo ou não tendo metástase; Tendo ou não um muito bom prognóstico, como foi o meu caso. Sim, mesmo com um excelente prognóstico, muitas pessoas não acreditam mais em você depois de um câncer; Elas não confiam em você. Tomadas por imaginários de histórias, muitas vezes verídicas e legítimas de familiares ou vizinhos ou de populações com algum tipo de câncer, elas lhe olham com os mil olhares advindos do preconceito... Fazem, é evidente, um esforço para não transparecer isso, mas sim, elas lhe olham por vezes como se fosse a última vez que a vissem. Elas se despedem de você, de algum modo... E você percebe isso claramente se tiver um olhar só mais um pouco atento... Porque na verdade elas sofrem, se incomodam... Mas não com você. Tenha certeza; mas com o sofrimento ou incômodo delas. Com efeito, lembro muito bem de um evento bizarro logo depois do tratamento. Eu ainda estava com os cabelos nascendo; estava numa loja em um shopping de Recife e encontrei uma conhecida (graças a Deus, só uma conhecida!) que me olhou como se eu fosse um fantasma e daí, não tendo o que dizer, ou não sabendo o que dizer, ela passou a dizer clichês do tipo: “nossa, mas você está ótima”... “Como assim?” pensei eu, “era pra estar numa UTI ou a sete palmos do chão”? Deve ter sido por isso a surpresa dela. Ela disse ainda outras coisas que naquele momento me pareceram asneiras. Mas eu percebi um fato estranho: ela queria ir embora, o corpo dela começou a falar, ela se esquivava de mim, ela estava em desespero, ela não queria aquilo, aquele encontro, aquela abordagem e enfrentamento, afinal poderia ser ela...Sim, o câncer de mama tem acometido mulheres muito jovens, e jovens mães, como era ela...Pois bem, o fato bizarro é que eu fui um tanto maquiavélica; quando notei que ela estava se afastando fisicamente, embora as palavras estivessem ali, comecei então a contar pra ela os piores momentos do tratamento, os corredores mais escuros por onde passei, o quanto fui forte, maravilhosa e linda e superei aquilo tudo. Fiz por absoluta vontade esta crueldadezinha que a deixou com aquela cara inesquecível de pastel de quinta qualidade, amarelada, murcha...e tomada de medo... E eu vi que ela se despediu de mim... Eu senti isso... E eu me despedi dela, que não faz mais parte de minhas agendas e contatos. Em verdade, nunca deveria ter feito. Saudações! Sim, você sente isso, e muito. Eu sinto. Com efeito, a despeito de estar cercada de um aparato grande de apoio profissional vinculado ao tratamento e pós tratamento de câncer, inclusive e sobretudo do acompanhamento psicanalítico, ainda assim, é evidente que estar há tão pouco tempo desse evento que me marcou de forma indelével para toda a existência, coloca-me em diálogos frequentes com a população de fantasmas que nos habitam depois de um câncer. Já ouvi de muitas pessoas que elas lidam muito bem com estes fantasmas... Bom pra elas, eu trabalho para exorcizá-los e não para conviver bem com eles. Mas é um caminho difícil, porém acho que chegamos lá. De toda forma, cara leitora ou caro leitor, muita parcimônia quando for visitar ou quando for conversar com uma pessoa que teve ou tem câncer... Muito cuidado! Pense para falar...E se não é de seu habitual pensar antes de falar, cale-se, abrace, sorria... Ou simplesmente silencie...É elegante e respeitoso. Ou simplesmente, nem vá perto desta pessoa. Em todo aspecto, aos desavisados e sem noção de plantão, a pessoa que teve ou tem câncer não lhe pertence... Não se aproprie desta pessoa durante o tratamento ou pós tratamento. Não diga o que ela deve ser, comer ou beber pra se curar; ou como agir para não ter câncer, a menos que você tenha propriedade técnica para tal... Tenho uma amiga maravilhosa arretada que me dá dicas preciosas, e fundamentadas...Então ela pode. Porque sabe o que fala. De outro modo, porém, a tentativa de ajuda sem conhecimento de causa pode prejudicar o paciente fisicamente... E até culpabilizá-lo(la) de algum modo por ter tido tal doença. Ora, se você é ansiosa e os “amigos” chegam para você e dizem “ olha, não se estresse, não...é bom pra você, estrese é cancerígeno”...”não coma mais isso...é cancerígeno”... Você já parou pra pensar que isso pode ser um tanto cruel? Eu, já. E mais um conselho, não chame uma mulher que teve câncer de mama de guerreira... Pelo menos a mim, não chame. E se um dia a doença voltar e ela esmaecer e morrer? Você pensará ou dirá: “..Tadinha, perdeu a batalha..”? Deixou de ser guerreira? Ou lutou, lutou e morreu na praia? Você já pensou sob esse ponto de vista? Eu já. Eu não sei do que quero ser chamada...porque como você, que me lê e não teve um câncer, eu só quero seguir minha vida em paz. Eu quase sempre não absorvo os comentários dos desavisados e sem noção...! Mas quero e preciso pensar e cuidar das outras muitas mulheres que sentem tudo isso e não podem verbalizar essas impressões... Este relato é por elas e para elas. Sigamos com respeito...e nos olhando no espelho... Afinal, o buraco está logo ali abaixo.


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