sem lenço com documento

Mulher pensando inquieta...Feito flor de Algoroba...Perigo no ar...Cuidado!

Marcília Nóbrega

Urge olhar o outro como que para o espelho.

O outro me carrega. Por isso, corro tanto e não quero o outro.

Urge voltar...Para o outro. Para mim.

O Tempo, O Medo e as Cores de um Outubro Real para Muitas Mulheres

O diagnóstico de câncer de mama pode sinalizar mudança de identidade na vida de uma mulher. Concomitantemente, há questões práticas e urgentes que não dependem dela e que podem significar sofrimento, considerando sua vulnerabilidade, função dos estigmas associados ao câncer e seu tratamento. O sistema de saúde Brasileiro, quanto à prevenção e combate ao câncer de mama, não está conformado sob a ótica da mulher, trazendo cicatrizes profundas para esta.


Receber o diagnóstico de um câncer de mama pode implicar uma mudança de identidade para toda a vida de uma mulher. Sim, e esse fato por si só já bastaria para delimitar a infinita repercussão de sermos registradas pelo CID* C.50, considerando-se os inúmeros estigmas associados a esta doença e ao seu tratamento. Entretanto, perante o olhar infantilizado e quase insano da mulher recentemente diagnosticada com câncer de mama pairam questões práticas e urgentes; que não dependem quase nunca desta mulher para serem sanadas e que, não obstante, são determinantes para a qualidade do tratamento, da vida ou sobrevida desta mulher, a depender de seu prognóstico. A estas questões some-se ainda fator si ne qua non para o final feliz ou não deste drama: O TEMPO, os tempos da Saúde, os tempos institucionais, nem sempre harmonizados com os tempos desta mulher-menina tão fragilizada, tão vulnerável e carecendo de ser cuidada, em todo o aspecto. No Brasil, as políticas de saúde para enfrentamento ao câncer de mama, notadamente quanto ao diagnóstico precoce, evoluíram consideravelmente nos últimos anos. Contudo, os entraves burocráticos inerentes aos sistemas de gestão Pública, e mesmo Privada da saúde, não conseguiram avançar a ponto de tornar o que se pode chamar de Protocolo para Erradicação e Controle de um Câncer de Mama, mais eficaz. Com efeito, pode-se ter um nódulo suspeito descoberto num mesmo dia por mamografia e ultrassonografia previamente marcados por agenda preventiva, proceder-se com exame de anatomia patológica laboratorial a partir de biópsia de punção também por ultrassonografia, além de procedimento cirúrgico de mastectomia de quadrante ou mesmo total, toda esta conduta em quarenta dias. A princípio, pode parecer um espaço de tempo razoável e relativamente seguro. Mas para quem? Para quem espera e passa por este tempo pode ser, e é, razoavelmente infinito e desesperador. Como foi comigo, a despeito de ser paciente de convênio privado de saúde. Mais vulnerável pode ser ainda a vida de uma mulher que espera cem dias em média pelo resultado da biópsia de anatomia patológica de um nódulo suspeito de câncer de mama; só da biópsia. E depois? E quando será a cirurgia, se for maligno o nódulo? Sim, porque quase sempre sabemos quando já é. O olhar reticente, porém pouco comprometedor da médica ultrassonografista já o inferira, e nos ferira; a conduta certeira do mastologista em pedir para biopsiar, já estreitara o alvo da procura ao tempo que alargara o caminho tão escuro dos medos que ainda começavam, os daquela etapa. Surge ainda uma pergunta dolorosa e aterrorizante em meio a este cotidiano por vezes acinzentado de providências: quantos milímetros ou micrômetros o meu tumor crescerá até o próximo passo acontecer, dure este passo dez dias ou cem? Sim, porque ele crescerá. É uma certeza biológica, inexorável. Câncer de mama cresce, se reproduz... E não morre. E mata... Mata muitas mulheres. Matará ainda em 2016, quando ora escrevo e já matou, agora, enquanto você lê este texto. Assim, ainda pensando naquela mulher-menina que espera há pelo menos cem dias pelo resultado de sua biópsia, não caracterizar serviços assim como ENCOMENDAS URGENTES, SERVIÇOS ESSENCIAIS À VIDA ou termo similar, é pelo menos omisso, para não citar irregular, para não citar criminoso, a depender da esfera corporativa na qual se dê todo esse encaminhamento. Neste sentido, e sentimento, o equacionamento das muitas questões relativas a agendas mais eficazes para o diagnóstico mais precoce quanto possível do câncer de mama, além de uma intervenção eficaz de tratamento, sob a ótica da mulher acometida pela doença ou sua suspeita, torna-se não só salutar, mas essencial para embasar qualquer tomada de decisão, seja de quem pensa as políticas de prevenção à saúde da mulher em âmbito público e privado, seja de quem executa e gere esta política, seus recursos financeiros e humanos. Decerto, salvo um juízo técnico mais apurado, não estão retratadas nas estatísticas de agravamento e morbimortalidade dos casos de cânceres de mama os tempos aqui citados, os tempos não determinados, não contabilizados, porém determinantes para cada minuto não vivido por muitas mulheres, cada instante não gozado com suas famílias ouvindo suas músicas prediletas ou contando histórias para seus filhos; ou não sendo cidadã, respeitada em seu direito universal de ser cuidada como pessoa. Os tempos contabilizados são os que determinam a urgência para comprar a quantidade de mamógrafos e ou aparelhos de ultrassonografia. Sim, fazemos um outubro todo de Rosa. Afinal, na Indústria da Saúde, é a oferta que delimita a demanda, e não o contrário. Mas e quanto a depois do resultado do diagnóstico que não seja cor de rosa? Qual a cor da eficácia do tratamento ao qual esta mulher será submetida? Precisa também ser rosa. E será? E que cores terão as vidas dessas mulheres após um diagnóstico positivo para câncer de mama? A vastidão de olhares intimistas experimentados sobre o câncer de mama é um capítulo que não tem fim e um terreno delicado pra se adentrar. Silêncio! Cuidado! Para muitas mulheres, depois de um câncer a vida nem sempre poderá ser tão rosa assim... Para outras, é só o começo, pasmem. Para tantas outras, como a autora deste texto, a vida depois do câncer é uma linda, forte e provocadora Continuação, que nem precisa ser tão rosa assim. É suficiente que tenha o tom do respeito à minha vida, ao meu corpo e às minhas escolhas, como qualquer mulher de meu tempo. E sim, “...Viver é bom...”.


version 1/s/recortes// //Marcília Nóbrega