sem meio termo

porque a vida é muito curta pra ficar em cima do muro

Flávio Jonatan

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"Se não for do coração pra dentro, não diga da boca pra fora"
porque a vida é muito curta pra ficar em cima do muro...
Mineiro, 29 anos, servidor estadual e um sonhador nato. Amante de viagens, intenso, apreciador de cervejas, vinhos e cinéfilo de Tarantino à Burton. Um confesso apaixonado pelo universo feminino, que vê no amor a salvação do mundo. Se não acredita nele, pule essa página.

Saca La Muerte de Tu Vida: O disco do ano?

Em tempos onde a boa música brasileira anda muito bem escondida, ou quase extinta, surge um trabalho cheio de sentimento, amor, sofreguidão, esperança, melancolia gostosa (não aquela que mata) e paz. Saca La Muerte de Tu Vida veio pra ficar na estante e, por que não, ser eternizado em nossos ouvidos e corações como uma das melhores pérolas da última década.


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A primeira vez que flertei com Rodrigo da Fonseca Tavares, um gaúcho de Camaquã, que hoje adotou o codinome “Esteban”, foi através da música Tchau Radar, em parceria com Humberto Gessinger, em seu primeiro disco solo intitulado INSULAR (2013), depois de quase 30 anos de carreira entre os Engenheiros do Hawaii e o projeto Pouca Vogal, com Duca Leindecker (Cidadão Quem).

Esteban era guitarrista na turnê INSULAR, que Humberto levava para todo o Brasil. Percebi, facilmente, uma sensibilidade nata para compor e interpretar. Fuçando aqui e ali, descubro o disco ¡ADIÓS, ESTEBAN! (2012). Na época, Esteban tinha ganhado um “não” de uma garota de 18 anos chamada Sophia. Essa resposta rendeu inspiração suficiente para uma nova música e álbum. Esteban compõe Sophia que, rapidamente, se espalha pelas redes sociais e afins. O resultado do momento em que o artista passava foi um disco tarja preta feito para quem perdeu um grande amor e procurava se acalentar no que quer que fosse, mas que ainda assim soava como uma bela tarde de domingo no parque.

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Se muita gente já não soubesse, eu diria ser impossível sequer imaginar que este agraciado músico e compositor saiu da banda teen Fresno. Todo mundo tem um lado ruim na vida, e como o próprio Esteban já disse, esta foi a pior fase da sua, pois era constantemente castrado em suas ideias como músico.

De lá pra cá, Esteban amadureceu, sofreu e reviveu. Se aventurou em trabalhos independentes sem pretensão alguma, a não ser aperfeiçoar-se como músico e ser humano. Autor confesso de músicas tristes temperadas com uma leve depressão em relação a relacionamentos, o músico tirou esse ano a sua melhor carta da manga até então. Saca La Muerte de Tu Vida (SLMDTV-2015) foi consolidado através de crowd funding, um formato onde os fãs patrocinam o projeto de seu artista através de doações com valores variados e em troca recebem recompensas que vão desde cd’s autografados ou até mesmo um encontro com o seu ídolo. Esteban, que já possuía um público fiel, arrecadou mais de 80 mil reais.

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O disco soa triste como uma sinfonia fúnebre, mas controversamente cheio de vida. A morte aqui é meramente figurativa. Ela é interpretada pelo incerto, batalhas internas e rompimento de relações. O suspiro final passeia pela alegria e tristeza. Ateu que é, Esteban acredita em um blackout no fechar da cortina da vida e diz em forma de música os tipos de morte que o rodeiam. As letras parecem escritas de dentro de um navio que navega sem rumo certo o mar da vida, precisamente no porão da embarcação, onde o autor se encontra longe de tudo e de todos, esperando o encontro com algo que só ele sabe o que é, mas imaginamos claramente que não pode ser com outra coisa senão o amor. Apesar de mostrar-se quase a todo momento um ser solitário, Esteban não faz questão alguma em esconder o que sente, deixando ao coletivo tudo que o seu coração absorve e em seguida externa. É como se ele nos desse, assim como em ¡ADIÓS, ESTEBAN!, um diário contando todas as suas mazelas sentimentais sem medo algum de que alguém vasculhe o lado mais sensível de teu ser. Um disco feito com tempo, amor e dedicação.

Tavares produz e toca todos os instrumentos. As participações especiais contam com sua atual namorada , a apresentadora Titi Muller, que tem sua voz encrustada em uma fala em meio a primeira faixa de SLMDTV chamada “Janeiro”. Nessa canção ele entona “apaga do teu coração as marcas de um tempo atrás e saiba que eu não sei viver o estrago que o tempo faz”, remetendo assim, talvez, a uma ferida já cicatrizada (talvez Sophia) mas que não deixa de ser parte do seu eu completo e introspectivo. Logo depois toca a já conhecida PRA SER, seguida da carta de lamentações de quem assume o medo de ficar sozinho CHACARERA DA SAUDADE. Em CIGARROS E CAPITAIS, a que soa jovem no disco, revela o já conhecido amor de Esteban pelo tabaco, além de mostrar que pra quem ama, não há obstáculo que vença a vontade de dois seres de estarem juntos. A cantora Tay Galega adoça ainda mais a perfeita Tango Novo. Esteban não tenta ao mínimo esconder seu sentimento pela cultura dos nossos hermanos argentinos. O acordeon é tocado como se estivesse em leves passos de tango. A música MARTES, sétima faixa do disco, é destilada em espanhol e soa ótima. A conflitiva O QUE NÃO VEM é o tapa na cara de quem ainda não acordou pra vida e vida de torcicolo olhando o passado sem viver o presente, enquanto CARTA AOS DESINTERESSADOS dá outro tapa em quem adora viver a vida alheia.

As canções de SLMDTV, literalmente nos dão o recado de que algo ruim está passando e o melhor é tirar tudo de negativo da tua vida, que seria essa morte lenta que vez ou outra encaramos por algo que não vale apena sofrer e ainda nos brinda com o que há de melhor em um disco. Acordes que atravessam a alma e te provocam um arrepio enquanto você dirige cotidianamente pela vida afora. Melodias recheadas de arranjos trabalhados com a alma de quem sabe o caminho tortuoso e outras vezes libertador do amor. SLMDTV passa uma mensagem clara e objetiva: SIGA!

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Longe dos padrões impostos pela mídia atual de um hit só, Esteban se sente a vontade em dividir conosco um trabalho que pode sim ser tão bom quanto os que achávamos absolutos. Não é defeito ser fã de Chico Buarque ou Caetano, mas achar que só eles podem fazer discos eternos e inesquecíveis é um tanto quanto egoísta por parte de alguém.

Se Esteban veio pra ficar, não sabemos. SLMDTV é o disco do ano? Tampouco posso afirmar. O fato é que ele já provou, mesmo que a intenção não seja essa, que é um artista completo, podendo se firmar entre os grandes nomes de nossa música, saindo do óbvio e de grupos com aquela velha opinião formada sobre tudo onde ninguém mais pode entrar.


Flávio Jonatan

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