sem minutas

Prazeres e devaneios transcritos em palavras.

Luádia Mabel

"Estômago" e as nossas vertigens

“Estômago” é um filme brasileiro, dirigido por Marcos Jorge e que tem como principal personagem Raimundo Nonato, feito de mistérios, de muitas ânsias, mas também de muitos toques cuidadosos, manejados pelas mãos de quem possui o dom da culinária, e com faces que nem todo mundo consegue enxergar. Interpretado pelo ator João Miguel, o personagem nos leva a revelações surpreendentes, e à descoberta de um pouco de nós mesmos dentro do seu próprio olhar.


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Eram 22h12min, a noite já quase beirava a madrugada e o ônibus que trazia Raimundo Nonato chegou à rodoviária de seu destino. “Raimundo Nonato, nome de santo, e que se põe na criança quando o parto dela é desses “dificulitosos””.

Chegou, mas não sabia bem aonde. Mas há algo em Raimundo de que ninguém discorda, e é a coragem. Sozinho, e em uma cidade que provavelmente conhecia muito pouco, ele saiu sem rumo, e acabou caçando algum lugar que o coubesse. E até achou. Mas de Nonato não se sabe muito além do que se vê, não se pode afirmar ou negar qualquer hipótese porque ele mesmo não nos diz nada, e pra quem vê, cada um enxerga uma coisa.

O filme foi dirigido por Marcos Jorge e se divide entre duas faces e interpretações de um mesmo personagem, e dependendo de quem olha, talvez até mais do que isso. Os devaneios do homem que Nonato mostrava ser antes e também depois de ter cometido o crime hediondo que o levou à cadeia são separados por minutos entrecortados e que narram, aos poucos, a história de um homem simples, de uma inteligência curiosa e um jeitão com muita timidez. Podemos acompanhar, numa comparação simultânea e envolvente, parte por parte dessa etapa da vida do personagem principal, focando o rosto do talentoso ator João Miguel e sua forma particular de atuação. É um filme brasileiro, sem muitos enfeites mirabolantes ou cenários magníficos. Simples, e “na mosca”. Uma densa mistura de poesia encarnada no cotidiano de um homem misterioso, e que muitas vezes nos diverte com sua forma de expor o próprio conhecimento, e adquirir o que ainda não tem. “Estômago” trata de ânsias de espírito, enjoos causados por qualquer dessas coisas carnais, e mesmo as invisíveis, do coração, e que doem exageradamente.

O fato de não ter pra onde ir, e a obrigação por pagar uma dívida quase insignificante quando não tem dinheiro nenhum é que traça os primeiros caminhos e descobertas de Raimundo Nonato, tudo isso em torno de uma feliz e conveniente coincidência: seu dom em culinária. E coxinhas. Acredite ou não, é esse o primeiro passo do homem para chegar aos mais refinados pratos da culinária francesa. Coxinhas. Passo esse que serviu para conhecer a sua nova paixão – uma prostituta que está sempre com fome – e Geovane, o dono de um restaurante refinado do bairro, o “Ristorante Boccaccio”, que, mais tarde, ao reconhecer o talento do homem com as massas, temperos e sabores da cozinha, propõe-se a lhe ensinar todo o seu conhecimento acerca do assunto, e assim ajuda-lo a tornar-se um mestre da cozinha.

Toca a música calma, e que por vezes imita um assovio sereno, de plenitude, que nos enche o corpo inteiro: Nonato está cozinhando. Na melodia transcrevem-se toques e temperos de mãos que vieram da roça, mas entre as panelas e receitas transformam-se em delicadas e cuidadosas mãos de artista, moldando uma quase obra prima. E é. Uma verdadeira tela de diferentes cores e aspectos, pintada pelos dedos do personagem.

“– Cozinhar é uma arte, Nonato. E aqui é o nosso ateliê, a cozinha. E os temperos e os ingredientes são as nossas tintas. [...]"

– Seu Geovane, deixe eu lhe perguntar um negócio. “Nóis” coloca a tinta é um tico antes de colocar o prato na mesa, né?”

Entre muitos modos, muitos jeitos, e muitas caras pra ver Nonato, prevalece o seu aspecto frágil, de quem se preocupa sempre em agradar e realiza-se com isso, de riso fácil. Às vezes, quando se olha, o que sobressai, e mais se enxerga é a ingenuidade. O que se enxerga é que ele é um homem de duas paixões, e as duas – a prostituta e a culinária –, além de ligadas uma a outra são motivos de alvoroço, e também de uma razão fria manejada pelo homem. Na verdade, é um filme de que pouco se entende, e no mais só se sente, como acontece com nossas próprias vidas, e como muitos de nós costumamos fazer.

Emoção e razão chocam-se constantemente, e qual delas prevalece? Pra você, qual delas teria arrastado Nonato, e qual delas seria justificativa ao que foi cometido? E o que o teria levado à prisão?

Acompanhar a narrativa desse cozinheiro é quase traçar um caminho ao nosso próprio interior. Uma viagem ao íntimo que somos, comparado a duas outras coisas tão encarnadas ao nosso cotidiano que passam quase despercebidas: o que fazemos, e como realmente desejávamos ser.

Conhecer Raimundo é descobrir a nós mesmos: seres confusos, e por vezes com aparência inerte, escondendo uma fúria imensa que no final nos traduz de verdade. Construímos fachadas, papéis de qualquer coisa parecida com nós, aceita pelos nossos padrões e os padrões dos outros, e as utilizamos todos os dias. Todos os dias, ao acordar, visto-me do que sou, ou acho que sou. Todos os dias, lembro-me do meu papel, e o que ele representa pra mim, e para os outros, e ignoro todos os meus impulsos mais sórdidos e vulgares, que não se encaixam ou fazem parte da representação diária e infinita à qual me submeto quase sem perceber, ou pestanejar.

E é por isso que ficamos tão surpresos com a revelação do verdadeiro Nonato: de uma forma ou de outra, e no fundo de cada um de nós, revira-se em jejum o nosso lado mais primitivo, mais escondido e disfarçado: a completa loucura.


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