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Prazeres e devaneios transcritos em palavras.

Luádia Mabel

A beleza de Joicy pelos caminhos da Garota Dinamarquesa

Aconteceu de uma cirurgia separar Joicy do que a dizem ser, e do que realmente é. Mas e esse realmente, o que é? É homem, mulher, ou a nossa vontade de definir e encaixar pra tentar engolir com mais facilidade, colocando em um padrão com que estamos acostumados a lidar?


JoicyImagem retirada do site: http://www2.uol.com.br/JC/especial/joicy/

A beleza de Joicy está na calvície que indica os seus até então 51 anos, e no fato de dificilmente ver a possibilidade de ser encontrada entre livros de poesia. Está em não se ver nos outdoors, nas novelas, nas matérias e mesmo nas ruas com muita sensatez. A beleza reside em não ter alicerce que a sustente, e ainda assim ser o que é. Ela fez questão de alertar: “Não tenho medo de nada. É o trem passando e eu me jogando”. Retratada pela delicadeza da jornalista Fabiana Moraes em uma série de reportagens publicadas entre os dias 10,11 e 12 de abril de 2011 no Jornal do Commercio em Recife-PE, ela ganhou voz.

A mulher, colocada de lado não só pela família, mas também por desconhecidos que partem de um pressuposto a respeito do que ela é e não é, constrói os próprios caminhos em uma trilha totalmente desconhecida por si. E está sempre corrigindo: o modo que a olham, que a tratam, e que a chamam. “É Joicy, mulher...”, ela já repetiu dezenas de vezes, várias durante um só dia. “É Joicy...

Aconteceu de uma cirurgia separar Joicy do que a dizem ser, e do que realmente é. Mas e esse realmente, o que é? É homem, mulher, ou a nossa vontade de definir e encaixar pra tentar engolir com mais facilidade, colocando em um padrão com que estamos acostumados a lidar?

tela_abertura.jpgImagem retirada do site: http://www2.uol.com.br/JC/especial/joicy

Joicy não usa vestido, não tem o cabelo grande e dificilmente a veem com maquiagem e salto alto. É diferente de Lili Elbe, a segunda personagem da vida real que vou citar, primeira pessoa a se submeter a uma cirurgia de mudança de sexo, percursora de uma trilha seguinte composta por mulheres e homens em busca da liberdade frente ao próprio espelho, e com o próprio corpo. Lili teve sua história contada em um filme dirigido por Tom Hooper, e, interpretada por Eddie Redmayne, tem o que costumamos chamar de feminilidade. Essa, nos padrões que colocamos, consiste em comportamentos, trejeitos e modos de pensar que caracterizam, em nossa sociedade, uma mulher.

Está marcada por uma coragem absurda, do tamanho de sua vontade de ser o que sentia que era. Lili, a dinamarquesa, apesar de ter morrido em 1931, em uma de suas cirurgias na busca pela representação do gênero com que se identificava, é uma das principais responsáveis pela conquista de Joicy, a nordestina criada na roça, em um vilarejo em que todo mundo sabe, e dá opinião sobre tudo.

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Além disso, o que une Lili e Joicy são as tentativas constantes de burlar os preconceitos, os olhares transbordantes de julgamentos, e os comentários cheios de maldade. O que as une é a difícil missão de lidar conosco: a sociedade que acredita deter as verdades e padrões absolutos.

Precisamos nos debruçar para desconstruir a imagem estereotipada da nossa personagem da realidade. Aliás, como ouvi um dia, “desconstruir não, reconstruir!”. E não reconstruir a de Joicy, mas os valores e tabus colocados a você. É hora de moldar novamente a nossa fôrma de seres humanos, e abrir a nossa caixinha de ideais, que teimamos em defender e tentar tornar intocáveis. Eu escrevo sobre Joicy porque ela é gente comum, como eu e você, e porque ainda assim há quem teime em dizer que ela é diferente. Diferente em quê? E alguém me responde, baixinho como fosse um pecado terrível pronunciar: “ela é trans”. Mas, ora, isso eu logo vi, e alguém não entende a diferença que faz? Transcendente, é o que quiseram me dizer. Está além das suas definições e tentativas de conclusão. Além do seu gosto e do seu preconceito. Além da sua dificuldade em usar a sensatez e sensibilidade para entender. Eu vejo Joicy além dos rótulos que a impuseram desde que, aos 51 anos, assim como Lili, ela teimou em nascer.


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