sem vogais

às vezes, um recorte é apenas um sussurro que não soa muito bem

Lolô Sganzerla

Por um punhado de pixels

Um olhar sobre a agência de Bresson e Chim, que tenta contemplar o que a motivou e como, ainda hoje, esse mesmo elemento motivador faz com que ela se transforme, com que ela invente um jeito de trabalhar, sem perder a sua essência mas se mantendo viva, relevante e importante. Até o hoje, o formato da cooperativa é pensado, usado e reinventado, mais recentemente como colaborativos ou coletivos, como um jeito de fotógrafos e artistas encontrarem mercado para o seu trabalho sem comprometer a visão, único e singular, que identifica o seu trabalho.


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Se tem uma coisa que podemos aprender com a agência Magnum, acho que é como inventar formatos e soluções para o próprio trabalho, sem perder a identidade nem a relevância. A primeira cooperativa de fotógrafos de que temos notícia nasceu no século 20 e ainda perdura. Penso que podemos considerá-la um dos primeiros “coletivo" de artistas, não?

Porque eles não apenas foram gênios demais lá trás, mas continuam sendo quando conseguem, miraculosamente, manter-se relevantes quando tudo se transforma rápido demais, quando tudo é líquido demais e nada é feito para durar. Sem perder a sua essência, a Magnum traz um insight para todos nós: como não ser ultrapassado pelo próprio passar do tempo. Como não se perder no passado ou se fixar em um formato, enrijecendo? Ao mesmo tempo, como absorver o novo sem comprometer as suas características mais marcantes e fundamentais. Ou seja, como mudar, sem mudar demais, sem se perder?

A Magnum Photo Inc., que surgiu em 1947, era representada por ninguém menos que os fotógrafos Robert Capa, David “Chim” Seymour, Henri Cartier-Bresson, George Rodger e William Vandivert. Todos eles entendiam de um jeito ao menos parecido o que era ~ser fotógrafo~. E, por isso, se uniram para dar corpo a um trabalho próprio que pudesse encontrar, ao mesmo tempo, um lugar ao sol no mercado, que se estrangulava pela demanda da pauta, do registro e pelo seu uso na propaganda.

E esse movimento se popularizou nos anos 70/80 e se profissionalizou, transformando as cooperativas em agências de fotografia, como a F4 - no Brasil-, criada em São Paulo por Juca Martins, Nair Benedicto e Ricardo Malta - e outras tantas espalhadas pelo mundo, como as francesas Gamma e Viva, movimentando um número grande de fotógrafos, cerda de 2000 só na Gamma, e um volume gigantesco de imagens.

Nos anos 2000, a noção de "cooperativa" ganha um novo formato colaborativo, que conhecemos hoje como “coletivo" - quando vários artistas se reúnem para viabilizar juntos o trabalho de todos – e traz um novo fôlego a união de talentos criativos em busca do seu espaço.

Mas só dizer que os colaborativos existem há quase 70 anos ainda não significa muito. O que é de fato interessante reside no que está por trás do movimento criativo de artistas, que ao se unirem, encontram saídas, lugares e espaços para o próprio trabalho, principalmente em momentos em que o mercado se estrangula. Claro que, com ele, se estrangula a possibilidade criativa da obra - não enquanto obra, mas enquanto objeto de consumo e contemplação. Esse não conformismo e, por que não dizer?, essa lealdade ao próprio trabalho, tem trazido resultados criativos e interessantes até hoje.

A própria Magnun Inc. aviva algumas dessas discussões, que não morrem porque continuam interessantes: mercado x trabalho de autor. Essa é uma conversa que nunca vai morrer, apesar de encontrar períodos de maior ou menor densidade, mas nunca se dissipa. E, quando o assunto é fotojornalismo, ela traça uma linha fina ao transitar entre o relato e a interpretação. O fato e a interpretação se misturam no olhar do fotógrafo, que encontra um lugar entre a poesia e o contexto. É nesse momento que o fotógrafo, como veículo e agente dessa representação, pratica no olhar um ato, o clique, que muito além da ação mecânica e suas consequências, congela numa imagem o tempo presente e o revela como um instante. Nesse caso, ele pode até ter uma pauta, mas não se rende ao relato e se deixa levar pelo que chama a atenção, como “meio de compreender” o em torno, o aqui e o agora. Era assim que entendia Bresson e é ainda hoje esse o espírito que determina a mais importante agência de fotografia contemporânea. E é esse o espírito que invade a formação dos coletivos por volta dos anos 2000. E foi também assim que o trabalho de Bresson e Capa encontraram o seu lugar, entre o trabalho autoral e jornalístico, eles conseguiram imprimir ao registro um olhar particular, - e que, sim, ajuda a entender um tempo de forma direta ao mesmo tempo que poética. Também é assim que, hoje, fotógrafos encontram um novo lugar para o seu trabalho - e o ofício da fotografia, hoje, ainda acrescenta ao registro simples, a propaganda e a moda. O Coletivo Garapa, a Cia de Foto, o Fluxo, enfim, são muitos movimentos que tentam encontrar um formato para acomodar o próprio olhar ao mundo - e não o contrário -, encontrar o próprio espaço e navegar entre o formato - datado ou não -, o mercado e a obra.

Sem se render à tirania do briefing - mas sem fugir de um tema.

E como a Magnum se mantém relevante em meio a isso? Não apenas agenciando fotógrafos, novos ou consagrados, mas patrocinando e incentivando projetos. Projetos tão geniais e interessantes que mantém importante o mais importante e pioneiro coletivo de fotógrafos.

A Magnum se reinventa reunindo artistas para projetos específicos como o offsidebrasil.tumblr.com, que foi alimentado diariamente por fotógrafos ao longo do mundial de futebol. As muitas nuances que navegam entre o fato e o ato, o clique e o contexto, vão muito além da versão oficial da imprensa, questionam o belo e o feio mas não se descolam do mundo. O trabalho não se aparta da realidade, mas vai além dela enquanto registro. Aqui o clique é uma narrativa capaz de imprimir a única coisa que temos e com o que podemos contar: a nossa existência, circunscrita a um momento do tempo, único, e que transcende o ato vulgar da sua simples presença física, mas encontra sonhos, medos, passados e futuros num único instante.

Por isso que, hoje, a Magnum Photo Inc deixa como legado mais do que a arte ou a narrativa como ficção, mas um formato, um valor, um princípio capaz de se reinventar sem abandonar o que a motivou por princípio: a transcrição quase direta do elemento vivo capaz de ir muito além de ima impressão luminosa em um papel de prata - ou um valor quantificável de pixels.


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