sem vogais

às vezes, um recorte é apenas um sussurro que não soa muito bem

Lolô Sganzerla

pudor (ou o som de cada um)

juliana me perguntou o que é o amor. não senti tanta metafísica dentro de mim para poder responder. então juliana me pediu uma carta de amor, eu escrevi sobre um amor, que não é o da juliana, mas também é para ela.


(o amor, para Juliana)

deep

Meu amor, quando você me encontrar, não se afobe. Olha bem pra mim. Repara em tudo, no meu corpo, na minha falta de jeito. Antes de me dizer qualquer palavra, pega uma régua. Um esquadro e um compasso. Põe na balança. Porque, meu amor, a palavra é concreta. Ela tem a consistência de tudo o que você já viveu. E pode ser pesada demais para que a gente desperdice nosso silêncio em sons que se esparramam, sem significado.

Por isso, meu amor, quando me encontrar, mergulha no meu olho. Respira. Lembra do meu toque, do cheiro, do meu cabelo se derramando no seu rosto. Não pensa no meu perfume, mas sente o cheiro que ficava na sua pele, no seu travesseiro, na sua roupa. Que só você conhece. Que é meu e é seu. A memória, você sabe, ela habita o mundo dos sentidos. Às vezes despertam momentos que ficaram adormecidos na fantasia, aqueles que a gente só quis, mas não viveu. E, assim como as palavras, a memória também é concreta. Concreta demais para que a gente desperdice nosso silêncio em sensações que se esparramam, sem significado.

Ann Veronica Janssens

Por isso, meu amor, quando me encontrar, espera. Observa e me aprende. Aprenda o meu idioma, o meu léxico. Calma. Não desperdice o seu, enquanto eu decoro de novo o que gostaria de dizer, mas já esqueci. Não sei a língua que você fala. Por isso, vou esperar que a gente descubra um dialeto nosso. A gramática, ela é rígida demais para que a gente desperdice nosso silêncio em sons que se esparramam, sem significado.

Por isso, meu amor, quando me encontrar escuta a minha respiração. Aprende meu ritmo. Ouve a minha música pra que a gente invente uma melodia com intervalos que só a gente entende. Um vocabulário secreto, que só a gente canta baixinho, na duração do tempo certo, para preservar as letras do vazio que nos habita na hora de traduzir sons que se esparramam, sem significado.

Por isso, meu amor, quando me encontrar se preserve no meu desejo para que a gente não se perca um no outro na ânsia do gozo. Aprende meu corpo. Estuda meus movimentos. Conheça o ritmo do meu prazer. O prazer também é um idioma, com uma métrica própria, que a gente vai ter que inventar, e não quero desperdiçar meus gemidos em sons que se esparramam em você, sem significado.

Hengki Koentjoro

Por isso, meu amor, quando me encontrar, me encara de frente. Vem com a lógica profunda dos lagos. Para eu poder descobrir a vida que você esconde, impassível, quase impenetrável, a uma respiração de distância. Quando me encontrar, não tenha medo. Eu não vou ter a imprudência de rastrear todos os seus relevos. Eu prezo pela discrição. Não quero fisgar os seus peixes mais medonhos. Nem trazê-los pra superfície. Não tenho fôlego para desperdiçar em profundidades que podem se esparramar em mim, sem significado.

Por isso, meu amor, quando me encontrar, não me assuste. Vem com calma. Mostra que você também tem medo. Porque eu sou como aquelas cavernas profundas, que exigem paciência. Mas lá no fim há um lago e um raio de sol, que ninguém espera. É pra você. Mas eu preciso da sua demora para você acostumar o olho e reconhecer a beleza das minhas estalactites.

Então, meu amor, quando me encontrar, não nos assuste. Seja generoso. Porque não quero desperdiçar os meus morcegos em aventureiros, ruidosos, que querem se esparramar em mim, sem significado.


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