sem vogais

às vezes, um recorte é apenas um sussurro que não soa muito bem

Lolô Sganzerla

Futuro do Pretérito


Matthieu Bourel Ek Dojo

Cada história que eu não vivi me habita. Elas são muitas e acontecem dentro de mim, repetidamente, sem fim. Elas são a trama que enreda a minha alma. Histórias ciganas, nômades, eu nunca sei como terminam ou para onde vão me levar. Mas, ainda assim, são as minhas histórias.

Elas me pertencem mais do que as histórias que aconteceram. Essas, que existiram, se realizaram e passaram. Elas se esgotaram em suas possibilidades. Mas não as histórias que eu não vivi. Essas, ahhhh... essas são eternas. Elas nunca se esgotam. No máximo, se escondem.

Cada história que eu não vivi me deixou uma marca que me acompanha, sempre. Elas vêm comigo para o próximo amor, para a próxima aventura, para o próximo trabalho. Aí eu aprendi a viver essas histórias refletidas em outras. Gosto de acreditar que, desse jeito, elas se realizam e me abandonam, que assim eu consigo dizer o não dito, sentir o não sentido, esquecer o não vivido. Sou capaz de amar o amor que abortou a cada próximo beijo, de reinventar o prazer de sentir a cada nova paixão. Faço melhor, sabe? Um novo corpo para aproveitar o gozo.

Por isso cada história que não vivi me leva para a próxima, para a dúvida, para a seguinte. O que eu não vivi me impulsiona.

Yenifer Cano

O perigo é que, às vezes, me pego querendo viver o que não aconteceu. Imagino. Imagino com tanta força que acho que você também sente. Que me responde, que me vive na minha imaginação e assim a gente realiza a história que não pode, à distância. Em separado. Por telepatia e que acontecem só na minha cabeça.

É tão concreta a vontade de viver coisas impossíveis que eu chego a falar alto, sozinha em casa, pra dar um corpo pra isso que não sai de mim. É o meu jeito de exorcizar você de mim. De nomear as emoções que nunca se formam, que nunca se condensam e chovem, que eu nunca sei exatamente o que são. Aí elas são. Você também não tem emoções que não reconhece? Não?

Por isso eu preciso viver dentro de mim as coisas que me foram roubadas. Elas precisam se tornar concretas para que eu consiga me livrar da sombra de cada uma e soltá-las no mundo. É que a gente fica preso mais à hipótese do que aos erros: os meus, os dele, os nossos, os desencontros.

Entenda que o universo do “se” é um abismo infinito. Em espiral, com muitos afluentes. Fácil se perder nas trilhas do futuro do pretérito, nas paisagens que não vimos, mas poderíamos. O futuro do pretérito é a matéria com que eu construo paralelos intransponíveis. Eu inventei minha própria teoria das cordas, sozinha, do alto da minha cobertura no 10 andar.

Selbstest by Stefan Pfürtner

Você vai me julgar? Por eu insistir em viver o que não vivi? Ou prefere fazer assim, como qualquer um, e se afogar na frustração do foi? Quer se ver preso à trama impenetrável do não? É que o não destrava a armadilha nômade da alma: “e se”? Mas aí você finge que não vê. Ignora os fantasmas que flutuam no redemoinho da existência. Só que eles voltam, meu caro, para assombrar cada domingo à noite, cada bebedeira ou, assim, de repente, sem avisar, num trânsito engarrafado.

Não me confunda, meu amor, não. Não é a dúvida o problema. É a espiral da hipótese. Quem nunca se perdeu no que é imaginado?

Ela, meu caro, é um abismo. Não a mulher, mas a imaginação. E a vida, ahhh…, a vida é uma flecha. Ela tem muitos sentidos, mas uma única direção: pra frente. Ela não faz curvas. Já a nossa alma, faz.

Por isso eu exorcizo as histórias que não vivi como posso. Pra que elas não vivam por mim as outras vidas que ainda vão ser as minhas e tecer quem eu sou na trama dos seus fracassos. Esse é futuro do pretérito que eu inventei para ser livre: minha teoria das cordas pessoal e íntima. Minha catarse privada.

Sempre gostei do começo da bíblia. Sabe aquela história do “e deus disse: faça-se a luz. E a luz foi feita”? A palavra é concreta. É uma força criadora. Por isso eu vivo nela as coisas que não vivi no encontro.

É que eu sou arrogante e aprendi a nomear o inominável, o que ainda vai vir.

Aposto que você tá aí, me julgando, mas aposto que tem até uma certa inveja da minha natureza de cobra. Troco de casca a cada universo que eu invento. Saio renovada. Liberto o coração das farpas do que não foi. É que as emoções são como nômades, precisam seguir em frente, senão elas nascem fantasmas: se adensam para assombrar cada novo começo.

E quem é que quer morar com fantasmas ciganos?

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