sem vogais

às vezes, um recorte é apenas um sussurro que não soa muito bem

Lolô Sganzerla

Alfândega


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O amor é feito de distâncias. Eu sei, você já desconfia. Foi assim que você conheceu esse estranho, o amor. Não apenas o seu amor, mas o amor, em si, não como uma instituição, um ideal, um modelo ou uma fantasia. Mas o sentimento mesmo, inconcreto, intangível, imponderável. Não daqueles feito de angústias, ansiedades, mas construído com calma, conversa e diferença. Feito à distância.

Eu sei porque eu vi. Eu sei porque eu também tive que dizer adeus. Eu sei que um adeus desses acontece de um jeito longo, difícil. A distância nos espaça quando a saudade deixa as pessoas mais amarguradas, ressentidas, ao contrário do que se possa imaginar. Eu sei porque a saudade molda nossos humores e a falta não nos faz mais mais afáveis nem tolerantes. É tudo fruto do acúmulo das vontades, do não-dito, da ausência do tato, do silêncio da voz, do vazio da imagem, da falta do calor.

Mas não são essas as distâncias de que a gente precisa falar.

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Sejamos adultos. Nosso tempo é outro e já somos mais capazes de entender a natureza do encontro. Por isso devemos falar das distâncias, as únicas que interessam. Foda-se se dissemos adeus. Foda-se se você precisa ir até o outro lado do mundo para se encontrar - ou até ali no bar da esquina. Foda-se.

Mais uma vez, sejamos adultos. Afinal, ter um relacionamento saudável com o tempo é para as crianças. Nós não temos mais direito ao agora. Nós habitamos o espaço que acontece entre o antes e o depois. Precisamos lidar com o entre o tempo todo. Fico pensando se não é por isso que está reservado só às crianças a desvergonha sincera com as pequenas ausências, a livre expressão do desconforto e a dimensão completa do abando que é caber na própria pele - tudo isso, claro, acompanhado de grande espontaneidade vocal para anunciar cada retorno e cada partida, seja ela de 3 anos, 3 dias ou 3 minutos.

Infelizmente, assim como nós, ao fim e ao cabo elas também descobrem na própria pele o desconsolo do seu território único e nativo. Seria esse isolamento o motor da conquista de novos espaços? Você não vai discordar que cada um de nós expande o próprio domínio, vai? Em que isso nos transforma? Conquistadores destemidos ou apenas animais reativos, lotados dos instintos mais básicos, íntimos e primitivos? Ou você só nos acha folgados e egoístas, abusados ou preguiçosos, que tentam colonizar o outro com argumentos, ideias, opiniões e idiossincrasias, muitas vezes imprecisas, inconsistentes e quase totalmente autocentradas, munidos de um grande e único objetivo: realizar em vida a lei do menor esforço?

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Seja qual for a sua resposta, foda-se. Porque a distância existe enquanto nossa matéria mais pura. E, sejamos adultos, somos atraídos pela fronteira da mesma forma que somos seduzidos pelo abismo ou impotentes frente ao desconhecido. Como gatos, a alfândega do outro é um território irresistível. E cada um habita a sua própria pele, vamos dizer assim, essencialmente.

Por isso, mais uma vez, as distâncias. Por isso, defenda-se! - e um salve à contradição, à idiossincrasia ou apenas mais um dos exemplos de como os deuses devem se divertir brincando com a natureza humana. Por que, meu caro, quem é que pode se dar ao luxo de prescindir das próprias distâncias - nossa matéria prima e mais íntima?

Elas, as distâncias, não a nossa solidão e sim nosso barro particular, nos fazem reis, deuses e, eu arriscaria dizer, apenas nelas somos livres - livres pra valer. Nossa palavra é lei e nossa régua mais verdadeira é a vontade - ou falta dela. O controle (ou não) sobre ela. Ali habitam nossos traumas, nunca as vergonhas. Por isso não confunda: a solidão não reside em estado bruto em nossa condição. Ela vem de contrabando - quando o nosso direito maior é violado. Quando um estrangeiro sem nenhum visto tenta arrastar toda a sua bagagem para dentro um território que não lhe pertence. Como um muambeiro de ideias, às vezes sorrateiro, às vezes violento, às vezes sacana ou até charmoso mas sempre indigno. Você também não acharia isso uma afronta? Quem deixou esse pulha entrar com esse uisque falsificado? Cuidado.

Eles são insistentes porque para o território de cada não há visto permanente. Greencard? Nem casando. Aqui, a cidadania é só consanguínea. E basta. Naturalidade a gente não pede, a gente ganha. A gente não escolhe, tem direito. Cidadania vez ou outra se concede, mas nada é definitivo.

Cuidado. Para essa incerteza cair sobre você da forma terrível como é não escolher onde se nasce. É, meu caro. Cuidado. Existir é um ato involuntário.

Alguns privilégios são concedidos, não vou negar... Sim, existir é um ato involuntário, mas correr riscos quem escolhe é a gente. Eu, por exemplo, já sei que não dá para chegar à pé a todos os lugares. Às vezes tem que fazer isso. Enfrentar o medo. Pegar um avião. Tirar visto. Pagar a taxa. Pegar na mão de estranhos. Entrar num vôo que você não sabe se vai chegar. (Como pode algo tão pesado voar? Eu é que não nasci com asas. Meu ambiente é a imensidão do mar e não o vazio incontinente). Porém nosso enredo só acontece em trânsito: indo, vindo, voltando. Entre vôos - alguns turbulentos - e eu já disse pra você o quanto eu odeio voar?

Mas, pensa comigo, se o amor não fosse feitos de distâncias, de percursos, de fronteiras, ele seria sequer necessário? Se ele não fosse um risco, o maior deles talvez, não seria encontro. Talvez hábito ou rotina - ou pior, a lei do menor esforço. A gente não teria aprendido uma língua nova, por exemplo, a do outro; nem dominado a gramática do corpo, a cadência do gesto ou sequer teria entendido aquelas regras que ninguém ousa dizer em voz alta. Seria ridículo. No mínimo indelicado. Se o amor não fosse feito de distâncias, nunca teríamos inventado uma sintaxe em mais de um participa. Nesse lugar, há a diplomacia. Nesse espaço, inventamos uma forma de democracia para fazer caber a escolha. Nela, o diálogo é a matéria prima para fazer da pele-fronteira, desejo. Para fazer do desejo, motor e não invasão - ou instinto.

Sem falar no frio na barriga para despertar do tédio: aquele momento de passar pela alfândega. Algo como o medo do goleiro diante do penalti: a pessoa olha para você, confere tudo direitinho para ver se você faz sentido, acessa suas intimidades enquanto você tá lá, frágil, exposto como um peru na véspera do natal, não podendo fazer nada além de esperar.

Mas você já fez o que tinha que fazer, já deu o passo, já teve coragem. A decisão reside no outro.

Sabe vulnerável? Então…

E o outro?

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A coragem do outro se manifesta na humanidade de quem escolhe diante do escolhido. É um gesto de amor - e uma gentileza. Como quem estende a mão a um desconhecido. Porque escolher também é exposição - a exposição de reconhecer no outro o gesto. E arriscar. As belezas e as violências vão ficar lá, aparentes. Cada rua mal planejada. Cada cidade esquecida. É nesse lugar inimaginável e intangível que estamos. Nele é que existimos enquanto dois. Requer paciência. Não dá pra residir com pressa nem sair correndo e mudar a data da passagem. Com o dólar a esse preço, quem é que está disposto a pagar a multa?

E isso não assombra você? Que o amor exista na distância? Que resida em línguas que a gente ainda desconhece e precisa, mais do que aprender, inventar? Eu me pergunto se isso tudo não é loucura, curiosidade ou narcisismo. Como que uma vontade mórbida de entender a natureza do terreno alheio. Nossa natureza é estranha…

Mas repara na língua do outro: se você não aprender, ela é inacessível e, pra isso, você também precisa fazer concessões. Enquanto ele vai aceitar estrangeirismos. Só nesse espaço público que dois habitam, se aprende sem colonizar. Ali as ideias têm livre tráfego, os dialetos são necessários e os desejos não são sobretaxados. Nesse lugar os segredos não viram commodities nem os erros a base da concessão cambial. Por que somos assim? Eu me pergunto, você não? Só em águas internacionais não exercermos a nossa lei sobre o outro.

Nem ele sobre nós.

Quando os territórios são invadidos, meu caro, todos vivem em estado de sítio. Aí o preço da liberdade é só um: colonizar o outro ou ser colonizado. Isso faz do amor um cativeiro. No mínimo, uma tensão que dissipa a diferença quando o encontro se alimenta de escolhas. Eis a receita para a nossa faixa de gaza particular até sufocarmos tudo o que for dessemelhante.

Por isso, meu caro, amor é uma valentia e um acaso. Não é para todos. É só para os valentes, aqueles que reconhecem a própria natureza: somos colonizadores.

Quem é que gosta de negociar diferenças?

Por isso, meu caro, o amor é uma valentia e um acaso. Não é para todos. É só para os valentes, aqueles que reconhecem a própria natureza: o outro é uma eterna fronteira para a qual nem sempre se tem o visto.

Quem é que quer de ser deportado?


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