ser pensante nessa vida errante

CABEÇA E ALMA A 440V

CARLA PEPE

Carla Pepe, historiadora,poeta, aprendiz de bloqueira. Gosto de filmes, poesia, livros, política, psicologia, sociologia. Penso muito, erro muito também. Amo a vida em sua intensidade, em superfícies não me detenho. Minha voltagem é 440.

Desconstruindo Amélia – Pitty e o empoderamento feminino

Pitty, por si só, já é transgressora e suas letras tratam, em grande parte, da necessidade dos sujeitos de pensarem por si mesmos. Num universo ditado por padronizar esteticamente e moralmente a sociedade, a música pode ser uma excelente forma de reflexão e enfrentamento das questões femininas. A arte imita a vida.


A palavra empoderamento vem do inglês “empowerment” e significa um conjunto de ações coletivas desenvolvida pelos sujeitos, em espaços decisórios, cujo objetivo é apoiar a ampliação da consciência social acerca de um tema específico. Atualmente, têm se refletido muito sobre o empoderamento feminino para enfrentar questões como machismo, e violência contra mulher. Esse pode ser uma forma de encarar as diferentes formas de violência pelas quais as mulheres atravessam em seu cotidiano. Além da violência, também há uma série de padrões estéticos e morais que foram construídos durante séculos sobre como “ser uma boa mulher”. Nesse cenário, trago para nosso diálogo a cantora Pitty que despontou no cenário nacional nos anos 2000. Foi uma das primeiras cantoras de Rock pesado e seu diferencial foi sua origem, a Bahia. No tabuleiro da baiana tem mais do que vatapá e caruru, tem uma boa roqueira da pesada.

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Seu primeiro álbum “Admirável Chip Novo” faz uma analogia ao romance do Aldous Huxley, “Admirável Mundo Novo”. A música título já inicia numa crítica as pessoas que agem feito um robô, no modo automático, são indivíduos que reproduzem pensamentos, sem análise crítica da realidade: “Parafuso e fluído em lugar de articulação. Até achava que aqui batia um coração. Nada é orgânico é tudo programado. E eu achando que tinha me libertado”. E segue a mesma linha na música Máscara, convocando cada um a ser estranho, mas ser fiel a si mesmo, rompendo o padrão robotizado que a sociedade capitalista de consumo constrói na forma da consciência coletiva.

Suas letras e composições procuram pedir que as pessoas saiam do modo automático, que reflitam, pensem. Por ser mulher e estar num cenário diferente da música brasileira, atinge um público que enfrenta ainda mais preconceito. São mulheres que usam tatoos, piercings, com seus corpos geralmente volumosos, sua maquiagem mais pesada, punk. A letra “Deja vu” cabe para cada uma delas “mas eu sinto que to viva a cada banho de chuva que molha o meu corpo”.

O álbum mais atual “Setevidas”, cuja faixa título já dá o tom do pensamento da cantora “a postura combativa, ainda to aqui viva, um pouco triste, mas muito mais forte.”. A postura no que diz respeito a construção de uma nova consciência coletiva é de enfrentamento, ás vezes produz tensões, mas também fortalece os grupos e ajuda no que diz respeito à denúncias e ao fortalecimento da autoestima das mulheres.

A música “Descontruindo Amélia” só confirma esse pensamento libertador que Pitty vem ao longo de sua trajetória profissional ratificando. Traz clara inspiração na feminista Simone de Beauvoir. E faz uma referência a canção “Ai que saudades da Amélia de Mario Lago” que evocava a saudade de uma mulher submissa, sem vaidade, sem vontade e que foi claramente abandonada. A canção de Pitty relata uma nova mulher que se cuida, trabalha, estuda, cuida dos filhos, que é polivalente e que resolve, num dado momento, virar a mesa e mudar: “nem serva, nem objeto, já não quer ser o outro, hoje ela é um também”. Ser ela mesma. Uma Amélia diferente com novas possibilidades e com um caminho que ela mesma construiu a seguir.

Ainda, há hoje, quem acredite que a mulher de verdade é aquela que trabalha, cuida dos filhos, faz comida, cuida da casa, se cuida, nunca está descabelada, os seios não murcham, a bunda não cai, ela finge que goza, nem reclama que o sexo é ruim e, no fim, apanha calada. São Amélias, Matildes, Emanueles, elas podem ter muitos nomes, mas existem e carecem de artistas que cantem sua realidade. Claro que é bom falar do amor romântico, de paixão, de luar e sol, mas é preciso também falar da vida em sua complexidade, da necessidade do pensamento crítico e de que para ser feliz não existem receitas prontas, nem modelos pré-existentes.

O que as canções de Pitty evocam é que saia do automático, deixe de ser exato, seja você, mesmo que isso signifique ser estranho, diferente, fora do comum. O ato de se encaixar numa sociedade cujos padrões já foram estabelecidos antes de você é extremamente sofrido e ter artistas cantando novas possibilidades de pensamento e reforçando outros modelos é uma luz no fim do túnel. Ainda é preciso re-signifcar o que é padrão, beleza, força, violência, conceitos que para alguns são tão banais. Faz-se necessário dar pequenos passos na direção do empoderamento: aceitar-se e olhar no espelho com generosidade e amor é um dos primeiros desafios na direção certa.

“Sou mais do que seu olho pode ver. Não importa se não sou o que você quer. Não é minha culpa a sua projeção. Aceito a apatia se vier, mas não desonre meu nome.” (Me adora, Pitty).

Referência: https://youtu.be/ygcrcRgVxMI


CARLA PEPE

Carla Pepe, historiadora,poeta, aprendiz de bloqueira. Gosto de filmes, poesia, livros, política, psicologia, sociologia. Penso muito, erro muito também. Amo a vida em sua intensidade, em superfícies não me detenho. Minha voltagem é 440. .
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