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Juliana Fiúza

22 anos, carioca, guia de turismo regional, ganhadora do Talentos Sesc Senac 2016, estudante de Design Gráfico, autora e fotógrafa amadora, adepta profissional do flaneur; apaixonada por livros.

A Literatura na Música de David Bowie

O “camaleão do rock”, David Bowie, apesar de nunca ter entendido o motivo de ser chamado assim, colecionou sucessos e mudou o mundo da música desde seu primeiro hit, Space Oddity. O que muitos não sabem é que grandes sucessos do cantor foram inspirados em sua segunda maior paixão: a literatura. Neste artigo você descobrirá as influências mais impactantes que a literatura desempenhou de forma genial na carreira de Bowie.


599359099.jpg Pôster de 1987 onde David segura um exemplar do livro "O Idiota" de Fiódor Dostoiévski.A intenção era incentivar a leitura.Fonte: Chalkie Davies, gettyimages

Que David Bowie mudou o mundo da música, todos sabem. O que não é tão notório assim, exceto para os verdadeiros fãs de Bowie, é que o cantor era um leitor ávido. Durante a preparação da exibição David Bowie Is, o curador, Geoffrey Marsh, afirmou que David lia cerca de um livro por dia. Após a exposição, David resolveu compartilhar com seus fãs a lista d’Os 100 Livros Favoritos de David Bowie. A lista não está organizada em nenhuma ordem de favoritismo, apenas cronológica. Os livros da lista serviram muito mais do que passatempos para o cantor, eles influenciaram sua música e os famosos personagens que o cantor criou durante sua carreira. Em termos de inspiração, Laranja Mecânica, sem dúvida, desempenhou um papel muito forte na carreira de Bowie. A forma como Alex e seus druguis se vestiam influenciou na criação de Ziggy Stardust, o emblemático alienígena andrógeno e rockstar; assim como a maquiagem, o cabelo e os acessórios listados no clássico de Burgess. No livro, Alex comenta que os jovens usavam roupas apertadas, extravagantes e que os garotos usavam até mesmo maquiagem.

figurino-e-botas-que-estarc3a3o-na-exposic3a7c3a3o-photograph-by-masayoshi-sukita-c2a9-sukita-the-david-bowie-archive-2.jpg David Bowie, 1972. Fonte: Michael Ochs Archives

Halloween Jack, “um verdadeiro gato legal” que vive na “Hunger City”, recebeu ainda influência do visual de Laranja Mecânica, que assim como Ziggy, obteve a ajuda criativa de Kansai Yamamoto, o homem que criou os emblemáticos nove figurinos que David usou durante a Ziggy Stardust Tour e Alladin Sane Tour. Halloween Jack que nasceu para o álbum Diamond Dogs, usava lenço de seda no pescoço, tapa-olho e um cabelo “não muito longo”; referências ainda ao vestuário dos malchicks.

bowie2.jpg Bowie durante as gravações de Rebel, Rebel. Fonte: Gijsbert Hanekroot/small>

A mais recente referência à Laranja Mecânica na obra de Bowie, está na música Girl Loves Me, do último álbum do cantor, Blackstar. Na letra, Bowie mistura de forma genial o nadsat, as gírias que os adolescentes usavam em Laranja Mecânica que foram criadas de uma mistura das gírias da época com o idioma Russo; e o Polari, gírias usadas por adolescentes britânicos nos pubs da década de 70 e 80, em sua maioria, gays.

cover_rca.jpg Capa do álbum Diamond Dogs, de 1974.

Com a “aposentadoria” de Ziggy Stardust em 1973, Halloween Jack surgiu em Diamond Dogs para abrir outra fase da carreira de Bowie, porém, muito se é visto de Ziggy em Jack. Enquanto o visual ainda permanecia de certa forma conectado à Laranja Mecânica, outro clássico literário surgiu como norteador nas faixas do álbum, e é o icônico 1984 de George Orwell. O álbum Diamond Dogs é notoriamente uma fusão do livro com a visão de Bowie de um mundo glam pós-apocalíptico. As canções que fazem parte do álbum, originalmente, eram destinadas a uma adaptação teatral do livro, porém, sem os direitos da obra, o conteúdo acabou entrando no oitavo álbum do cantor. Além da música 1984, Big Brother e We Are The Dead, que compõem o lado B do álbum, se referem diretamente a obra de Orwell.

pr_rock_bowie_hunky_dory_cover_1972_24376_1511251440_id_993374.png David Bowie com Hunky Dory, 1972. Fonte: Mick Rock

Num dos álbuns mais aplaudidos, Hunky Dory, a música “Oh! You Pretty Things” contém inúmeras referências ao livro Anthem de Ayn Rand. O livro “Transcendental Magic, Its Doctrine and Ritual” de Eliphas Lévi influenciou as ideias de Telemismo de Aleisteir Crowley, e consequentemente, Bowie, que sempre demonstrou interesse particular no ocultista, dedicando a música Quicksand de Hunky Dory a ele e a Golden Down, ordem no qual Crowley foi membro. O livro de Eliphas também se encontra na lista de Bowie.

4168_e2a1.jpeg Station to Station Tour, 1976

Eis que após a aposentadoria de todas as cores que Ziggy, Jack e Soul Bowie carregavam, surgiu The Thin White Duke, uma personificação do expressionismo dos filmes alemães, “um visual em preto e branco, porém com um pouco de agressividade”, nas palavras do cantor, incluindo a arte de Weimar, a cidade onde grandes escritores que interessavam Bowie viveram, como Goethe e Nietzche. O personagem carregava melancolia e obscuridade, além da boêmia trazida na sonoridade das músicas. Tanto Berlim, quando a Alemanha, sempre influenciaram Bowie e não é à toa que a Trilogia Berlim – como são conhecidos os três álbuns que Bowie lançou enquanto viveu em Berlim: Low, Heroes e Lodger – levam essa alcunha. A fascinação de Bowie pela Alemanha é de longa data, o cantor sempre foi apaixonado pela história do país ou romances situados nele, e muitos livros similares estão contidos em sua lista, como Before the Deluge: A Portrait of Berlin in the 1920s de Otto Friedrich e Berlin Alexanderplatz de Alfred Döblin.

o-DAVID-BOWIE-READING-facebook.jpg David Bowie, 1965.Fonte: CA/Redferns

Além dos clássicos da literatura mundial, esoterismo e história, David possuía uma enorme necessidade de entender o ser humano, seu comportamento e sua evolução. Na lista de livros que ele divulgou, podemos notar a presença de títulos curiosos como de On Having No Head: Zen and the Rediscovery of the Obvious de Douglas Harding, onde o autor aborda sua epifania ao caminhar pela Himalaia e descobrir que ele não possuía “cabeça”. Outro título interessante é The Origin of Consciousness in the Breakdown of the Bicameral Mind de Julian Jaynes, que trata a origem e natureza da consciência humana e In Bluebeard’s Castle: Some Notes Towards the Redefinition of Culture George Steiner, contém panoramas e ideias sobre a cultura do ocidente pós a Segunda Guerra Mundial. Vale a pena notar que The Age of American Unreason de Susan Jacoby teve certas influências sobre o vigésimo sétimo álbum de Bowie, The Next Day. No livro, a autora argumenta que a história das últimas quatro décadas da humanidade foi caracterizada por ignorância e falta de racionalismo. Dos cem livros contidos na lista, além daqueles que o cantor leu, porém não fizeram parte dela, não há dúvida que desempenharam influência em suas músicas, que tocarão nos corações e nas almas de muitas gerações.


Juliana Fiúza

22 anos, carioca, guia de turismo regional, ganhadora do Talentos Sesc Senac 2016, estudante de Design Gráfico, autora e fotógrafa amadora, adepta profissional do flaneur; apaixonada por livros. .
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