serendipismo

As melhores descobertas são feitas ao acaso.

Juliana Fiúza

Sou guia de turismo, tenho 21 anos e moro no Rio de Janeiro. Faço parte de dois projetos: RJ Free Walking Tour e Vou Pra Onde?. Fui estagiária no Palácio Guanabara e ganhadora do Talentos Sesc Senac 2016.
Tenho um podcast sobre história e cultura do RJ, sou da Corvinal, apaixonada por livros, Tom Jobim é meu artista favorito e torço para o Borussia Dortmund.

A Volta do Flaneur ao Rio de Janeiro

“Graças ao olhar flaneurístico (se é que essa palavra existe) de grandes escritores, como Joaquim Manuel de Macedo, Machado de Assis, João do Rio e Lima Barreto, podemos desvendar os segredos muito além das belas montanhas da cidade. Eles nos presenteiam com uma literatura única, capaz de nos fazer enxergar e sentir o Rio de Janeiro. Seja na magia de uma rua, na melancolia de um prédio abandonado ou no ir e vir dos cariocas. E nos ensinam que o mais primitivo dos meios é sempre o melhor. O bom e velho caminhar.” – Ricardo Amaral


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Caminhar pelas ruas, sem destino, com um olhar observador e profundo, voltou a fazer parte do cotidiano do Carioca. Admirar a arquitetura da cidade, os hábitos daqueles que dividem as ruas conosco, a tríade paisagística do Rio: serra, mar e floresta. Tudo isso voltou a figurar os nossos dias. Não é a toa que Ricardo Amaral, em seu livro A Cara do Rio, dedicou um inteiro capítulo ao flaneur.

Esse hábito que por tempos ficou esquecido, por motivos que trataremos adiante, era costume para os grandes escritores cariocas. Joaquim Manuel de Macedo, nascido em 1820 era autor de Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro, folhetim semanal do Jornal do Commercio, onde trabalhou por 25 anos, e editado em dois volumes entre 1862 e 1863, considerado um dos primeiros guias da Cidade Maravilhosa, ou como Joaquim preferia, Sebastianópolis. Com certeza você já ouviu falar do Dr. Macedinho, como autor de sua grande obra, A Moreninha.

“Não preciso pedir o braço, apenas peço a atenção dos meus leitores. Eu passearei escrevendo, eles lendo...” – Joaquim Manuel de Macedo

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Machado de Assis foi um grande adepto do flaneur, e não só tinha o hábito, como o concedia à seus personagens. Esaú e Jacó, Quincas Borbas, Dom Casmurro, todos eles possuem algo em comum: o flaneur. Nasceu em 1839, no Morro do Livramento, ao lado do Cais do Valongo, o maior porto de escravos do Brasil. Era gago, pobre e mulato (apesar de em sua certidão de óbito constar que era branco), se tornou o maior escritor brasileiro, possuindo um estilo único de escrever. Uma forma de ilustrar esse fascínio de Machado pelo Rio, foi seu texto no jornal A Semana, em 1893:

Há anos chegou aqui um viajando que se relacionou comigo. Uma noite falamos da cidade e sua história; ele mostrou desejo de conhecer alguma velha construção. Citei-lhe várias: entre elas a igreja do Castelo e seus altares. Ajustamos que no dia seguinte iria buscá-lo para subir o morro do Castelo. Era uma bela manhã, não sei se de inverno ou primavera. Subimos e eu, para dispor-lhe o espírito, ia-lhe pintando o tempo em que por aquela mesma ladeira passavam os padres jesuítas, a cidade pequena, os costumes toscos, a devoção grande e sincera. Chegamos ao alto, a igreja estava aberta e entramos. Sei que não são ruínas de Atenas: mas cada um mostra o que possui. O viajante entrou, deu uma volta, saiu e foi postar-se junto à muralha, fitando o mar, o céu e as montanhas, e, ao cabo de cinco minutos: "Que natureza que vocês tem!"

Vale comentar que o Morro do Castelo foi o local em que, após a expulsção dos franceses em 1567, Estácio de Sá construiu de fato a cidade no alto do Morro do Castelo. Esse morro foi derrubado no início do século XX, precisamente em 1922.

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João do Rio, não tão conhecido mundialmente como Machado, e até mesmo não faz parte da cultura popular do carioca, que cá entre nós, não valoriza tanto assim sua história, foi o maior expoente e adepto do flaneur. João Paulo Emílio Cristóvão dos Santos Coelho Barreto, nasceu em 1881, carioca da gema, e tinha uma queda por pseudônimos, possuiu quatro antes do mais conhecido: João do Rio.

"As ruas têm alma! Há ruas honestas, ruas ambíguas, ruas sinistras, ruas nobres, delicadas, trágicas, depravadas, puras, infames, ruas sem história, ruas tão velhas que bastam para contar a história de uma cidade inteira."

Não é por menos que um dos livros mais conhecidos do autor é A Alma Encantadora das Ruas, uma coleção de 37 crônicas e reportagens. E como todo esse trabalho foi feito? Através das andanças de João, até mesmo na madrugada, pelo Rio de Janeiro.

Flanar! Aí está um verbo universal sem entrada nos dicionários, que não pertence a língua nenhuma! (...) Flanar e ser vagabundo e refeltir, é não ser basbaque e comentar, é ter o vírus da observação ligado ao da vadiagem. (...) Flanar é a distinção de perambular com sabedoria.

O resultado disso é uma coleção de obras-primas sobre o que foi o Rio, além das crônicas, João memorizou em suas páginas as religiões do Rio, as ruas, a alma dos cariocas naquela época, a paisagem do Rio. Naquela época seu trabalho não foi valorizado, mas hoje, é preciosidade.

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O autor de Triste Fim de Policarpo Quaresma não poderia ficar fora deste artigo sobre o hábito de flanar, nascido também em 1881, injustamente nunca tendo conseguido em vida uma cadeira na ABL, ele também escrevia sobre o Rio e sua essência encontrada nas ruas, nos monumentos. Escreveu crônicas, sendo uma das mais famosas O subterrâneo do morro do Castelo, onde ele fez reportagens sobre as escavações no morro, alimentando a lenda de que haveria um grande tesouro escondido no morro.

Mas o presente que o flaneur na vida de Lima Barreto nos deus foi o Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá , onde o protagonista circulava pelo subúrbio, de botequim à botequim. Na obra, o narrador Augusto Machado conta a história de seu amigo e protagonista, Gonzaga de Sá.

Esse Rio é muito estambótico. Estende-se pra aqui, pra aii; as partes não se unem bem, vivem tão segregadas que, por mais que aumente a população, nunca apresentará o aspecto de uma grande capital, movimentada densamente.

Mas o legado "flaneurístico" não se encerra por aí, ele se espalhou por todos os artistas cariocas da gema, ou de coração, como: Carlos Drummond de Andrade, Tom Jobim, Rubem Braga e muitos outros.

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Mas o que fez com que o carioca esquecesse desse hábito tão presente em nossa história? E o que fez ele retornar ultimamente?

O fato é que com a construção do Elevado da Perimetral em 1960, e o esquecimento de grande parte da Orla Carioca, esse hábito se perdeu. Devemos lembrar que era época da implantação de grandes rodovias no Rio e no Brasil, tudo se resumia em automóveis. Com as reformas do Porto Maravilha, e implosão da Perimetral e a construção da Orla Conde, que conecta o AquaRio ao Aterro do Flamengo, o carioca pode se reencontrar. A Praça Mauá, virou o ponto de partida para adeptos do flaneur; por abrigar o Museu do Amanhã, o Mar, o Porto e o início da Av. Rio Branco.

Eu, por vezes caminho pela Orla Conde, percorrendo o espaço que antes era só da Marinha, percorrendo o local onde a família real desembarcou em 1808, atingindo então a Praça XV, observando o Paço Imperial, o chafariz do Mestre Valentim, a estátua de João Cândido, seguindo de encontro à Ladeira da Misericórdia, que é o que restou do Morro do Castelo, passeando então pelo mesmo local onde Machado levou seu colega viajante.

Coisas que quem gosta de flanar experimenta: percorrer caminhos e olhar com os olhos de outras gerações.


Juliana Fiúza

Sou guia de turismo, tenho 21 anos e moro no Rio de Janeiro. Faço parte de dois projetos: RJ Free Walking Tour e Vou Pra Onde?. Fui estagiária no Palácio Guanabara e ganhadora do Talentos Sesc Senac 2016. Tenho um podcast sobre história e cultura do RJ, sou da Corvinal, apaixonada por livros, Tom Jobim é meu artista favorito e torço para o Borussia Dortmund. .
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