serendipismo

As melhores descobertas são feitas ao acaso.

Juliana Fiúza

Sou guia de turismo, tenho 21 anos e moro no Rio de Janeiro. Faço parte de dois projetos: RJ Free Walking Tour e Vou Pra Onde?. Fui estagiária no Palácio Guanabara e ganhadora do Talentos Sesc Senac 2016.
Tenho um podcast sobre história e cultura do RJ, sou da Corvinal, apaixonada por livros, Tom Jobim é meu artista favorito e torço para o Borussia Dortmund.

Tempos Modernos e a Ilusão de Viver

Isso me lembra o que Tom Jobim disse ao ser entrevistado por Clarice Lispector em 1968: Será que hoje em dia as pessoas estão lendo como eu lia quando garoto, tendo hábito de ir para a cama com um livro antes de dormir? Porque sinto uma espécie de falta de tempo da humanidade….


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São tempos modernos e com o avanço tecnológico, que nos faz cada vez mais não necessitar de contato humano, pequenas coisas que marcaram a vida de gerações, se tornam obsoletas. A desculpa é de que com isso nos livramos de inúmeros problemas e economizamos tempo. Um exemplo é o comercial do Ifood, que faz questão de mencionar que você não precisará falar com ninguém para comprar sua comida.

As redes sociais vieram de vez pra nos afastar da vida real, onde buscamos contato humano através da internet, deixando de lado completamente as pessoas que vivem ao nosso redor. A necessidade de afeto através de curtidas em publicações, substituiu o afeto físico entre pessoas. Hoje em dia não se busca um parceiro que possa lhe acompanhar por toda a vida, mas alguém para esbanjar felicidade no facebook ou no instagram.

Cartas de amor? Pra que? Que trabalho é pegar uma caneta, escolher um bonito papel de seda e dedicar um tempo à escrever para alguém, caprichar na letra e pensar em um belo poema. Podemos buscar no Google, copiar e colar em uma conversa de whatsapp e pronto! Mais prático. Dedicar um bom tempo à fazer qualquer coisa, hoje em dia, é burrice.

E cada vez mais sentimos o tempo passar mais rápido, sem tê-lo aproveitado de forma produtiva ou com qualidade.

Muitas coisas, que eram motivo de deliciosas expectativas, também deixaram de existir. Como o resultado de uma foto que levava dias para ser revelada. Quem nunca guardou rolos e rolos de filme em casa? Confesso que ainda tenho uns na minha. Outro exemplo era a espera do final de semana para se ir na locadora, ou abrir um cd e admirar o encarte, lendo as letras das músicas enquanto ele toca no rádio.

Antes, quando queríamos que alguém ouvisse uma música, emprestávamos uma fita, ou até mesmo o CD. Não se tinha a frieza de mandar um link. Recentemente, a Netflix lançou uma extensão que permite que vários amigos assistam juntos o mesmo filme, o que nos faz pensar que aquelas sessões de sábado na casa dos amigos, com direito à pipoca e pizza, ficaram ainda mais raras. Isso me lembra o que Tom Jobim disse ao ser entrevistado por Clarice Lispector em 1968: Será que hoje em dia as pessoas estão lendo como eu lia quando garoto, tendo hábito de ir para a cama com um livro antes de dormir? Porque sinto uma espécie de falta de tempo da humanidade….

E no final das contas, todas as interações sociais que fazemos são usadas para ganhar curtidas no facebook, corações no instagram e seguidores no twitter. Porque não basta o momento ser especial para nós, sentimos a necessidade de mostrar à todos o quanto estamos felizes, ou queremos parecer estar.

Os telefonemas, que por muito tempo foram o auge da tecnologia, hoje foram substituídos por áudio no whatsapp. Áudios que são recebidos com desprezo, aliás. Pra quê ouvir a voz de alguém, se eu simplesmente posso ler o que ela tem a dizer? Não conversamos mais com ninguém sobre o que gostamos, apenas compartilhamos posts no facebook e todas as conversas giram em torno disso: eu vi o que você postou/compartilhou no facebook…

O prazer de contar uma novidade e ver a reação, se tornou obsoleta diante das novas interações do facebook, com opções de “amei”, “haha”, “uau”, “triste” e “grr”. Sem contar o distanciamento dos casais por conta de amizades no facebook e fotos com milhares de filtros acompanhadas de frases famosas de pessoas que elas nem conhecem. A grande ilusão que faz qualquer pessoa culta e atraente.

Além disso tudo, você não precisa mais sair e conhecer pessoas na praia, num barzinho, numa livraria…você tem aplicativos! Aplicativos que de acordo com as informações que você passa, ou sua localização, lhe dizem o par ideal. Ou o par ideal para a pessoa que você quer ser na internet, pois é muito fácil se passar por qualquer coisa através de uma tela de computador. Me lembro do filme Bossa Nova, onde uma brasileira e um americano começaram a namorar pela internet, no filme, ele explica porque é tão diferente pessoalmente, usando a desculpa de que coloca na internet certo tipo de perfil para atrair as mulheres que se sentiriam atraídas por aquela versão dele, não quem ele realmente era. É como escolher um personagem no RPG, só que com uma quantidade de perfis infinita.

Tudo o que se vive com as redes sociais e certas tecnologias feitas para evitar o contato humano, nos fazem viver uma vida que é um fantasma do que já se foi viver de verdade nessa terra. O que me faz lembrar do filme Os Substitutos, onde a maior parte da população usa androids e não precisa mais sair de casa para nada. Se isso está distante? Honestamente? Acredito que não. Morgan Freeman, na série A História de Deus, produzida pela National Geographic, em seu primeiro episódio “Além da Morte”, nos mostra uma android de inteligência artificial chamada Bina48, que carrega a aparência, crenças e memórias de Bina Rothblatt. Com esses dois exemplos, podemos nos imaginar em casa, enquanto nossos androids saem pelas ruas passeando com outros androids que seriam nossos filhos, ou até mesmo um android que carrega dentro dele tudo sobre você, contando aos seus netos coisas que você viveu. Deixando assim, a tecnologia e todos os recursos de substituição humana, viverem uma vida que é sua, de mais ninguém.

Todos nós concordamos que os avanços tecnológicos de fato, nos salvaram de mortes físicas terríveis, a medicina avança cada vez mais ao ponto de curar doenças que mataram milhares de pessoas nos séculos passado, mas infelizmente, nos condena a morte espiritual, ou social, se você assim preferir, à partir do momento que rouba de nós o poder de controlar e viver nossas vidas.

Pra encerrar, mais uma vez, cito o meu querido Tom Jobim: sou a favor do ‘maquinismo’ que facilita a vida humana, jamais a máquina que domina a espécie humana.


Juliana Fiúza

Sou guia de turismo, tenho 21 anos e moro no Rio de Janeiro. Faço parte de dois projetos: RJ Free Walking Tour e Vou Pra Onde?. Fui estagiária no Palácio Guanabara e ganhadora do Talentos Sesc Senac 2016. Tenho um podcast sobre história e cultura do RJ, sou da Corvinal, apaixonada por livros, Tom Jobim é meu artista favorito e torço para o Borussia Dortmund. .
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