Fábio Pinheiro

Textos quinzenais sobre literatura e sociedade

Anatomia de um gênio: Mozart

Permanentemente belos e altivos, os deuses detém o poder encantatório de que tanto se admiram e louvam os mortais; na música, jurisdição lúdica da alma par excellence, seus demiurgos emulam o mesmo maravilhamento por oitiva. Dentre os mais destacáveis está: Wolfgang Amadeus Mozart.


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“A música ajudava-me a descer em mim mesmo, a descobrir em mim coisas novas: a diversidade que em vão procurara na vida, nas viagens, cuja nostalgia no entanto me era dada por aquela maré sonora que fazia expirar junto a mim as suas vagas batidas de sol.” M. Proust

(I) Introito

Como se molda a feição de um deus? Das formas que a Natureza dispõe, o aspecto divino deve ser aquele, cujo halo se percebe superior sem muita dificuldade. Cada detalhe deve ter a função determinada de ecoar a força divina do ente. Permanentemente belos e altivos, os deuses detém o poder encantatório de que tanto se admiram e louvam os mortais; na música, jurisdição lúdica da alma par excellence, seus demiurgos emulam o mesmo maravilhamento por oitiva. Dentre os mais destacáveis está Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791).

Talvez o epígono de gênio, afaste o não iniciado, como se tivéssemos de lidar com o artista, de joelhos, reconhecendo o peso de sua grandeza e oferecendo nossa fiel subserviência. Todavia, o caminho é inverso. A genialidade (conceito embebido por historicidades muito específicas) precisa ser compreendida a partir de uma conjunção de fatores que se interconectam. Por um lado, há alguém com uma predisposição inata, uma maturidade precoce para determinado modo de pensar, ver e perceber o mundo e de combinar as informações recebidas. Por outro lado, deve haver um meio (familiar, escolar ou social mais amplo) que perceba e reconheça como importantes aquelas qualidades e que se proponha a fazê-las crescer e expandir. Para esse "talento" observado se desenvolver, é preciso que seja valorizado e estimulado.

Mozart, entretanto, não era um romântico (por mais que Carpeaux o nomeie como “demoníaco” em determinadas obras), e nem seu tempo o era. O elemento grácil (originalmente rococó), a etérea, alada e lânguida elegância mozartiana outra coisa não é senão a mentalidade iluminista e aquela erotização da cultura que fez do Setecentos, a época da última vivência ocidental do “hedonismo antropoplástico” (Merquior, p.141) – da libido plenamente aceita como fonte de cultura. Tivesse ele nascido no auge do romantismo alemão, como sugere Norbert Elias em “A Sociologia de um Gênio”, Mozart teria sido elevado ao nível heroico de seus modelos; ainda que antecipando determinadas sociabilidades que se tornariam regras no terreno musical a posteriori (vide Beethoven), Mozart enfrentou uma série inumerada de óbices para obter seu devido reconhecimento – nunca realizado em vida-.

Com este texto sobre o Ariel de Salzburgo, darei início a uma série de artigos em torno da vida e obra de compositores clássicos. A proposta, entretanto, não limitar-se-á à narrar eventos de suas trajetórias, evitando psicologismos ou sociologismos, como numa descrição biográfica e, tampouco se fixará no exame técnico de obras específicas, mas no esforço de seu contínuo diálogo; anelo promover nesse espaço uma aproximação do leitor com a forma artística musical, estimulando um interesse degustativo pela produção desses artistas.

(II) Wolfere

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Salzburg, 9 de fevereiro de 1756. No dia 27 de janeiro, às 8 horas da noite, minha esposa deu à luz um menino. Foi-lhe necessário retirar a placenta. Após isso ela ficou incrivelmente fraca. Mas agora mãe e filho estão passando bem, graças a Deus. Ela manda lembranças para vocês dois. O nome do menino é Joannes Chrysostomos, Wolfgang, Gottlieb.

Evidencio desde já que, nenhuma tentativa será feita aqui, para “enquadrar” a obra de Mozart na camisa-de-força de uma “evolução histórica”. Embora influenciado por todas as correntes de sua época, Mozart não pertence a nenhuma delas; e sua própria influência sobre as gerações posteriores — quase só sobre a música pianística de Clementi e os começos de Beethoven. A admiração que se lhe dedica tem como objeto uma arte extra temporal e supratemporal. Mais do que no caso de Haydn, a tríade rotineira “Haydn-Mozart- Beethoven” falsifica a perspectiva histórica. Mozart não é uma “fase intermediária” entre os dois outros. A única linha verificável da evolução é “Haydn-Beethoven”. Do ponto de vista historiográfico é Mozart um evento. Sua vida também foi um evento; um evento catártico e doloroso.

Quando Wolfere (como era chamado pelos mais próximos) tinha quatro anos de idade, seu pai Leopold Mozart, violinista na corte do Arcebispo de Salzburgo, já começou a ensinar-lhe os elementos da harmonia, além dos exercícios já bem avançados no piano e no violino. Com cinco anos de idade, a criança já fazia as primeiras composições, a propósito das quais se impõe, aliás, uma observação. Os biógrafos mais antigos rejeitaram, indignados, a suspeita surgida entre os contemporâneos de que Leopold Mozart teria colaborado naqueles primeiros trabalhos para enganar o mundo. Hoje se admite francamente essa “colaboração”, até em obras posteriores.

Norbert Elias aponta que desde cedo o compositor mostrou uma condição particularmente forte para transformar as energias instintivas através da sublimação e pôde concentrá-las, desde muito cedo, em processos específicos. No momento que descobriu a música, seu interesse em outras ocupações morreram, até aqueles dedicados às brincadeiras infantis. Tendo sido o pai o único educador de Mozart na infância, focado em instruí-lo na sua profissão e não tendo este nenhum tutor particular nem frequentado qualquer escola, a criança canalizou através do projeto estipulado e estimulado pelo pai, a se dedicar praticamente de modo exclusivo à música sem nenhuma outra preocupação. Basicamente nenhuma atenção específica foi dada na educação da criança além da musical. O processo da construção da genialidade de Mozart é plantado na semente própria das necessidades e das relações de sua família.

Com esta reflexão chegamos aos acontecimentos de 1782: ano de mudança na biografia e no exercício profissional, ano do fim do emprego, do fim da prática musical planeada por outrem, ano de independência criativa e de novas possibilidades de evolução, consequentemente: confronto entre as possibilidades técnicas adquiridas e a vontade de fazer melhor. Ano do casamento com Constanze Weber (1762-1842) e da fixação definitiva em Viena, ainda que mudando de morada, em média, mais do que uma vez por ano. Como consequência dos confrontos sentidos ao longo deste período, sobreveio a insatisfação com os resultados obtidos e a necessidade de estudo e de instrumentos de melhor qualidade. A última década da vida de Wolfgang Amadeus é, muito justamente, conhecida como a década de ouro: ao longo destes anos, como foi dito, compôs menos e melhor, assimilando a lição do passado e promovendo a herança que os vindouros receberiam. A marca impressa pelas obras desta época viria a sentir-se na evolução próxima da música de um modo particularmente expressivo.

(III) Interlúdio

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Em 1984, o filme “Amadeus”, dirigido por Milos Forman, é recebido calorosamente tanto pela crítica quanto pelo público. Adaptação de uma também exitosa peça teatral homônima, Amadeus introduziu no imaginário coletivo a figura do gênio infante mozartiano, descontrolado e brilhante, morto precocemente pelas mãos indiretas do seu rival mimético: Antônio Salieri, compositor oficial da corte. As liberdades artísticas tomada pela película, conferem, no entanto, paralelos férteis com a biografia de Mozart.

O compositor de Rondó alla Turca, segundo consta, não possuía grande presença ou traço distintivo. Durantes as cenas iniciais, vemos o jovem Salieri se questionando a respeito da anatomia do gênio austríaco. Haveria de fato elemento físico que imediatamente pudesse acusar a excelsa vocação? Em Beethoven, o olhar compenetrado e as madeixas indóceis anunciavam o vigoroso e enérgico espírito de um suposto ilustre. Já nas representações pictóricas de Mozart, percebe-se a indefinição e a dificuldade de estabelecer um semblante notável. Um rosto comum. Um olhar comum. Um homem demasiadamente comum. Não estaria, portanto, o talento manifestado no corpo de Mozart, mas em outro lugar. Mozart contém uma riqueza em invenção melódica do que qualquer outro compositor. Mas nem sempre sua melodia é pessoal. Em parte se explica isso pelos conceitos estéticos do século XVIII que, antes do advento do pré-romantismo, fazia pouca questão de originalidade e, muito menos, de “genialidade”; que são conceitos românticos. O músico, porém, sabe que a melodia não importa tanto; importa a maneira que o compositor sabe aproveitar suas invenções melódicas. E a esse respeito, Mozart não tem pares, a não ser Beethoven e Haydn.

Sua tentativa de incorporar-se à corte é um dos pontos altos do filme. Devemos lembrar que na sociedade de corte, o músico pertencia ao mesmo estrato social que o cozinheiro, a empregada, etc., portanto, encarado como mero funcionário palaciano. Salieri reconhece a qualidade de suas obras e sua socialização teve o intuito de formar um músico de acordo com os padrões tradicionais, daí a dificuldade de seu pai aceitar a decisão de deixar a corte de Estrasburgo, e em relação à sua obra, a complexidade das músicas de Mozart formava um estilo que não agradavam seu público-alvo. Muitas vezes isso é apresentado no filme quando Mozart é criticado por um suposto excesso de notas em sua música; ao dar asas à fantasia individual, e especialmente a sua capacidade de sintetizar elementos anteriormente dispersos, de modo a romper com os padrões de gosto existentes, ele prontamente reduz suas chances de encontrar acolhida por parte do público. Sem saber, tal como um mártir, Mozart oferece seu próprio corpo para permitir a sedimentação de um novo paradigma artístico musical: o do artista autônomo.

“Amadeus” é um poderoso tratado acerca do ressentimento. Salieri desejava ser imortal, não cair no esquecimento, e por isso engendrou seu plano para pôr um ponto final à situação crítica de ser “ultrapassado” por Mozart. Movido pela inveja e pela obsessão da lembrança eterna, e também pela vontade de castigar Deus pela sua “injustiça”, decide monopolizar toda uma situação em que joga com a vontade de matar Mozart, mas fazendo-se ser seu amigo, para que ninguém suspeitasse de tal coisa, mas Mozart, já enfermo e muito fraco, acaba por falecer, com uma ópera por acabar e também com a missa dos mortos, o réquiem (que no filme é encomendada por Salieri, desconhecendo Mozart esse pormenor, para celebrar a sua própria morte) – se isso ainda não o convenceu de assistir, destaco a diabólica gargalhada que Tom Hulce deu à Mozart; um acinte genial!-.

(IV) Adagio

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Sua última obra é o célebre Réquiem (1791), música sacra das mais imponentes. Não se explicava essa “conversão” senão pelo choque que o doente recebeu quando um desconhecido misterioso lhe encomendou a obra, na qual há, no meio de grandes belezas líricas, traços de pavor histérico. A lenda em torno do Réquiem está hoje desfeita: o desconhecido não foi um mensageiro do outro mundo, mas um aristocrata meio louco, o conde Franz von Walsegg (1763-1827), que costumava encomendar, dessa maneira, obras musicais para fazer executá-las, depois, perante amigos como se fossem de sua própria lavra. Sem encomenda alguma Mozart já escrevera, pouco tempo antes, o Ave Verum (1791), um dos mais belos hinos de adoração do Sacramento. Nunca conheceremos com certeza o estado de espírito em que escreveu o Réquiem, deixando-o incompleta; assim como não é possível determinar exatamente em que ponto começa o trabalho de complementação, do seu discípulo Suessmayer. Tampouco como as missas de Haydn e do próprio Mozart corresponde o Réquiem a severas exigências litúrgicas.

“Ele simplesmente desistiu”, destacou Norbert Elias na abertura de seu livro, constatando o fato de que, "antes de morrer, Mozart várias vezes esteve próximo do desespero. Aos poucos, foi se sentindo derrotado pela vida. O sucesso em Viena, que para ele talvez significasse mais do que qualquer outro, jamais se concretizou. A alta sociedade vienense deu-lhe as costas.” Sem dúvida alguma, morreu com a sensação de que sua existência social fora um fracasso. Assim os dois fatores que privaram de sentido à vida de Mozart - a perda do reconhecimento do público e o arrefecimento do afeto da esposa - ligavam-se entre si. Eram duas camadas inseparáveis, interdependentes, no sentimento de vazio que o dominou em seus últimos anos. Sabia que morreria em breve; em seu caso isto provavelmente significava que desejou morrer, e que, de certa maneira, escreveu o Réquiem para si mesmo.

Todavia, não podia haver mais belo epílogo. Epílogos também são as últimas obras da música de câmara e o Don Giovanni, escrito dois anos antes de rebentar a revolução, que acabou para sempre com o mundo e a música da aristocracia. Don Giovanni foi levado pelos demônios e os anjos cantaram-lhe nos funerais. Mozart, o artista consumado, é o fim de uma civilização. Como sentencia Otto Maria Carpeaux: “Sua vida e sua obra foram o maior episódio da história da música.”

Sugestões de Leitura

Mozart: A Sociologia de um Gênio – Norbert Elias

Uma Nova História da Música Ocidental - Otto Maria Carpeaux

Crítica (1964-1989) – José Guilherme Merquior

Mozart: Um Compêndio - H C Robbins Landon


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