Fábio Pinheiro

Textos quinzenais sobre literatura e sociedade

Não existe beleza na miséria: Quarto de Despejo, de Carolina Maria de Jesus

"A voz ancestral de Carolina não nos leva apenas para a absurda realidade camusiana de uma metrópole in progress, mas para o melhor conhecimento das próprias 'forças históricas' que possibilitam e orientam sua existência."


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(I) Lançado em 1960, Quarto de Despejo foi um acontecimento para a cena literária brasileira. Escrito todo em forma de diário na década de 50, por Carolina Maria de Jesus, catadora de papel e moradora da favela de Canindé, em São Paulo, a obra continha descrições e impressões de um cotidiano devastador e desconhecido. Audálio Dantas, editor do livro e jornalista, conheceu Carolina por conta uma reportagem que fazia naquela área. As dezenas de cadernos, abarrotados das mais diversas narrativas , conservam considerações argutas acerca das condições de vida dos moradores da favela, assim como da miséria, dos preconceitos, das deficiências em educação, da exclusão social, abandono das autoridades públicas e até de problemáticas existencialistas.

Personagem do malogro que narra, Carolina escreve sem parar, e nesse processo, põe no papel o que à primeira vista lhe incomoda e a insulta. O alcoolismo, o racismo, as disputas torpes na favela e etc. A rudeza dos apontamentos é evidente na leitura, com uma sintaxe que lhe é característica, todavia, seria pouco fecundo vislumbrar a obra apenas por este aspecto. Carolina é abundante em figuras de linguagem; a lírica numa prosa de lâmina não deve ser desconsiderada. Eis um exemplo: “Eu cato papel, mas não gosto. Então eu penso: faz de conta que estou sonhando” p.26.

A voz ancestral de Carolina não nos leva apenas para a absurda realidade camusiana de uma metrópole in progress, mas para o melhor conhecimento das próprias “forças históricas” que possibilitam e orientam sua existência. A versão de uma realidade invisível é a que se manifesta nos escritos da autora. Através de Quarto de Despejo, temos acesso irrestrito a uma configuração social não contemplada devidamente no campo literário (à época). O olhar etnográfico evidente de Carolina absorve a miríade de sociabilidades tensionadas de um espaço distante da “sala de visitas”; e é na crueza rica –o paradoxo é uma de suas molas- de sua narrativa, que encontramos dimensões subterrâneas e pouco exploradas –aqui, por parte da literatura- de uma condição socialmente marginalizada.

(II) A afirmação que se encontra no título do texto é de Renato Russo, na canção L’Âge Dor, da Legião Urbana. O posicionamento do artista é claro, mas discutível: há de fato limite ético para a construção estética ao tratar de temas tão sensíveis e controversos como miséria, drogas, sexismo e/ou violência? De que maneira devemos, como leitores, relacionar-nos com estas produções estéticas? Primo Levi (1919-1987), autor judeu de pungentes obras acerca do mal e da sobrevivência, movido por uma única ideia-sentimento, como escreveu Marco Lucchesi, desenvolveu parte de sua produção em torno do trauma nazista causado por sua prisão nos campos de concentração. A comparação não é de toda estranha: Assim como em Levi, Carolina também trata de maneira objetiva de problemas sociais considerados fronteiriços, cercados de normas para tratamento e moralismos. Há uma preocupação em não revestir o real com adornos desnecessários. Em ambos, a semelhança também se faz na própria narração de uma experiência vivida pelo autor.

O problema da ética na expressão estética se faz presente ao lermos Carolina Maria. Sua abordagem não se realiza na romantização ou no regozijo da miséria, mas em sua exposição crítica. No ato de leitura, a apreciação acontece no compartilhamento subjetivo dos problemas apresentados, e não como resultante de um efeito de bem-estar causado pela construção narrativa dos temas. Ainda que incorporando elementos ficcionais em sua obra, Carolina não intimida sua escrita para garantir efeitos tradicionalmente romanescos. Como “poeta do lixo”, Carolina usa sua realidade como termômetro de suas considerações.

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(III) Em Quarto de Despejo, não enxergamos uma glamourização da miséria; ausente de ornamentos e enfeites, a obra é um registro ético no campo estético sobre uma condição de extrema pobreza e suas implicações. Uma resposta contundente para o próprio fazer literário, que no processo de representação, vez ou outra, parece alienado às problemáticas cotidianas pertinentes. Carolina consegue a seu modo, realizar essa aproximação. E na representação dessa realidade invisível, Carolina nos lega a exposição de uma resistência, que acusa a visão contemplativa do real e seus encantamentos, defendendo o tratamento sério da tragédia no/do cotidiano.

REFERÊNCIAS JESUS, Carolina Maria de. Quarto de Despejo – diário de uma favelada. São Paulo: Ática, 1997.

LUCCHESI, Marco. Sorriso do Caos. São Paulo: Record, 1999.


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