Fábio Pinheiro

Textos quinzenais sobre literatura e sociedade

Renato Russo: Poeta da Emulação

"Em 2016, quando lembramos dos 20 anos do falecimento de Renato Russo, juntamente com a celebração de um grande cantor e letrista, precisamos reconhecer sua potência literária. Poucos de nossos compositores enxergaram no método da emulação uma força para renovação de seu campo artístico, Renato, acima de todos, o empreendeu com notável eficiência."


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"Immature poets imitate; mature poets steal" - TS Eliot

(I) Um artista singular

Em carta endereçada a um fã clube, Russo aconselha: “Uma boa ideia rapazes é LER LIVROS, aí vocês verão que nem sou tão original (etc.) assim.”. Em todo o BRock (termo cunhado pelo jornalista Arthur Dapieve), Renato Russo, talvez tenha sido o compositor a mais se preocupar em revestir sua atividade criativa com referências originárias de outras artes, em especial da literatura. Desde a escolha para títulos de canções da Legião Urbana, como A Montanha Mágica, Pais e Filhos, La Nuova Giuventú, As Flores do Mal e etc., indo até no seu próprio conteúdo, valendo-se de trechos de obras clássicas como vemos em Sereníssima: “tenho um sorriso bobo, parecido com soluço”, extraído do romance Tonio Kröger, de Thomas Mann.

De formação cultural bastante vasta, Renato achou no rock um topos ideal para concretização de seus desejos artísticos e intelectuais. Ainda em Brasília, montou uma banda, fez e escreveu teatro, produziu romance, deu aulas de inglês, teve programa no rádio e, dentre outras coisas, compôs intensamente. Já com a Legião Urbana, alçou ainda voos maiores; com o suporte de uma áurea misteriosa - e avesso à aparições midiáticas-, apresentações catárticas e canções que arrebatavam multidões, Russo galgou um lugar singular no panteão musical brasileiro. Visto como representante máximo de sua geração, Renato transpassou as barreiras de seu gênero musical e tornou-se um mito juvenil, ainda vivo. Nesse texto, esboçarei uma discussão breve sobre a técnica literária da emulação em Renato Russo.

(II) Plágio ou invenção?

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Na Londres de 1880, Oscar Wilde – tema do próximo texto- teve enormes dores de cabeça por causa de seus críticos, em especial o pintor americano James M. Whistler. Acusado de plagiar seus ídolos pré-rafaelistas e românticos em seus poemas (1881), Wilde ironizava: “o talento pede emprestado, o gênio rouba”.

Morrissey, líder do grupo musical britânico The Smiths e figura de grande influência para Russo, também queixava-se desse policiamento da originalidade, quando na canção Cemetry Gates, sugere: “Se você tem que escrever prosa-poesia / As palavras usadas devem ser as suas próprias / Não plagie ou pegue ‘emprestado’ / Porque há sempre alguém, em algum lugar / Que é narigudo e sabe / E que te passa uma rasteira e ri.”.

O problema do plágio é de fato um nó górdio quando tratamos de criação artística. O limite entre o uso renovado da tradição e a simples imitação e cópia, sempre gerou contendas entre os que defendem a originalidade como primado da criação, e os que asseveram sobre a reapropiação de formas estabelecidas. Entretanto, a partir de um breve passeio pela história da arte, vemos que essa prática não é só comum, como necessária para criação.

João Cezar de Castro Rocha, professor da UERJ, autor do livro “Machado de Assis: por uma poética da emulação”, define emulação como “um ato inventivo através da incorporação do alheio” (p.159). O artista só pode realizar bem sua arte, depois de incorporar as técnicas que envolvem seu ofício. O romantismo, pelo contrário, defendia um gênio nato, uma creatio ex nihilo; para este, seria indecoroso se valer de formas pré-estabelecidas para uma produção original e contestadora. Porém, a realidade da criação artística é diametral: “Sublinhar somente a originalidade equivaleria a julgar o artista um ingênuo, pouco familiarizado com a tradição” (p.164), destaca João Cezar.

A tradição romântica nos legou uma equivocada valoração pelo original, escondendo o processo real da feitura artística. Russo, por mais que um ultra romântico na escolha de seus leitmotiv musicais, não rezava a cartilha da originalidade na criação artística. Em termos de composição, Renato se valia de uma inumerada fonte de riffs, melodias e trechos de outras canções. Segundo o próprio, a ignorância da crítica brasileira o habilitava para tais ações, sem ser descoberto. Eis um exemplo: no início de “Será”, um dos mais expressivos hit's da banda, Russo praticamente cita o refrão de “Say Hello, Wave Goodbye”, do Soft Cell, todavia, com um rápido exercício comparativo, nota-se que o uso não é meramente uma cópia, pois sua aplicação é dotada de sentido diverso de sua origem.

Um bom termo para representar o método que Renato empreende, foi cunhando pelo antropólogo francês Claude Lévi-Strauss: bricolage. Guardada as devidas proporções antropológicas, o termo consiste na apreensão de partes distintas de diversos objetos, para a formação de um novo, completamente original. Sem abdicar da tradição, Russo reciclou e produziu obras renovadas tão superiores quanto à de seus modelos. Obviamente, a técnica da emulação vai além do uso de referência ou paráfrase, mas nesse texto, por motivos de espaço e tempo para desenvolvimento, preferi restringir à essas formas.

(III) (In) Conclusão

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Foram e são inúmeras as críticas negativas lançadas à Renato –assim como de toda geração do BRock- acusando uma dimensão essencialmente imitativa em sua produção. Por essa via, chegamos à conclusão que o rock brasileiro não foi muito além de uma pantomina do que se fazia lá fora. Entretanto, tal perspectiva é estreita e romântica – na acepção que estamos usando-, pois não enxerga de maneira eficiente os mecanismos que operam no fazer musical -e artístico, por tabela-.

Na música clássica, por exemplo, a reciclagem de temas consagrados, as variantes sobre um mesmo movimento melódico ou harmônico, os usos diversos de ideias contidas em um mesmo enredo histórico, etc., são mais que naturais dentro de sua atividade. Mas por que exigir originalidade de todo o resto? Por que a originalidade figura como valor positivo nas avaliações críticas de obras? Por que não a imitação e a emulação? Quando Brahms escreveu sua primeira sinfonia, ele foi acusado de ter usado um grande tema da Nona de Beethoven. Sua resposta foi que qualquer idiota podia ver isso.

Em 2016, quando lembramos dos 20 anos do falecimento de Renato Russo, juntamente com a celebração de um grande cantor e letrista, precisamos reconhecer sua potência literária. Poucos de nossos compositores enxergaram no método da emulação uma força para renovação de seu campo artístico; Renato, acima de todos, o empreendeu com notável eficiência.

Epílogo

Em seu processo de composição, Renato gostava do uso de paráfrases. Eis alguns exemplos:

1. No livro “1984”, de George Orwell, uma forma de aceitar duas ideias contrárias no mesmo momento é chamada de duplipensar. Na obra, isso se expressa pelas máximas: “Guerra é paz. Liberdade é escravidão. Ignorância é força.” Nas canções “Há tempos” e “1965-Duas Tribos’’, ambas do disco As Quatro Estações, Renato utiliza a fórmula orwelliana: “Disciplina é liberdade/Compaixão é fortaleza/Ter bondade é ter coragem.” E “Quando querem transformar/Dignidade em doença/Quando transformar/Inteligência em traição/Quando querem transformar/Estupidez em recompensa/Quando querem transformar/Esperança em maldição.”

2. Ainda em "As Quatro Estações", Russo mescla Camões –Soneto X- e São Paulo-1 Co. 13- na triunfante “Monte Castelo”.

3. Em “Quase Sem Querer”, os versos: “Não sou mais criança a ponto de saber tudo”/ “O infinito é realmente um dos deuses mais lindos” e "Mas quais são as palavras que nunca são ditas?" são paráfrases de outros textos. Respectivamente: “Não sou jovem o suficiente para saber de tudo”, de Oscar Wilde; “Tempo és um dos deuses mais lindos”, de Caetano Veloso; e “Qual a palavra que nunca foi dita”, de Milton Nascimento.

Sugestão de leituras:

1- Conversações com Renato Russo

2- Renato Russo: O Trovador Solitário – Arthur Dapieve

3- Renato Russo: O Filho da Revolução – Carlos Marcelo

4- BRock: O Rock Brasileiro dos Anos 80 – Arthur Dapieve

5- Machado de Assis: Por uma poética da emulação – João Cezar de Castro Rocha

6- O Pensamento Selvagem – C. Lévi-Strauss

7- 1984 – George Orwell

8- Tonio Kröger – Thomas Mann


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