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Reflexões de um cidadão honorário de Pasárgada

Rafael Senra

Já escreveu de romances até artigos acadêmicos, mas publicou pouco. Seu livro Dois Lados da Mesma Viagem é sobre Milton Nascimento, com prefácio de Fernando Brant. Fez uma graphic novel, Balada Sideral. Também mexe com poesias e composições. Adora gatos, rock progressivo e pesquisa contos de fadas. É Doutor em Letras pela UFJF.

A história da canção celta “Siúil a Rún”


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Uma canção chamada Shule Aroon e outra chamada Johnny has Gone for a Soldier. Uma simples audição revela diversas coincidências entre ambas. Na verdade, apesar dos títulos e das melodias levemente diferentes, todas elas derivam da mesma canção, chamada Siúil a Rún, um antigo tema tradicional da Irlanda, de autoria desconhecida.

Nos últimos anos, Siúil a Rún estrapolou as fronteiras da Irlanda, e se popularizou ao figurar no repertório de megaespetáculos como o do grupo feminino Celtic Woman, ou o show Riverdance. Mas alguns anos antes, de forma nem muito tímida, as diversas versões e adaptações da canção já haviam sido interpretadas por diversos nomes: desde o grupo Clannad (dos familiares da cantora Enya, conhecidos como os “embaixadores musicais da Irlanda”) até o cantor americano de folk music James Taylor, passando por artistas como Pete Seeger, Mary Black e Bonnie Dobson.

O título original, “Siúil a Rún”, no idioma gaélico, quer dizer “vá, meu amor”. Apesar do refrão cantado em gaélico, as estrofes estão em inglês. A mistura é justificada pelo fato de que ambos são os idiomas oficiais da República da Irlanda (nação que ocupa boa parte da Ilha da Irlanda, dividida entre a República e a Irlanda do Norte).

O idioma inglês entrou na ilha quando houve a invasão de mercenários cambro-normandos, enquanto que o “gaélico irlandês” (Gaeilge) descende da história dos povos celtas que formaram o país. O fato de se misturar esses idiomas distintos em um mesmo contexto talvez veicule a canção à uma forma poética conhecida como “macarrônica” (macaronic, algo parecido com o que nós brasileiros nos referimos quando alguém fracassa em falar um idioma estrangeiro, incorporando sem querer elementos da própria língua).

A letra é cantada do ponto de vista de uma mulher, que lamenta a ida do seu amado para o exército. Essa camada superficial de significado emerge facilmente em uma audição rápida. Contudo, o exercício de se rastrear as origens da canção pode revelar pistas meio que obscuras. Há quem diga que Siúil a Rún se refira à Revolução Gloriosa, que afetou todo o Reino Unido no século XVII. Mas outras possibilidades apontam para o fato de que a canção teria sido composta no século XIX, emulando um estilo mais antigo. Nada é certo em relação a isso.

De todo modo, é possível que ela tenha sobrevivido ao teste do tempo da mesma forma que diversas canções antigas da Irlanda: várias delas eram traduzidas integral ou parcialmente para o inglês, algumas vezes mantendo apenas o refrão no idioma original gaélico-irlandês. Existem até mesmo casos em que as traduções acabaram gerando versos praticamente sem sentido!

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O mais interessante sobre Siúil a Rún e suas versões é que as diferenças entre elas pode dizer muito sobre seu contexto original. Na versão americana da música (que se tornou muito popular nos Estados Unidos na época da Guerra Revolucionária Americana do séc. XIX), o personagem do jovem segue para a guerra; mas na versão irlandesa, o mesmo jovem segue por um difícil e voluntário exílio.

Há quem diga que essas variações seriam fruto da própria história da Irlanda, e se referem à invasão dos ingleses: os irlandeses teriam sido pressionados pelos britânicos a se alistar no exército, caso contrário seriam exilados para sempre.

A versão americana se vincula à original ao manter trechos da letra irlandesa, mas além de ter uma melodia diferente, há o acréscimo de uma frase que modifica todo o sentido, a ponto de ter se tornado seu novo título. “Johnny Has Gone for a Soldier” marca a decisão do personagem de enfim seguir para a carreira militar (Johnny foi se tornar um soldado, ou algo do tipo).

Uma versão intermediária entre Johnny e a suposta original Siúil a Rún chama-se Shule Aroon – apenas uma grafia diferente do termo gaélico. A melodia é semelhante à Johnny, mas no lugar da frase do título, está “iss go jay too mavoorneen slahn”, extraída do original gaélico (também escrita como “Is go dté tú mo mhuirnín slán”).

A canção é mencionada em alguns clássicos da literatura. Em O Mestre de Ballantrae, de Robert Louis Stevenson (o mesmo autor de A Ilha do Tesouro e O Médico e o Monstro), o protagonista a assobia para impressionar a mulher de seu irmão mais novo, e em seguida faz comentários depreciativos sobre seu significado, debochando dos exilados jacobitas na França que choravam ao ouvir sua letra.

Uma aparição ainda mais notável de Siúil a Rún está no célebre romance Ulisses, de James Joyce. No capítulo intitulado Ítaca, Stephen Dedalus está na cozinha de Leopold Bloom, e cantarola a canção para seu amigo, que responde cantando uma canção em hebraico para Dedalus. A letra de Siúil se vincula a um tema que aparece em todo o livro, a respeito da perda da linguagem, da traição, e de mulheres que vendem a si mesmas.

Segue a letra original (pelo menos a mais antiga que se tem notícia) e suas variações:

Siúil, siúil, siúil a rún / Siúil go socair agus siúil go ciúin / Siúil go doras agus éalaigh liom / Is go dté tú mo mhúirnín slán

I wish I was on yonder hill / ‘Tis there I’d sit and cry my fill / And every tear would turn a mill / Is go dté tú mo mhuirnín slán

I’ll sell my rock, I’ll sell my reel / I’ll sell my only spinning wheel / To buy my love a sword of steel / Is go dté tú mo mhúirnín slán

I’ll dye my petticoats, I’ll dye them red / And round the world I’ll beg my bread / Until my parents shall wish me dead / Is go dté tú mo mhúirnín slán

I wish, I wish, I wish in vain / I wish I had my heart again / And vainly think I’d not complain / Is go dté tú mo mhúirnín slán

But now my love has gone to France / to try his fortune to advance / If he e’er comes back ’tis but a chance / Is go dté tú mo mhúirnín slán

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Uma tradução (em inglês) para o refrão em gaélico seria:

Go, go, go my love / Go quietly and peacefully / Go to the door and flee with me / And may you go safely my dear.

Uma versão alternativa (ainda irlandesa) da letra inclui esses versos:

His hair is black, his eye is blue / His arm is stout, his word is true / I wish my darling I was with you / ‘s go dtéigh tú, a mhúirnín, slán

I watched them sail on Brandon Hill / It’s there I sat and cried my fill / And every tear would turn a mill / ‘s go dtéigh tú a mhúirnín, slán

I wish the King would return to reign / And bring my lover home again / I wish, I wish, I wish in vain / ‘s go dtéigh tú a mhúirnín, slán

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E, aqui, alguns versos adicionais da versão em inglês:

I sold my flax and I sold my wheel / to buy my love a sword of steel / so it in battle he might wield / Johnny’s gone for a soldier

Oh my baby oh my love / gone the rainbow gone the dove / your father was my only love / Johnny’s gone for a soldier

* Texto originalmente publicado no site do autor, em 03 de abril de 2014.

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Rafael Senra

Já escreveu de romances até artigos acadêmicos, mas publicou pouco. Seu livro Dois Lados da Mesma Viagem é sobre Milton Nascimento, com prefácio de Fernando Brant. Fez uma graphic novel, Balada Sideral. Também mexe com poesias e composições. Adora gatos, rock progressivo e pesquisa contos de fadas. É Doutor em Letras pela UFJF..
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