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Reflexões de um cidadão honorário de Pasárgada

Rafael Senra

Já escreveu de romances até artigos acadêmicos, mas publicou pouco. Seu livro Dois Lados da Mesma Viagem é sobre Milton Nascimento, com prefácio de Fernando Brant. Fez uma graphic novel, Balada Sideral. Também mexe com poesias e composições. Adora gatos, rock progressivo e pesquisa contos de fadas. É Doutor em Letras pela UFJF.

A fala enquanto máscara, a simulação enquanto realidade

De onde vem essa história de que um presidenciável fala um português correto, enquanto outro falaria de maneira errada? Como as pessoas veem e interpretam as personalidades da nossa política? A partir dessas questões, apresentamos uma análise da imagem e das estratégias discursivas projetadas por Temer, Lula e Dilma.


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Apesar de tantas decisões controversas deste governo Temer em poucos dias de vigência, parte da classe média aplaude a drástica mudança governamental pela qual passa o Brasil. E um dos argumentos que surgem para legitimar a República mais que Velha (1) de Temer é o de que “finalmente temos um presidente que fala o português correto”, dizem. Nada de errado com tal opinião, é só a classe média sendo classe média.

Pouco importa o fato de que aqueles que votaram a favor do impeachment no congresso apresentaram discursos desconectados e até mesmo hediondos: toda a barbárie que conduziu o processo foi interpretada como sendo meios necessários para justificar uma finalidade supostamente nobre.

Os simulacros: mais reais, menos realidade

Para entender o fenômeno de milhões de pessoas tolerando corrupção e perda de direitos em troca de um presidente pseudo-parnasiano, trago aqui um conceito do sociólogo e filósofo francês Jean Baudrillard (1929–2007). A ideia dos simulacros rapidamente diz à que veio: são cópias da realidade, expostas através de reproduções de elementos do real.

Eu entendi bem o que era simulacro certa vez, em uma loja de roupas. Entediado (como sempre fico ao comprar vestimentas, sapatos, etc.), comecei a observar tudo: as imagens de praias e viagens exóticas nas paredes e estampas das camisas, a trilha sonora com uma música eletrônica que falava de festejar e curtir a vida, as vendedoras com sorrisos de dentes brancos, as roupas caras que serviam como distinção de classe. Foi ali que tive a epifania do simulacro: para a classe média, não é necessário ter o real, a experiência genuína. Basta a cópia, o símbolo.

Mesmo que não tenham dinheiro para ir à praia, basta incluir um banner litorâneo na parede de uma loja. Aquilo já acalma os ânimos do cidadão burguês. Porque, mais que a praia, aquilo é um símbolo de distinção, e é esse símbolo que representa a excalibur buscada pelos cavaleiros da távola burguesa. Querem o brasão de excelência, assim como as famílias nobres da época do descobrimento do Brasil. A pulseirinha escrito “Salvador, BA”, a camisa importada, o celular que custa quatro dígitos — tudo isso (e mais uma miríade de marcas e símbolos) servem como símbolos de distinção, através não mais do sobrenome, mas da ostentação consumista.

Quando alguém diz que nosso universo capitalista se configura como uma Matrix (aludindo ao filme com Keanu Reeves), vale recordar que, em determinada cena, o personagem Neo guarda as chaves de programas de paraísos artificiais dentro do livro Simulacros e Simulação, de Jean Baudrillard. De fato, toda a filosofia por trás da trilogia dos irmãos Wachowski remete à ideia dos simulacros.

Michel Temer: De parnasiano a mordomo de filme de terror

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Voltemos aos presidentes. Apesar da ausência de carisma e de projetos para o país, Michel Temer é muito mais eficaz em oferecer às classes médias um simulacro de dirigente da nação. A imagem que projeta é a de pessoa séria, ponderada, e, acima de tudo, letrada. Há um mês, quando gravações de áudios entre Dilma Rousseff vazaram para a imprensa, sua assessoria divulgou em nota que, na fala de Temer “não tem palavrão, baixaria, não tem negociata, nem compra de deputados. O que tem é um homem equilibrado, consciente e antenado, falando com os seus mais próximos colaboradores”.

Contribui para essa imagem o fato de que o peemedebista publicou, em 2013, um livro de poemas chamado Anônima Identidade. Em uma crítica da obra feita para o Caderno Proa do jornal Zero Hora, o jornalista Carlos André Moreira analisa os escritos de Temer, categorizando sua obra através de adjetivos nada elogiosos (opinião compartilhada por diversos outros críticos literários). Algumas de suas frases:

ao contrário de sua condição na política e no Direito, na poesia, o presidente interino da República definitivamente não é do ramo”.

É surpreendente que versos tão tributários de conquistas contemporâneas possam soar tão velhos”.

Falta transcendência artística ao resultado, transformando-os em minicontos apressados”.

Contudo, o que nos chama a atenção são os comentários de internautas depois do texto:

Desde que ele não saúde a mandioca ou estoque vento, pra mim tá ótimo”.

Finalmente existe algum ‘conteúdo’ a ser analisado. Além de doutor em direito, o presidente interino, se arrisca como poeta”.

Fica bem evidente aqui a noção do simulacro: o exercício da atividade literária (prática historicamente tida como fator de status, destinada apenas às elites letradas), o uso do vocabulário formal, o título acadêmico. O “conteúdo” a ser analisado não é o mais importante (não à toa, o termo se encontra entre aspas).

Contudo, apesar da projeção de tal imagem detalhadamente arquitetada por seus marqueteiros, o povo conseguiu captar os símbolos que Temer emana para além de sua máscara predileta. O primeiro a dar forma à esse lado negro do vice decorativo foi o saudoso (só que não) Antônio Carlos Magalhães, que, nos anos 90, disse que Temer parecia “um mordomo de filme de terror”.

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Após o golpe do impeachment, os memes da internet passaram a explorar esse imaginário, associando-o à personagens vampirescos como o Conde Drácula, e outros. Em termos arquetípicos, podemos notar que essa “sombra” — tão distante da imagem culta que Temer tenta projetar — nos traz informações relevantes. Um ser sem alma, cadavérico, sem essência (assim como o que Moreira traz sobre seus poemas, compostos de palavras vazias); porém existindo através da casca vazia de um Conde, alguém que, mesmo morto-vivo, angaria um título monárquico.

Seus discursos e mesmo seu projeto podem ser entendidos nessa mesma simbologia, compondo-se de palavras familiares ao positivismo mais arraigado, aparentemente dotadas de autenticidade e racionalidade, mas desprovidas de conteúdo, de essência, de vida. Como o Conde Drácula.

Apêndice 1: língua morta e língua viva

Ainda assim, a pretensão não cumprida do parnasianismo temeriano acaba satisfazendo os anseios da classe média tradicional pelos simulacros. Tudo isso passa longe da valiosa influência da oralidade e da linguagem coloquial na literatura brasileira. Lembremos que Grande Sertão: Veredas — talvez o maior romance brasileiro (e o que mais se aproximou da Ilíada ou de Dom Quixote nessas plagas) — é todo construído através da musicalidade oral. E não apenas isso, mas se apropria e adapta falares dos ambientes rurais, ou seja, das margens da sociedade brasileira.

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Outros autores sertanejos, como Ariano Suassuna, são idolatrados e estudados em universidades francesas e americanas. E um exemplo ainda mais notável nesse sentido vem de Patativa do Assaré, um poeta e cantador nordestino também idolatrado no exterior, mas que passou toda a vida como agricultor em Cariri, interior do Ceará. Diferente de Rosa e Suassuna, Patativa sequer passou pelo estudo formal.

Esses exemplos surgem aqui para nos lembrar que esse apreço pelo formalismo da língua e pelo vocabulário rebuscado é algo próprios das elites brasileiras desde sempre. E, além da ausência das regras convencionalizadas como “corretas”, caso uma fala apresente sotaque de regiões mais ao norte do país, o repúdio é ainda maior.

Em obras como Preconceito Linguístico, do pesquisador e professor Marcos Bagno, temos acesso à teorias que desconstroem esse imaginário elitista. Afinal, em diversas manifestações populares — como o rap, o hip hop, grafites e pichações, repentes e poemas variados –, é possível encontrar elementos ricos no sentido da semântica, da coerência, e mesmo em relação à renovação de potenciais linguísticos. É no dia a dia e no contexto da oralidade que a língua se cria e recria.

Luiz Inácio Lula da Silva: o imaginário em torno do PT

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Toda a simbologia em torno de Lula, Dilma e do PT parece ofensiva aos desejos de simulacros expressados pela classe média. Crê-se que ambos falam tecnicamente errado — ele, por se apropriar de um vocabulário coloquial distante dos maneirismos acadêmicos; ela, por ser uma oradora irregular que volta e meia se perde nas palavras. Mesmo quando Lula mostra que sua retórica é acima da média (a entrevista que o ex-presidente dá à Roberto D’Avila na Globonews é uma aula de oratória), o que se associa a ele é uma ideia de malandragem, de lábia, de enrolação.

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O próprio termo “petralhas” possui enorme carga pejorativa. Trata-se de uma mistura de “petistas” com algo que soa como os “irmãos metralha”, personagens da Disney que eram presidiários fugitivos, com camisas listradas (não à toa, proliferam diversos memes na internet em que os petistas, sobretudo Lula, aparecem com roupas listradas e uma bola de metal amarrada às pernas).

Ou seja, logo que começa a se investigar o processo do mensalão, a máquina midiática rapidamente elabora diversos símbolos desfavoráveis para se atrelar aos petistas, principalmente à Lula, alvo maior da plutocracia. Em termos semióticos, elabora-se, antes mesmo da acusação, o mito do “presidiário” — o que não deixa de significar uma prisão simbólica, e que acaba por projetar uma espécie de destino ou profecia fatalista que muitos opositores carregam como utopia mais cara.

Apêndice 2: a imagem do país para o mundo

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A discrepância entre a maneira de Lula e Temer se comunicar também pode ser detectada na política externa exercida por cada um — só que pelos motivos opostos. Enquanto o primeiro tinha o esclarecido e preparado Celso Amorim como chanceler, Temer escolhe para o cargo o tucano José Serra, pessoa que, há alguns anos, acreditava que nosso país se chamava “Estados Unidos do Brasil” (sic).

Dilma Rousseff: A inabilidade como qualidade

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Dilma é outro caso. Sua inabilidade em articular e mesmo em discursar são notórias, explícitas. Mesmo correligionários e apoiadores do PT tem dificuldade em defender sua gestão, repleta de erros e estratégias malfadadas. Contudo, a construção simbólica da imagem da Presidenta se revela interessante sobretudo por seu fracasso.

Rousseff, que tem um perfil técnico e sempre atuou nos bastidores da política, teve que ir para a ribalta depois que o PT se viu sem nomes para as eleições de 2011. Sua sisudez e inflexibilidade tornou difícil a tarefa de criar uma personalidade palatável para o grande público. Ainda assim, assessorada por Lula (o melhor cabo-eleitoral que alguém poderia querer), conseguiu até mesmo se reeleger.

Mas um dos símbolos que não conseguiu agarrar Dilma é o dos “petralhas”. Não só não há denúncia de corrupção palpável e provada contra a Presidenta eleita, como também a maior parte da população — mesmo entre os que a rejeitam — não acredita que se trata de pessoa corrupta. Outra característica digna de nota é sua capacidade de resistência, sua recusa em renunciar, o discurso firme e constante na reta final do impeachment. Apesar do fracasso em sedimentar uma imagem pública bem sucedida do ponto de vista comunicativo, algumas de suas qualidades transbordam e são captadas pelas pessoas.

Darcy Ribeiro dizia que seus fracassos eram suas vitórias, e ele detestaria estar no lugar de quem o venceu. Da mesma forma, em um mundo tomado pelos simulacros, pode-se pensar que o fracasso de Dilma em erigir uma artificial imagem pública é admirável. Afinal, ser deposta por um congresso de tantas pessoas de caráter questionável seria algo para se lamentar? Será que o fracasso do impeachment não seria a vitória de sua integridade?

Claro que é sempre importante mencionar que os mandatos de Dilma foram marcados por erros gravíssimos, como a construção de Belo Monte, projetos equivocados na questão da previdência, a tipificação de terrorismo para alguns tipos de protesto, o veto à auditoria da dívida pública — só para ficar em poucos exemplos.

Apesar de tudo isso, o processo do impeachment coloca Dilma como uma figura histórica muito mais importante, e nem tanto pela competência política, mas pelas implicações simbólicas que surgem. A primeira presidenta eleita no Brasil, hostilizada, tirada injustamente, que resistiu às torturas da ditadura militar, ao machismo, aos ataques do congresso do século XXI.

Caso este seja o último capítulo de sua carreira política, Rousseff passa a ocupar um espaço importante dentro do imaginário popular. E o mérito é quase todo dos golpistas.

*

Agradecimentos ao amigo Gabriel Oliveira pela revisão e pelas sugestões no parágrafo sobre a política externa.

Notas

1- Denominação cunhada pelo historiador e professor da UFMG Dr. Luiz Henrique Assis Garcia.


Rafael Senra

Já escreveu de romances até artigos acadêmicos, mas publicou pouco. Seu livro Dois Lados da Mesma Viagem é sobre Milton Nascimento, com prefácio de Fernando Brant. Fez uma graphic novel, Balada Sideral. Também mexe com poesias e composições. Adora gatos, rock progressivo e pesquisa contos de fadas. É Doutor em Letras pela UFJF..
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