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Reflexões de um cidadão honorário de Pasárgada

Rafael Senra

Já escreveu de romances até artigos acadêmicos, mas publicou pouco. Seu livro Dois Lados da Mesma Viagem é sobre Milton Nascimento, com prefácio de Fernando Brant. Fez uma graphic novel, Balada Sideral. Também mexe com poesias e composições. Adora gatos, rock progressivo e pesquisa contos de fadas. É Doutor em Letras pela UFJF.

Como acreditar nas pessoas depois de Junho de 2013?

Alguns dos meus motivos para tentar.


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Cada vez mais, em se tratando de política, volto-me para as causas, e não para as pessoas. Para os temas, os fatos, os dados – em vez dos supostos culpados. E isso não vale apenas para os protagonistas dos eventos, sejam presidentes, ex-presidentes, parlamentares em exercício, ou não... vale também para as pessoas comuns, para pessoas próximas, amigos, parentes.

O pior que o Brasil pós-2013 revelou, na minha opinião, foi essa condenação e esse julgamento moral que todos começaram a fazer contra todos. A escalada do ódio cotidiano chegou a um ponto onde criaram-se cruzes e calabouços e pelourinhos (simbólicos ou não) sem que os pecados fossem sequer discutidos.

"Fulano de esquerda que discute com o de direita que detesta o comunista que brigou com o liberal que não entendeu e não quer saber do social democrata que deseja o mal do..." (dízima periódica)

É por esse tipo de infantilidade (na qual eu e maioria de nós já recorreu, uma, duas ou várias vezes) que esse país travou. Porque ficamos buscando eleger culpados, e esquecemos de olhar para os fatos, para as causas. Com objetividade.

Hoje, dia 31 de agosto, dia da votação do impeachment, minha timeline do facebook volta a exibir as brigas imbecis que se tornaram comuns depois das Jornadas de Junho. E muita gente acusando uns aos outros – “você afundou o Brasil”, “não foi você!”, “seu isso”, “você que é”, e imagine aqui as situações e palavrões da sua preferência (brincadeira, melhor não). É um cenário que pode levar a gente a desistir da humanidade.

Bem, eu não sei como dizer isso sem parecer tolo ou sem o risco de ser mal interpretado, mas: eu não quero desistir da humanidade. Eu acredito nas pessoas.

Pois é. No sentido até místico da coisa. Acho que, no fundo, todos nós queremos algo bom. Como disse Jung (eu acho), estamos fadados a encontrar aquilo que nos é mais precioso – chamem de Deus, de Nirvana, de êxtase, iluminação... são vários nomes, afinal a meta transcendente tem versões para crentes, agnósticos e até para ateus (via psicologia transpessoal e outras áreas).

Alguns sabem como buscar essa meta transcendente, outros optaram por caminhos cheios de desvios, e há os que estão perdidos, e até mesmo os que juram que chegarão lá caminhando na direção errada. É todo tipo de caso, e alguns talvez não tenham solução.

Mas, como eu disse, não me importo com os fatos aqui. Não me importo se fulano tem ou não tem solução. Não quero "solucionar" ninguém, e nem achar nada sobre os outros. Eu sou o que para julgar o outro? Eu não sou ninguém! Eu sou poeira cósmica, um monte de átomos que se reuniu por um curto período de tempo, e que vai se desintegrar no piscar dos olhos de Cronos!

Eu não conheço a história de vida dos outros. E olha que as pessoas como eu, que nasceram em cidades pequenas, acham que conhecem a história dos outros... hah (gargalhada irônica de vilão de desenho animado)! Sabemos nada!

Como dizia um amigo muito querido, “os seres humanos são xucros”. Foi uma das melhores definições que já ouvi, de invejar qualquer grande literato desses que posaram para pinturas renascentistas e neorafaelitas. Acredito nisso. Assim como acredito nos seres humanos, acho que somos xucros.

Não quero julgar, criticar e apontar o dedo para os outros, porque não quero perder o fluxo da vida. Ao gastar energia em odiar, em guardar mágoa e rancor do outro, em brigar com o outro, minha vida vai travar. Isso não é saudável. Ok, eu e todos nós somos xucros, mas acredito nas pessoas. As pessoas não são o grande problema.

Mas e os partidos políticos? Por trás deles, há pessoas. Cada uma com uma história de vida, e uma maneira de buscar sua meta transcendente. As vezes o roubo, o jeitinho, o desvio, o golpe, é a maneira talvez bizarra e absurda do outro buscar a sua meta transcendente. Eu não quero julgar essas pessoas. Talvez o faça sem querer (mentira, eu sou xucro e vou acabar julgando, mesmo que lá no fundo), mas, independente disso, o que cultivo para mim como sendo importante são os fatos. Os dados, objetivos. As ações, não os partidos.

É por isso que tenho sistematicamente criticado algumas figuras que já apoiei, e mesmo que votei. Não é porque apoiei um político que eu acredito que ele seja menos xucro, ou vai deixar de ser xucro. Esse é um planeta de xucros. Você vacila um pouquinho e... ops, fez burrada.

Em cada espectro ideológico, vocês encontrarão uma fartura de erros. Erro de esquerda, erro de direita, tem uma rosa dos ventos toda de erros. E são esses erros – e a possibilidade de corrigí-los – que me interessa.

Hoje e daqui em diante, não contem comigo para brigar com amigos, parentes e pessoas próximas. O fluxo da vida vale mais do que a discórdia. Como dizem os budistas, o erro mais grave que uma pessoa pode cometer é agir contra a “sangha” (termo que pode ser traduzido como “comunidade”). Eu acredito nisso, e não vou agir contra a comunidade. Prefiro evocar aqui Caetano, quando diz que “gente é para brilhar” – um dos mantras mais belos do nosso cancioneiro.

Então, para fechar: o ódio entre os comuns acaba por ferir a sangha, e também frear o fluxo da vida. Eu fico com os fatos, e a busca por maneiras de resolvê-los. Quanto as pessoas que os cometeram, os agentes, isso não me interessa. Eu não sou um deus capaz de julgar os outros com exatidão.

E eu não sei se tenho estatura de caráter ou de espírito para cumprir isso que considero ser o certo. Mas não vou desistir de tentar. É isso para hoje. Fiquem bem e muita luz e amor na vida de vocês.


Rafael Senra

Já escreveu de romances até artigos acadêmicos, mas publicou pouco. Seu livro Dois Lados da Mesma Viagem é sobre Milton Nascimento, com prefácio de Fernando Brant. Fez uma graphic novel, Balada Sideral. Também mexe com poesias e composições. Adora gatos, rock progressivo e pesquisa contos de fadas. É Doutor em Letras pela UFJF..
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