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Reflexões de um cidadão honorário de Pasárgada

Rafael Senra

Já escreveu de romances até artigos acadêmicos, mas publicou pouco. Seu livro Dois Lados da Mesma Viagem é sobre Milton Nascimento, com prefácio de Fernando Brant. Fez uma graphic novel, Balada Sideral. Também mexe com poesias e composições. Adora gatos, rock progressivo e pesquisa contos de fadas. É Doutor em Letras pela UFJF.

David Bowie, um inovador subjetivo

David Bowie é chamado de inovador, mas não inventou nada. Além do talento, é a maneira como ele elaborou sua obra (e a si mesmo) que lhe garantiu um espaço privilegiado no panteão da música pop mundial.


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No início de 2016, a morte repentina de David Bowie - logo após lançar seu impecável canto do cisne, Blackstar - deixou o universo da música pop em choque. No calor do momento, críticos e fãs não tardaram a chamá-lo de gênio, o que, a princípio, parece bem razoável e até merecido. Entretanto, essa noção entraria em conflito com uma outra noção comum na história das artes, que é a de se atribuir genialidade sobretudo à aqueles que antecipam tendências. Aos que vêem algo antes dos outros. Numa guerra, os gênios seriam os batedores, e não os generais.

Se levarmos esse aspecto em conta, concluímos que Bowie não parece um inovador, já que ele aparentemente não inventou nada, não antecipou nenhuma tendência. Em toda sua carreira, ele não trouxe novidades objetivas - não fez rap antes dos outros, nem rock, nem disco. A única inovação que ele trazia eram suas mudanças de visual e estilo - mas essas são mais sincrônicas que diacrônicas.

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É bom lembrar que Bowie também era pintor, e até mesmo colaborador editorial de importantes revistas de arte. Em uma entrevista dos anos 80, ele disse que só entrou na música por acreditar que essa era a grande expressão artística do séc.XX. Do contrário, teria investido nas artes visuais. Enfim, apesar da sua escolha, creio que ele era um músico que continuava pensando como pintor. Seu interesse não era descobrir cores novas, mas sim experimentar com as paletas já existentes. Buscava texturas, cores compostas, panoramas, perspectivas. Não era um profeta, mas um visionário.

Enquanto vários músicos produzem inovações objetivas (gente como Miles Davis ou Frank Zappa), Bowie vai por uma outra direção, e talvez possamos chamá-lo de inovador subjetivo. Em Zappa ou Miles, podemos apontar objetivamente em quais aspectos suas músicas foram geniais. Mas o mesmo fica difícil para Bowie. Dizer que ele era um ótimo cantor, ou ator, ou compositor, diz mais sobre seu talento multifacetado do que sobre genialidade.

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O ouro do camaleão está na maneira como ele elabora e conceitua seus trabalhos. Tem uma assinatura autoral amarrando todo o processo, algo temperado com um rigor que não é técnico, mas de outra ordem, mais interior. Bowie era um visionário de estruturas estéticas, e fazia pintura com elas. Além de ser intermidiático, uma vez que, através da música, ele veiculava interesses visuais, corporais, performáticos, poéticos.

Os profetas nem sempre são agraciados com a justiça. Muitos inovadores objetivos, como Miles, Jaco Pastorius, Zappa, Woody Guthrie, etc., foram esquecidos, ou pelo menos não foram lembrados adequadamente.

Os visionários, porém, costumam ser mais lembrados, por serem aqueles que burilam e aprimoram o já conhecido. Gente como Lennon e McCartney, Peter Gabriel, Chico Buarque, Bob Dylan. E Bowie.

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*Texto originalmente publicado no perfil de facebook do autor, em 12 de janeiro de 2016.


Rafael Senra

Já escreveu de romances até artigos acadêmicos, mas publicou pouco. Seu livro Dois Lados da Mesma Viagem é sobre Milton Nascimento, com prefácio de Fernando Brant. Fez uma graphic novel, Balada Sideral. Também mexe com poesias e composições. Adora gatos, rock progressivo e pesquisa contos de fadas. É Doutor em Letras pela UFJF..
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