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Reflexões de um cidadão honorário de Pasárgada

Rafael Senra

Já escreveu de romances até artigos acadêmicos, mas publicou pouco. Seu livro Dois Lados da Mesma Viagem é sobre Milton Nascimento, com prefácio de Fernando Brant. Fez uma graphic novel, Balada Sideral. Também mexe com poesias e composições. Adora gatos, rock progressivo e pesquisa contos de fadas. É Doutor em Letras pela UFJF.

E jazem as máscaras na colina da indecisão

Antes de construir uma das mais bem sucedidas carreiras musicais do séc. XX, Peter Gabriel chegou a arriscar sua reputação, suas finanças, seu casamento, e até mesmo a sua vida.


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Em 1973, a banda de rock progressivo Genesis, liderada pelo carismático Peter Gabriel, era um dos grandes nomes em seu estilo. O disco Selling England By the Pound foi sucesso de crítica e público, alcançando o primeiro lugar nas paradas de sucesso da Inglaterra (discos com músicas de 20 minutos ou mais chegando ao número 1? Eram outros tempos). Pouco depois, a banda chega em 1974 com o pretensioso The Lamb Lies on Broadway, disco duplo e conceitual, que narrava a história de um imigrante porto-riquenho dividido entre conseguir um pé de meia na América e uma jornada interior psicodélica/paranoica. Sucesso de crítica, boa colocação nas paradas, uma turnê bem sucedida pelos EUA... Tudo tranquilo e favorável, certo?

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Mas não: eis que Peter Gabriel decide sair da banda. Assim como Rael (personagem principal de The Lamb, e um pseudoanagrama do sobrenome de Peter), durante os anos seguintes o cantor tentaria construir uma carreira e, ao mesmo tempo, lidar com pepinos enormes em sua vida pessoal. Deu tudo certo no fim, mas até hoje não é difícil encontrar fãs que questionam a polêmica decisão de abandonar o Genesis. Afinal, a alquimia entre Gabriel e seus antigos colegas aliava qualidade musical e uma ótima repercussão entre o público em geral.

Para nós, que pensamos em tudo isso a partir do presente, a busca de Peter Gabriel é apenas mais uma inspiradora história de superação. Contudo, se fizermos o exercício de ignorar tudo o que se passou depois em sua carreira, fica evidente a enorme coragem do cantor em se arriscar numa carreira solo.

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Bem diferente de seu ex-colega de banda Phil Collins, que, ao saltar na acrobacia que o levaria ao disco Face Value, dispunha de uma enorme tela de segurança. Afinal, em 1981, Collins ainda fazia parte do Genesis, e decidiu se arriscar em um trabalho solo, gravado parcialmente em casa, sem nenhuma pretensão de sedimentar uma carreira paralela. Para sua surpresa, porém, o trabalho vendeu horrores, e houve uma pressão para que continuasse gravando solo. Já Gabriel teve que construir tudo do zero, sozinho, e assumindo para si toda a responsabilidade e todo o risco.

Sua primeira declaração sobre a saída do Genesis veio através de sua arte. A letra de Solsbury Hill é muito clara nesse sentido:

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Para continuar em silêncio, eu renunciei / Meus amigos pensariam que eu era um louco / Transformando água em vinho / Abrindo portas que em breve seriam fechadas / E fui de um dia para outro / Embora minha vida fosse uma rotina / Até que eu pensei sobre o que iria dizer / Qual ligação eu deveria cortar / Eu estava me sentindo parte do cenário / Eu abandonei o maquinário / O meu coração fez bum, bum, bum / Ele disse "oi" : "pegue suas coisas / Eu vim te levar para casa."

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Além do nome de anjo, a visão artística de Gabriel no Genesis vez ou outra se fartava do imagético bíblico (o próprio nome da banda não nega a intenção). A faixa Supper’s Ready, por exemplo, tinha trechos do livro do Apocalipse e do livro de Ezequiel, além de personagens como Magog, filho de Jafé. Agora, em Solsbury Hill, ele dizia que iria transformar “água em vinho”, aludindo ao primeiro milagre do Cristo. Era a maneira do artista dizer que agora se inaugurava uma nova fase em sua carreira. Assim como o Messias, agora ele estaria por sua própria conta, e, caso o crucificassem, que os pecados a serem cobrados fossem inteiramente seus.

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A imensa gama de personagens e máscaras encarnadas por Gabriel nas canções do Genesis lembrava as personas de outros artistas pop como David Bowie, com seus Alladin Sane e Ziggy Stardust. E, da mesma forma que o camaleão, Peter sentiu que era hora de assumir algo legitimamente seu. Em vez de se sentir “parte do cenário”, agora ele “abandonava o maquinário” genesiano.

Sua estréia se deu no álbum Peter Gabriel I (também chamado de Car), de 1977. Seu elo com o universo progressivo parecia nítido quando observamos a colaboração do guitarrista Robert Fripp (eterno líder da banda King Crimson). Porém, Gabriel foi um dos muitos que anteciparam a falência de popularidade e protagonismo que o prog rock rapidamente alcançaria.

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Enquanto boa parte dos “medalhões” prog tentavam meio que “na marra” insistir com seu virtuosismo instrumental ao longo dos anos 70 – o maior exemplo disso vem da indulgência do ELP em seu disco triplo Works –, uma outra ala resolveu seguir direções menos previsíveis. É possível incluir nesse segmento gente como o próprio Gabriel, Robert Fripp, ou Peter Hammill, que, ao mesmo tempo que se despojavam do instrumental rebuscado da primeira metade dos anos 70, agora flertavam com um experimentalismo e uma desconstrução das regras; sem, contudo deixar de ser pop.

Esse ideário ia para além do pop – David Bowie, Roxy Music, Andy Summers e os Talking Heads são apenas alguns dos nomes que se colaboravam e influenciavam mutuamente. Os procedimentos que Peter Gabriel abraçou desde seu primeiro disco já antecipavam a pegada que iria desembocar na new wave dos anos 80. Era uma aposta do artista, e algo que se distanciava radicalmente dos clichês já cristalizados por ele mesmo em sua antiga banda. "Quando saí do Genesis (em 1975), jurei a mim mesmo deixar para trás todas as coisas associadas com meu trabalho no grupo, o violão de 12 cordas, por exemplo. O lado teatral também", disse Gabriel na época.

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Essa cisão não foi inaugurada por ele apenas em 1977. Anos antes, no já citado disco The Lamb Lies Down on Broadway do Genesis, o cantor tentou literalmente implodir a estética genesiana. Enquanto Mike Rutherford sugeriu que fizessem um disco conceitual sobre o clássico livro O Pequeno Príncipe (podemos imaginar toda aquela sonoridade espacial e bucólica de Selling England sendo aplicada em uma história assim), Gabriel propôs a ideia de uma ópera rock surtada. Em vez do seu antigo visual de pã-andrógino, agora o artista aparecia de cabelos raspados e roupas de couro (praticamente um punk em pleno 1974).

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Apesar da ousadia conceitual do projeto, o Genesis ainda era uma camisa de força apertada e consolidada demais para Peter Gabriel. Enquanto The Lamb era gravado, o vocalista subitamente viajou para os EUA para elaborar um roteiro e uma trilha sonora em parceria com William Friedkin – diretor que estava em alta por causa do filme O Exorcista. Mas a parceria fracassou, e, ao voltar para a Inglaterra, o frustrado Gabriel ainda teve que lidar com a gravidez problemática de sua esposa Jill Moore. É em meio a tantas adversidades que ele escala, enfim, a colina da indecisão – e lá do alto, consegue ouvir uma estranha voz:

Subindo em Solsbury Hill / Eu podia ver as luzes da cidade / O vento estava soprando, o tempo parou / A águia voou para fora da noite / Ele era algo a se observar / Chegou perto, ouvi uma voz / De pé, esticando cada nervo / Tinha de ouvir, não tive escolha / Eu não acreditei na informação / Eu só tive que confiar na imaginação / O meu coração fez bum, bum, bum / "filho", ele disse: "pegue suas coisas, / Eu vim te levar para casa."

Sua intuição dizia que era hora de arriscar outros caminhos. Um conselho mais amedrontador do que assistir O Exorcista em uma noite chuvosa... mas Gabriel preferiu confiar.

Se iniciaria ali uma carreira de altos e baixos. Pois, apesar de tantos bons momentos, a falta de sucesso comercial as vezes ameaçou colocar tudo a perder. Por sorte, ele poderia fazer como na canção dos Beatles, e pedir “uma pequena ajuda para os amigos”. Afinal, sua tensa saída da antiga banda não significou um rompimento pleno com os antigos companheiros (até porque A Trick of the Tail, primeiro disco do Genesis com o substituto Phil Collins, vendeu mais que qualquer outro disco com o antigo vocalista). O próprio Collins assumiu as baterias de diversos trabalhos solo de Gabriel.

Mas o pior aconteceria em 1982, quando Peter se vê subitamente falido por ter financiado o festival WOMAD (a ponto de ser ameaçado de morte pelos credores do festival). Novamente, o vocalista é salvo por seus camaradas. O empresário do Genesis, Tony Smith, sai em defesa de Gabriel, incentivando um breve retorno da formação clássica da banda para um show chamado Six of the Best. Todo o dinheiro arrecadado não apenas salva a vida e a carreira do músico, mas também o futuro de sua gravadora Real World.

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Em 1986, o disco So consolida definitivamente sua carreira solo, e Peter Gabriel passa a ser um grande nome da música mundial de todos os tempos. Os sucessos Sledgehammer, Big Time e In Your Eyes inscrevem de vez a sua marca na história do pop.

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Porém, antes mesmo que isso acontecesse, ainda nos anos de vacas magras, aquele jovem músico vindo da cidade inglesa de Chobham já deixava claro que não se arrependeria diante de nenhuma adversidade:

Quando a ilusão fia a sua rede / Eu nunca estou onde quero estar / E a liberdade faz piruetas / Quando penso que estou livre / Observado por silhuetas vazias / Que fecham seus olhos mas que ainda podem ver / Ninguém lhes ensinou etiqueta / Vou mostrar um outro eu / Hoje eu não preciso de um substituto / Eu lhes direi o que o sorriso no meu rosto significa O meu coração fez bum, bum, bum / "ei" eu disse: "você pode guardar minhas coisas, / Eles chegaram pra me levar em casa."

As silhuetas vazias de suas antigas fantasias de flor ou de anjo do Apocalipse agora estavam definitivamente aposentadas num cabide de museu. O “outro eu”, que o público ainda não conhecia, era nada mais nada menos que o verdadeiro Peter Gabriel, longe das redes fiadas pela ilusão, agora em seu “real world” – ou seja, agora em casa.

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Fontes:

http://consultoriadorock.blogspot.com.br/2011/08/maravilhas-do-mundo-prog-genesis.html

http://taratitaragua.blogspot.com.br/2012/03/peter-gabriel-1986.html

https://pt.wikipedia.org/wiki/Peter_Gabriel

http://whiplash.net/materias/cds/226009-genesis.html


Rafael Senra

Já escreveu de romances até artigos acadêmicos, mas publicou pouco. Seu livro Dois Lados da Mesma Viagem é sobre Milton Nascimento, com prefácio de Fernando Brant. Fez uma graphic novel, Balada Sideral. Também mexe com poesias e composições. Adora gatos, rock progressivo e pesquisa contos de fadas. É Doutor em Letras pela UFJF..
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