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Reflexões de um cidadão honorário de Pasárgada

Rafael Senra

Já escreveu de romances até artigos acadêmicos, mas publicou pouco. Seu livro Dois Lados da Mesma Viagem é sobre Milton Nascimento, com prefácio de Fernando Brant. Fez uma graphic novel, Balada Sideral. Também mexe com poesias e composições. Adora gatos, rock progressivo e pesquisa contos de fadas. É Doutor em Letras pela UFJF.

Erros e acertos das políticas educacionais brasileiras nos últimos 13 anos: uma opinião

Se considerarmos o investimento histórico na educação, muito foi feito nos mandatos de governos petistas. Porém, além de ser pouco diante do imenso deficit, também foi feito sem a logística adequada.


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Se o PT tivesse investido para valer na educação básica, como alertou Frei Beto lá atrás, o país estaria bem melhor agora em diversos sentidos. Mas alguns vícios de sempre permaneceram. No âmbito da educação superior, aumentaram-se as verbas, mas a infraestrutura permaneceu sucateada em boa parte das instituições e departamentos.

Alguns analistas dizem que o PT teria cumprido uma agenda semelhante a da Coréia do Sul, que tornou-se uma potência educacional investindo na educação superior. Nessa lógica piramidal, esperava-se que a formação de profissionais capacitados iria despejar nas escolas de ensino médio e fundamental pessoas com um know-how significativo. Mas, ao chegar nas escolas públicas, os profissionais se deparam com diretorias reativas, alunos completamente desinteressados, salários ridiculamente baixos, uma falta de estrutura surreal. Sem contar a falta de diálogo e de apoio do Estado.

Então, a grosso modo, fico com a impressão de que a contribuição desses 13 anos nas universidades envolveu projetos feitos a toque de caixa, e, a despeito das oportunas políticas de inclusão e das cotas, alguns setores não foram devidamente aprimorados.

Antes mesmo do golpe, uma série de revistas acadêmicas perderam seu qualis por não se indexarem adequadamente. Os projetos de extensão - algo que me parece vital em um país de terceiro mundo - continuaram no rodapé da atividade acadêmica. Salas de aula sem data show e com equipamentos velhos é algo rotineiro. Falta de reajustes para os docentes. E por aí vai.

O fato é que a intelectualidade brasileira nunca havia vivenciado um apoio institucional na proporção que o PT promoveu. Justiça seja feita, devemos considerar que, em 500 anos de história de um país onde - diferente até mesmo de nossos vizinhos latinoamericanos - o descaso com as universidades sempre foi a tônica, o que foi feito é sim significativo. Isso ajuda a explicar o enorme suporte que mestres e doutores oferecem ao Partido dos Trabalhadores.

Mas, não foi algo capaz de preencher as seculares lacunas educacionais que temos. E nem parece ter sido pensado e praticado com a logística necessária. Frei Beto abandonou o PT justamente por vislumbrar o que teria sido uma má vontade em levar à cabo esse projeto com o comprometimento radical que era necessário.

Outro efeito colateral disso tudo é que, caso esse plano para a educação tivesse sido mais bem sucedido, muitos dos paneleiros e detratores do PT talvez estariam focados em críticas mais fundamentadas, democráticas - até mesmo por terem desfrutado de um entorno mais salutar no que concerne à possibilidades de educação. Em vez de irem para a rua passar vergonha e ajudar a jogar o país inteiro nessa situação deplorável, estariam talvez lendo e se informando melhor.


Rafael Senra

Já escreveu de romances até artigos acadêmicos, mas publicou pouco. Seu livro Dois Lados da Mesma Viagem é sobre Milton Nascimento, com prefácio de Fernando Brant. Fez uma graphic novel, Balada Sideral. Também mexe com poesias e composições. Adora gatos, rock progressivo e pesquisa contos de fadas. É Doutor em Letras pela UFJF..
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