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Reflexões de um cidadão honorário de Pasárgada

Rafael Senra

Já escreveu de romances até artigos acadêmicos, mas publicou pouco. Seu livro Dois Lados da Mesma Viagem é sobre Milton Nascimento, com prefácio de Fernando Brant. Fez uma graphic novel, Balada Sideral. Também mexe com poesias e composições. Adora gatos, rock progressivo e pesquisa contos de fadas. É Doutor em Letras pela UFJF.

Feminismo e contos de fadas: a trajetória da brasileira Madame Chrysanthème

A história de uma autora brasileira do período da Belle Epoque, que, há mais de cem anos atrás, escrevia sobre feminismo e contos de fadas ambientados no Brasil.


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Em 1916, foi publicado na Inglaterra o livro The Black Princess, and other fairy tales from Brazil - "Contos para Crianças." Além do fato inusitado envolvendo uma temática de contos de fadas ambientados no Brasil, é digno de nota mencionar que é uma obra escrita por uma mulher, e, não apenas isso, mas uma brasileira, com o pseudônimo de Madame Chrysanthème – o que torna tudo ainda mais interessante.

Para entender a trajetória dessa autora, retornemos ao Brasil do início do século XX, em um período bem complicado no campo da escrita feminina. Enquanto os homens podiam desenvolver sua produção artística para uma infinidade de temas, às mulheres era permitido apenas escrever sobre assuntos domésticos, mais amenos, geralmente com um foco de gênero bem recortado. Mulheres deveriam se comunicar apenas com mulheres.

Em 1870, nasce Cecília Moncorvo Bandeira de Melo Rebelo de Vasconcelos, filha de uma escritora chamada Emilia Moncorvo Bandeira de Mello. A mãe, Emília, ficou conhecida pelo pseudônimo de Carmem Dolores, apesar de ter usado vários outros nomes como Júlia de Castro, e até mesmo um pseudônimo de gênero neutro: Leonel Sampaio.

Nos interessa falar sobre Cecília, a filha, autora de The Black Princess. Mas antes, notemos um trecho escrito por sua mãe, Emília (Carmem Dolores) em 1908, que mostra como a escrita questionadora dos padrões de gênero da mãe iria influenciar a produção de sua filha anos depois:

"(...) se o sou, escrevendo o que escrevo sem a mínima pretensão e jamais analisando o meu papel; e não me envergonho porque, quando a adversidade bateu à minha porta, não me perguntou se eu era mulher ou homem, confreira ou confrade do Sr. Laet: aconselhou-me apenas que eu usasse da faculdade que mais viva se encontrava no meu cérebro, para ganhar o meu pão e o da minha família".

Cecília morava na Rua Assis Bueno, no 146, no bairro de Botafogo (RJ). Ao iniciar sua carreira na escrita (publicando no jornal A Imprensa, a partir de 1907), escolheu um inusitado pseudônimo: Madame Chrysanthème, ou simplesmente Chrysanthème. A escolha veio de um romance chamado Mme Chrysanthème, publicado em 1887 pelo francês Pierre Loti.

A obra de Chrysanthème é vasta, e, apesar de ser muito pouco estudada, pertence ao acervo da Biblioteca Nacional. De acordo com a pesquisadora Maria de Lourdes de Melo Pinto, além de crônicas em jornal, "há contos infantis, romances biográficos, históricos e bufos, peças de teatro e crítica literária" (p.126).

Além do esquecimento, a autora foi menosprezada pela crítica de sua época. Em um texto de Agripino Grieco publicado em 1933, o crítico discute: "Depois de escrever lindas histórias para crianças, analogas as dos Srs. Carlos Lerbeis, Alarico Cintra e Carlos Manhães, Mad. Chrysanthème entrou a escrever livros meio escandalizantes. Passou a pôr venenos borgianos nas compotas de manga de cajú".

Apesar de sua vasta obra, a notoriedade social de Chrysanthème se deveu (como acontece com tantas mulheres até hoje) à sua pública relação amorosa com um jornalista e político influente da época, Alcindo Guanabara.

Na atualidade, a obra de Chrystanthème tem sido estudada com outro olhar, e revalorizada através de uma crítica já preocupada com a delicada questão das produções de gêneros e minorias. Para José Pedro Toniosso e Mariângela Alonso, os escritos da autora " mantêm a força e a atualidade dos primeiros tempos, no sentido de rastrear a má distribuição per capita, a miséria, a seca, as guerras, o desemprego, a transformação do espaço urbano e principalmente a condição feminina, temas de alguns dos textos escritos por esta intrigante autora no início do século XX" (p.46).

Na área da literatura infantil, publicou os livros Contos para Crianças (1906) e Contos Azuis (1910) - este último reunindo contos maravilhosos outrora publicados de maneira esparsa em publicações escolares.

Sobre a produção infantil de Chrysanthème, notamos que, diferente de seus romances posteriores (mais questionadores a respeito de questões sociais no Brasil), seus livros infantis tiveram um caráter mais pedagógico. De acordo com Rosa Maria de Carvalho Gens, “são obras que representam perfeito documento da inscrição ideológica das questões da época, em que o feminino deveria se subordinar ao masculino, e as crianças, reproduzir o adulto” (2002).

Em 1916, dez anos depois de Chrysanthème ter publicado Contos para Crianças, seu livro é publicado em Londres pela editora Simpkin, Marshall, Hamilton, Kent & Co. Ltd. Em algumas edições, o pseudônimo da brasileira foi substituído pela alcunha (mais britânica) de Christie T. Young. E, nessa republicação, o nome da obra assumiu um título mais pomposo, bem à moda das publicações infantis da Era de Ouro dos Livros Infantis: The Black Princess and Other Fairy Tales from Brazil.

O aspecto exótico por trás da evocação a um país tropical também deve ser mencionado. Apesar das ilustrações de Florence Mary Anderson (1874 – 1930) adotarem a típica estética "europeizada" da belle epòque, com forte acento da art nouveau, alguns contos tem pressupostos que trazem um certo tempero brasileiro. Como o conto que batiza o livro, The Black Princess ("A princesa negrinha").

Fontes:

José Pedro Toniosso e Mariângela Alonso. Chrysanthème: perspectivas histórico-literárias na Belle Époque brasileira. In: Revista EPeQ/Fafibe, 1ª. Ed., vol.01.

Maria de Lourdes de Melo Pinto. Memória de autoria feminina nas primeiras décadas do século XX: a emergência da obra periodística de Chrysanthème. Tese de Doutorado (UFRJ, 2006).

Carmem Dolores. Lendas Brasileiras. Sá Editora, 2006.

Spirit of the Ages.

Nelly Novaes Coelho. Dicionário crítico de escritoras brasileiras: 1711-2001. Escrituras Editora, 2002.

Etiene Mendes Rodrigues. Bem do Seu Tamanho e Bento-que-Bento-é-o-Frade: da análise à sala de aula. Dissertação de mestrado (UFP, 2006).

Ilustração: extraída do conto The Legend of the Blue Forget-Me-Not ("Lenda da Myosotis Azul"). Por Florence Mary Anderson.

* Texto originalmente escrito para a página do facebook A Era de Ouro da Ilustração Infantil, em abril de 2015.


Rafael Senra

Já escreveu de romances até artigos acadêmicos, mas publicou pouco. Seu livro Dois Lados da Mesma Viagem é sobre Milton Nascimento, com prefácio de Fernando Brant. Fez uma graphic novel, Balada Sideral. Também mexe com poesias e composições. Adora gatos, rock progressivo e pesquisa contos de fadas. É Doutor em Letras pela UFJF..
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