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Reflexões de um cidadão honorário de Pasárgada

Rafael Senra

Já escreveu de romances até artigos acadêmicos, mas publicou pouco. Seu livro Dois Lados da Mesma Viagem é sobre Milton Nascimento, com prefácio de Fernando Brant. Fez uma graphic novel, Balada Sideral. Também mexe com poesias e composições. Adora gatos, rock progressivo e pesquisa contos de fadas. É Doutor em Letras pela UFJF.

Fragmentos de uma crônica sobre terras e raízes


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Mais que o descanso das férias, havia a saudade de meses sem visitar minha cidade natal. Ao dizer que Congonhas é minha terra natal, vou além da expressão, para dizer que o substantivo “terra” não é nada gratuito. Extraída nas minas que sustentam a economia local, a terra invade os outros elementos todos: acinzenta e abrejeia as águas dos lagos, viaja (sem pagar passagem) pelos ventos aéreos, e torna-se poeira em torno das máquinas produtoras de fogo – dos combustíveis automobilísticos até os fogões.

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Na casa dos meus pais, colunas de tijolos queimados sem verniz, troncos de árvore sem tratamento fazendo as vezes de mesas ou cadeiras, ausência de metal: a decoração é rústica. Apesar do padrão, no passado haviam pistas falsas espalhadas pelas paredes. Por exemplo: durante anos, o ponto central para se repousar os olhos na sala de visitas era um quadro, comprado em um shopping center da capital, que mostrava a pintura de uma paisagem européia. Uma serra azulada em volta de um lago plácido. Aquele quadro tornara-se parte da casa não por harmonia, mas pelos costumes que o tempo aclimatam.

Agora, meus pais trataram de substituir o clássico adorno por uma peça arredondada feita por uma amiga do sul de Minas, utilizando bambus e cascas de bananeira. Arte naif encantadora, produzida com ingredientes locais, retratando galhos e folhagens regionais. Essa singela imagem traz de volta todo o sentido da sala, da entrada da casa, da harmonia rústica de nossa morada.

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O pé de manga do jardim era mais velho do que eu, e representava o último vestígio da antiga floresta que compunha o terreno. Agora, sucumbiu à velhice e teve que ser enfim cortado. O que mais me estranhou foi a imensidão solar, pintando as paredes laterais da casa de um tom amarelado outrora inédito. Ao redor, a grama viçosa e os gatos friorentos agradeciam em silêncio.

Minha chegada em Congonhas foi permeada de vazios. Além da árvore ausente, uma tia muito querida cumpriu seu ciclo nesse mundo material e agora habita em outras paragens etéreas – trocou a poeira do minério pelo pó de estrelas. Penso muito nela, relembrando histórias e instantes. As vezes, quando cochilo, costumo acordar num sobressalto, inquietado pela sensação de que nunca mais ouvirei sua voz nem seus causos dos tempos de Casa de Pedra.

Para o bem ou para o mal, desde sempre o mundo clama que cada corpo animal, vegetal e mineral dê lugar a novos corpos, na dança milenar das serpentes de carbono. O problema é para quem fica. Quando o pé de manga sai de cena e o sol ilumina minha casa, não vejo o sol, mas sim o vazio deixado pelo corpo que se foi.

Existe sentido nessa relação de chegadas e partidas? Talvez o da gratidão, do amor sobrevivente, fruto do privilégio de ter convivido tanto com aquele corpo e aquela seiva, aquelas raízes. Em casa, minha mãe não corta o toco da mangueira, que agora servirá de “mesa” para vasos de maracujá. Suas raízes continuam na terra. Na casa da minha tia, seu semblante sorridente nos porta-retratos. Depois que o tempo varrer a poeira da dor e do luto, ficará a alegria do exemplo e do afeto.

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Minha mãe recebe uma mensagem católica no celular. Sem ter um único soldado a seu lado, Jesus revolucionou mais do que todo o império militar de Pilatos. Em tempos de fascismo e iniquidade como o que vivemos, é interessante refletir que, de todo o autoritarismo e barbárie na antiga Galiléia, o que permaneceu foi o exemplo de vida do Cristo. Ainda que uma leitura fria e historicista dos evangelhos levem a crer que Jesus foi derrotado.

O filho de Maria e José é, em termos narrativos, o pai de um arquétipo muito familiar na literatura brasileira: Policarpo Quaresma. Assim como aconteceu com o personagem de Lima Barreto, Jesus tentou lutar contra um sistema iníquo e perdeu a batalha. Contudo, seu legado falou mais alto e acabou permanecendo mais do que todos os impérios daquela época. Vão-se as árvores, ficam-se as mais profundas das raízes.

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Por falar em raízes, cheguei em Congonhas com as minhas doloridas, e digo assim sem muita metáfora. Descobri que, há anos, tenho o hábito inconsciente de morder fortemente os dentes, principalmente à noite. Fruto de uma arcada dentária estreitada, que também gera dificuldade ao respirar. Recentemente, um alarme que tocava de madrugada ao lado de casa fez com que esse hábito se intensificasse, tornando insuportáveis as antigas dores de cabeça. Certa madrugada, acordei sentindo cada raiz nervosa da minha face, um horror ainda difícil de descrever.

Agora, já recuperando, observo minhas raízes simbólicas e materiais, nessa fase de transição dos dias frios de julho. Vejo os gatos brincando na terra, perdidos em narrativas que acontecem em uma escala muito menor que a nossa. Eles não se preocupam com a bolsa de valores, a guerra na Síria, ou à violência policial. O grande dilema que lhes aflige, justificando o rosário triste em seu miado, envolve o drama de um pote vazio de ração. Uma volta na casa é o épico que lhes cabe: ao miar na chegada, pedindo para que se abra a porta da área de serviço, é como se cumprisse uma versão felina e minúscula da Odisséia.

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O teatro simpático e diminuto dos gatos me parece tão terno e atraente quanto as cidades de arte naif retratadas nos quadros de folhas de bananeira. Essa escala diferenciada da realidade, presente na arte rupestre ou nas xilogravuras de cordel, é um dos tesouros estéticos cultivados no Brasil, expressão singela e ao mesmo tempo forte, pertinente a um país ainda jovem e em construção.

O elemento rústico tem sido a gota de colírio pingada em meu olhar sobre a vida, me devolvendo o viço depois de tantos dentes apertados. Fiquei dias longe dos grandes e colossais dramas da internet, das “tretas” das redes sociais, das más notícias do país e do mundo. Me revigoro agora nas micronarrativas materiais que orbitam o cotidiano imediato. Histórias que vem com o vento, tal qual a terra minerada que viaja das serras. Como os gatos, cavo em busca de raízes, tentando cuidar melhor das minhas.

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Rafael Senra

Já escreveu de romances até artigos acadêmicos, mas publicou pouco. Seu livro Dois Lados da Mesma Viagem é sobre Milton Nascimento, com prefácio de Fernando Brant. Fez uma graphic novel, Balada Sideral. Também mexe com poesias e composições. Adora gatos, rock progressivo e pesquisa contos de fadas. É Doutor em Letras pela UFJF..
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